Visita guiada à construção das barragens do Tâmega em ano de seca

Obras de construção do sistema de barragens no rio Tâmega terão o pico de investimento no próximo ano. Até 2023 serão investidos 1500 milhões de euros, dos quais 3% servirão para financiar medidas de desenvolvimento social, económico e cultural da região. Impactos já são bem visíveis no terreno.

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Interior da conduta forçada em aço que irá permitir a passagem da água armazenada na albufeira de Gouvães, até à albufeira de Daivões. Paulo Pimenta
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Vista panorâmica de todo o projecto do Sistema Electroprodutor do Tâmega, que implica a construção de três albufeiras: Alto Tâmega, Daivões e Gouvães Paulo Pimenta
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Local onde vai ser construída chamine de equilíbrio que terá mais 70 metros de altura Paulo Pimenta
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Central subterrânea será construída a 321 metros de profundidade Paulo Pimenta
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Pormenor do acesso á central subterrânea. Paulo Pimenta
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Trabalhos de escavação na galeria que vai receber a central com quatro grupos de 220 MW cada Paulo Pimenta
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A conduta forçada em aço pesa 11.800 toneladas e cerca de 2800 metros de comprimento Paulo Pimenta
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Canal de desvio do rio Tâmega para construção da barragemd e Daivões Paulo Pimenta
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Imagem de algumas das casas que vão ser afectadas pelo enchimento da Albufeira Paulo Pimenta
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Trabalhos na margem da futura albufeira de Daivões Paulo Pimenta
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Trabalhos na margem da futura albufeira de Daivões Paulo Pimenta
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A altura máxima da barragem de Daivões será de 78 metros Paulo Pimenta
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Caverna da futura central de Gouvães Paulo Pimenta
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Trabalhos de escavação da caverna que vai receber os quatro grupos Paulo Pimenta
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Trabalhos de escavação da caverna que vai receber os quatro grupos Paulo Pimenta
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A construção do Museu Escola de Ribeira de Pena recebeu financiamento comunitário. A Iberdrola pagou os 53 mil euros da contrapartida nacional Paulo Pimenta
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As acções de compensação e divulgação da fauna e da flora fazem parte do programa de medidas de compensação e minimização de impacto Paulo Pimenta
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A Iberdrola também está a potencializar o "Boticas Parque - Natureza e Biodiversidade Paulo Pimenta

Inaugurado bem no centro da vila, o Museu da Escola de Ribeira de Pena é um sítio “muitíssimo especial” para João Noronha, o socialista que passou da presidência da Assembleia Municipal para a presidência da autarquia, nas últimas eleições autárquicas. “Foi aqui nesta sala que eu fiz a instrução primária. Com a particularidade, ainda, de o professor da aldeia ser então o meu pai”, conta, enquanto descreve com pormenor como se organizavam os alunos na sala, como se dispunham as cadeiras, como se usavam os tinteiros das mesas. “Estávamos todas na mesma sala, da primeira à quarta classe, organizados por filas. E cada fila fazia o seu exercício, isto ainda no tempo em que molhávamos a pena num tinteiro”, recorda.  Hoje em dia, a  mesma sala tem quase todos esses elementos, mas também quadros interactivos e equipamentos multimédia como recursos para o Centro de Aprendizagem que ali fica à disposição de todos os professores e visitantes.

A antiga escola Adães Bermudes é um edifício centenário, que permite fazer uma espécie de viagem pela história do ensino primário em Portugal e integra uma série de núcleos museológicos que constituem a rede Eco-Museu de Ribeira de Pena, financiada por apoios comunitários, ainda no âmbito do ON2, que antecedeu o Programa Operacional Norte 2020. A particularidade é que a devida contrapartida nacional deste museu (53.810 euros) foi integralmente financiada pela Iberdrola, a empresa que está a construir o Sistema Electroprodutor do Tâmega, anunciado como o maior empreendimento do género em construção em toda a Europa, e o maior de sempre construído na Península Ibérica, um investimento de 1500 milhões de euros e que tem prazo de conclusão previsto para 2023.

