“Deus trocou o tempo para não sabermos mais do que ele”

Os poços estão a secar, as bombas suspenderam a lavagem de carros. Os míscaros encareceram até aos 50 euros, os lavradores desistiram das couves. Sem erva, o leite das ovelhas perde qualidade para o queijo. Eis as terras férteis do planalto beirão, a cujas torneiras a água chega agora em camiões.

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“Sempre se ouviu que o fim do mundo seria de água ou de lume. Tenho para mim que será de lume”, persigna-se a mulher de preto, descendo as escadas exteriores da sua casa, num dos pontos altos de Fagilde. Desta casa, cimento à vista porque o dinheiro há-de ter acabado antes de terminadas as obras, não se vê a barragem nem se adivinha, ao fundo, o rio Dão, pasmado, com as margens do leito secas e rachadas, tão escassa se faz a água.

- Em 80 anos, nunca vi um sequeiro assim - lamuria-se Amália Costa Marques, habitante desde sempre no concelho de Mangualde, que – pavoneiam-se os roteiros turísticos da região – é um planalto inclinado para sul, enfaixado pelos rios Dão e Mondego. Estamos na região demarcada do Dão, de verões secos e invernos com muita água, boa para o vinho e para os lameiros onde pastam as cabras e as ovelhas que garantem a produção do queijo.

Só que estamos a meio de Novembro e o termómetro passa dos 20 graus ao meio-dia. E mesmo que a barragem de Fagilde, aqui a escassas centenas de metros, não estivesse à míngua (tendo obrigado Mangualde, mas também Nelas, cujo abastecimento público de água depende igualmente a 100% da barragem, a trazer água de fora em camiões-cisterna) os poços em volta estão a secar todos.

Em Viseu, que depende 65% da mesma barragem, a situação não difere muito, e se a água não tem faltado nas torneiras é porque os autarcas a estão a mandar vir da barragem do Balsemão, em Lamego, por um preço dez vezes superior ao que facturam aos munícipes.

- Até ao final da semana passada, a Câmara de Viseu estava a ter um gasto diário com a compra de água de 20 mil euros por dia – vezes 14 dias, estamos com 280 mil euros de gastos feitos. A partir desta semana, o valor pode duplicar – calculava, quando falou com o PÚBLICO, na quarta-feira, o presidente da Câmara de Viseu, Almeida Henriques. Ontem, o ministro do Ambiente, Matos Fernandes, anunciou mais 45 camiões cisterna para transportar água bruta desde a barragem da Aguieira para a de Fagilde, a um ritmo de 4000 m3 por dia.

Estas contas não entram na cabeça de Amália. O que a aflige é que não lhe seque a água do poço, como à generalidade dos vizinhos. Pouco antes de aqui chegarmos, já ouvíramos Elvira Amaral, a partir do seu campo, ela do lado de dentro da rede de arame, mãos enfiadas em luvas grossas (não por causa do frio, mas porque está a vergastar oliveiras), nós do lado de fora, pé na estrada:

- Costumava pôr feijão, couves e uns nabos, mas este ano nem me atrevi. Se não tinha água para os regar… Queria as couves para o Natal e não as vou ter. E mesmo a azeitona está muito miudinha por causa do sequeiro.

Mas isto foi conversa de passagem, só tida porque parámos a perguntar pelo fontanário nas imediações, onde nos disseram que os carros começaram a fazer fila para se abastecerem da água que começa a faltar-lhes nos poços. Só que as nascentes também já secaram. E foi a ameaça de aridez no solo em volta que nos empurrou o olhar para o pequeno oásis de Amália. Tem um limoeiro do lado esquerdo, uma cameleira rente ao poço e, espalhados, alguns cravos crisântemos brancos a que por aqui se chamam carvalhinhas.

- Aproveito todos os bocadinhos de água para as regar. E vai-me valendo o poço, porque a água da rede mal vem vai-se logo embora. E chega com terra ou lodo, não sei, que não sou estudada nestas coisas”- conta.

Está sentada agora nas escadas, por cujos degraus sobe, rastejando, uma mangueira preta até à varanda onde se amontam bidões azuis e garrafas de plástico. Amália chama barricas aos bidões, e é a partir da água que neles armazena que se vai governando:

- Até para cozinhar uso a água do poço. No chuveiro, também já não sai água da rede: tenho-me lavado numa bacia.

