Crítica

Beethoven massacrado

Fique-se lá Kissin pelo repertório virtuosístico mas Beethoven, esse não com certeza, que os piores receios se comprovam.

Foto
Evgeny Kissin continua a apostar no virtuosismo pirotécnico

Evgueny Kissin voltou recentemente à Gulbenkian, onde é um favorito do público (como em toda a parte, diga-se), no momento em que é editado este programa totalmente beethoveniano.

É uma equação esta, Beethoven-Kissin, que inspira desde logo os maiores receios. O pianista russo fez a entrada em cena pela porta do virtuosismo pirotécnico, e uma particular ênfase em Chopin, Liszt, Tchaikovski e Rachmaninoff, como “jovem prodígio”, já então no pior sentido da expressão. Os anos passaram, já não é assim “jovem” mas as características do seu pianismo não se alteraram. E com Beethoven não era difícil recear pelo pior — e é isso mesmo que sucede.

Um ou outro momento, um certo encantamento do fraseado no Adagio da Sonata nº3, um Adagio contido (apesar de uma ou outra nota mais forte) na Ao Luar, são excepções num jogo pianístico constantemente martelado, mecânico, precipitado, confuso, confusíssimo. Kissin ensaia uma maratona beethoveniana mas toca como um velocista. O cúmulo é atingido na derradeira Sonata, a nº32, op.111, com essa gigantesca Arietta mais que pesada e com a grande linha destruída por mudanças inexplicavelmente bruscas.

Fique-se lá Kissin pelo repertório vrrtuosístico (e mesmo aí nem sempre é suportável) mas Beethoven, esse não com certeza, que os piores receios se comprovam.