O financiamento do Museu da Escola de Ribeira de Pena faz parte do plano de Acção Socioeconómico que a eléctrica assinou com as sete câmaras municipais que estão envolvidas no gigantesco empreendimento - trata-se de um plano plurianual, que tem um orçamento global de 50 milhões de euros e dos quais praticamente metade serão geridos pelas câmaras municipais. Ou seja, cerca de 3% do investimento total do projecto serão canalizados para financiar projectos e infra-estruturas nos concelhos que vão ter o impacto directo da construção do Sistema Electroprodutor do Tâmega, e que são, para além de Ribeira de Pena, os municípios de Boticas, Vila Pouca de Aguiar, Chaves, Valpaços, Montalegre e Cabeceiras de Basto.

O Plano Socioeconómico vai financiar desde instalações desportivas como campos de futebol em Chaves (400 mil euros, para beneficiação do Estádio Municipal Engenheiro Branco Teixeira), um centro equestre em Vila Pouca de Aguiar (375 mil euros pela contrapartida nacional no Centro de Pedras Salgadas), uma pista de desportos radicais em Boticas (653 mil euros) ou equipamentos para bombeiros, viaturas e beneficiação de instalações (348 mil euros) também em Boticas. Em Ribeira de Pena, os apoios serviram não só para financiar contrapartidas nacionais deste tipo de projectos, como para custear integralmente outros que não chegaram a ser alvo de nenhum tipo de candidaturas - como a Casa do Produtor, onde ficaram centralizados todos os serviços de apoio à produção agro-florestal.

Sara Hoya, que tem na Iberdrola a responsabilidade de fazer o acompanhamento deste plano, refere que actualmente já foram entregues aos sete municípios 7,2 milhões de euros. São medidas pensadas para compensar estas populações pelo facto de esta obra lhes trazer mudanças irreversíveis. “Inundar um vale é um dado irreversível”, concede Sara Hoya.  As compensações serão feitas em investimentos em infra-estruturas (45 km de beneficiação de estradadas municipais, redes de saneamento, arranjos urbanísticos), em equipamentos de lazer (parques de campismo, parques de merendas, bungalows), em equipamentos sociais (museus, bombeiros) e em património (financiamento de 1,8 milhões de euros para o Complexo Mineiro de Tresminas). Em cada intervenção, uma placa a lembrar: “construída com o apoio da Iberdrola”.

Pico de obra prestes a arrancar

Apesar da contestação que existe à construção de um sistema de tamanho impacto em termos de volume de obra - afinal são três barragens, que afectam sete municípios e cerca de 500 hectares de área a compensar, com mais de 250 mil plantas a colocar, e anfíbios, mexilhões de rio, peixes e flora protegida a trasladar - o presidente da Câmara de Boticas, Fernando Queiroga, diz que este projecto “em boa hora veio”. 

Não só pelos efeitos económicos que traz durante a fase de construção (o empreendimento vai criar 3500 postos de trabalho directos), mas também por aumentar os níveis de reserva de água. “O país precisa muito deste projecto. Pela contenção de águas que vai fazer e pelo aumento da reserva de água que este ano em particular se nota que é tão importante”, referiu o autarca aludindo ao problema agudo que estão a viver os municípios do distrito de Viseu, com as albufeiras esvaziadas por causa do combate aos incêndios e a enfrentar uma penosa e prolongada situação de seca.

O projecto em causa foi concessionado numa parceria público-privada, na qual a Iberdrola pagou 200 milhões de euros à cabeça, ainda no Governo de José Sócrates, e ficou com a responsabilidade de o construir com a garantia de o explorar e dele obter receitas durante 70 anos. No total serão três aproveitamentos hidroeléctricos: dois de turbinação, no leito do Tâmega (barragens de Alto Tâmega e Daivões) e um de bombagem, em Gouvães, e que vai fazer uma pequena albufeira do rio Torno, um afluente do Tâmega.  Quando prontas, terão capacidade de produção de 1766 GWH, correspondendo a 6% da potência instalada em Portugal. E uma capacidade suficiente para, numa situação de crise, abastecer a área metropolitana do Porto durante 24 horas.

Quanto aos impactos económicos durante a fase de construção, eles já são bem visíveis. No alojamento, na restauração, na taxa de desemprego, “que praticamente não existe na região”, assegura Jose Maria Otero, director da Iberdrola e responsável pela coordenação do projecto com as entidades nacionais. A empresa espanhola anuncia como um dos seus princípios fomentar o emprego na região e contratar, o mais possível, localmente.  Em vez de lançar um concurso e contratar a totalidade da obra a um empreiteiro geral que coordena a totalidade da obra, a Iberdrola optou por fazer consultas ao mercado mais pequenas, projecto a projecto.

É por isso que a Socorpena, uma empresa de construção de Ribeira de Pena, acabou responsável pela construção de todos os acessos rodoviários às centrais de Gouvães e do Alto Tâmega, e acabou, há cerca de um mês, a ser galardoada em Espanha como o Fornecedor do Ano 2017, nos prémios organizados pela Iberdrola. “Pela qualidade do trabalho realizado no contexto do projecto, bem como pela capacidade de cumprir os existentes prazos”, justifica a empresa, no comunicado em que deu conta da notícia. David Rivera, o engenheiro civil que está a assumir a coordenação geral da obra, e que está a fazer a articulação das várias empreitadas que estão em curso, refere que esta é a melhor forma de funcionar.

Os trabalhos de escavação da caverna da central de Gouvães foram adjudicados a um consórcio entre a portuguesa MSF e a espanhola Ferrovial. As construções na albufeira de Gouvães estão a ser feitos por um consórcio entre Mota-Engil, Acciona e Edivisa, os trabalhos de escavação da vala para a instalação da conduta forçada de Gouvães estão a ser feitos pela MSFF, Ferrovial e a alemã Andritz. “A Andritz é a única empresa que podia assegurar a construção e a montagem desta conduta. As chapas de aço chegam aqui em lâminas de 20 centímetros de altura, são dobradas aqui, sendo que o diâmetro chega aos seis metros, e são soldadas no local”, explica Rivera. A Andritz construiu uma camarata para 120 funcionários no interior do próprio estaleiro.

Como é que se organizaram estes consórcios de empresas? José Maria Otero diz que às empresas portuguesas não foi preciso dizer nada, e às espanholas foi referido que era conveniente organizarem-se com empresas portuguesas. “Levamos este assunto muito a sério”, termina.

O ano de 2018 será aquele em que a obra entra em velocidade cruzeiro, mas a conclusão não terminará antes de 2023. Para já, o mais visível é mesmo a  escavação da vala para instalação da gigantesca conduta forçada em aço de 11800 toneladas, com cerca de 2800 metros e que vai implicar mais de 110 toneladas de material de soldadura. A construção das abóbadas das barragens ainda não é visível, estando a obra mais concentrada na fase dos trabalhos de escavação das cavernas para receber os grupos de motores e os circuitos hidráulicos.

Mas está a chegar, agora, a hora de começar a preparar o terreno para os enchimentos e concretizar as negociações com os proprietários das quase 50 casas que vão ficar inundadas por este projecto. A maior parte delas estão no município de Ribeira de Pena, e referem-se à albufeira de Daivões.
Quem vai tratar do realojamento? “Estou muito preocupado com esta questão. Mesmo sabendo que a Iberdrola tem margem financeira para lidar com este processo e tem revelado preocupação e interesse na solução dos problemas”, disse o presidente da Câmara de Ribeira de Pena.

João Noronha explica que se tratam sobretudo de moradores muitos idosos e enraizados, que resistem a mudarem-se para apartamentos, ou são emigrantes que têm aqui a casa de férias e só virão no Verão. “Provavelmente quererão reconstruir as suas casas, mas não temos no município muitas áreas edificáveis. Teremos de olhar para o PDM”, conclui, deixando perceber que o processo ainda está muito no início, apesar de já haver moradores realojados.