Quando lhe perguntam pelas razões da seca, mistura as alterações climatéricas, os efeitos devastadores dos fogos e o que julga serem os insondáveis desígnios divinos num único raciocínio:

- Será das poluições que há por esse mundo fora. No Verão, os fogos também levaram muita água, viam-se aí os helicópteros a apanhá-la da barragem. Dizem que, no fim do mundo, ‘haviam’ de vir coisas que a gente nunca viu, e elas aí estão. Deus Nosso Senhor trocou o tempo para não sabermos mais do que ele? Não sei. No meu tempo, faziam-se preces para pedir chuva, mas agora ninguém quer crer na religião. Nem se pode falar disso, fazem escárnio.

Não lhe terá chegado aos ouvidos o apelo do cardeal-patriarca, D. Manuel Clemente, que, a partir de Lisboa, pediu aos sacerdotes que incluam orações pela chuva nas missas. A Lurdes Carreira, sim. Mas, mesmo com as fontes em volta sem pingo de água, esta septuagenária que desce a rua com um preto de viuvez ainda a doer não sabe se há-de rezar para vir a chuva ou para não vir.

- Quando vierem as chuvas, esse cinzento todo vem pelo rio abaixo. E como ficará então a água? – questiona, apontando a encosta queimada pelos incêndios que, nem há um mês, os circundaram a todos. E depois, nova pergunta:

- Será que vamos ficar com a água ao preço da gasolina? Com 78 anos, nunca vi as vindimas em Agosto senão este ano (costumam fazer-se lá por Setembro ou Outubro), e nunca vi a azeitona apanhada em Outubro senão este ano (vinha o Carnaval e ainda andávamos em redor da azeitona).

“Tudo varrido a eucaliptos”

Num dos restaurantes do centro de Mangualde (por acaso o mesmo onde o secretário de Estado do Ambiente, Carlos Morais, almoçou na quinta-feira, depois de ter deixado um cheque de 250 mil euros para apoiar o transporte da água), o dono adianta que não voltaria a poder servir-lhe míscaros se ele calhasse de cá voltar.

- Arranjei meia dúzia na praça, para os ‘grávidos’ que vêm das cidades, a 50 euros o quilo, quando costumavam andar entre os 25 e os 30 euros e depois, quando abriam, desciam para os 15 -, declara José Manuel Valério.

Os míscaros são um fungo que precisa de água. Mas não é só por isso que a seca ameaça a gastronomia desta região.

- O leite só é bom quando os animais comem erva fresca. Se só comem palha seca, o queijo ressente-se. Não o de fábrica, que é feito com misturas, mas o artesanal, que hoje custa entre os 20 e os 30 euros por quilo, vai aumentar muito o preço, de certeza -, acrescenta, mão sobre o balcão, por onde passam potes de arroz com tronchuda e entrecosto em vinha d’alho.

Siga-se pelos 18 km de estrada municipal entre Mangualde e Nelas e repare-se no rasto de eucaliptos.

- O eucalipto não é nativo daqui, é o pinheiro. Os homens agora só vêem números e aí tem tudo varrido a eucaliptos, a chupar a água toda -  indigna-se José Loureiro, numa pausa do serviço na bomba de gasolina.

Na estação de gasolina seguinte acabaram agora mesmo de fechar o serviço de lavagem automóvel: - É mais importante a nossa higiene que a do carro - justifica a funcionária Milena Nunes, para explicar que, apesar de ainda esta manhã a água da rede ter saído da torneira meio esbranquiçada e aos soluços, as pessoas continuavam a lavar o carro com a frequência habitual.

- Agora, o poço secou; fica fechado até que volte a chover.

Estender o calendário

Entrados em Nelas, dá-se com o nariz na porta das piscinas municipais, fechadas desde o dia 1. Além disso, a câmara restringiu a utilização da água da rede pública ao consumo doméstico. E não é que o aviso, generalizável aos municípios vizinhos, não tenha chegado até Isabel Amaral. Recuemos a ouvi-la, mãos ainda apoiadas nos buracos da rede de arame:

- Tinha tomates e pimentos e tive pena de os deixar morrer. E as cabras continuam a precisar de beber. No verão, entre incêndios e rega foram 97 euros de água. Mas paguei-a, não fiquei a dever. Se não tenho água no poço onde é que a hei-de ir buscar?!

O autarca de Nelas, que não a ouve, está junto às piscinas a tentar que todos percebam até que ponto está seca a terra.

- Estamos a discutir se a água chega para 10 ou para 20 dias! Isto é uma calamidade. As pessoas têm que ter noção disto - justificou ao PÚBLICO José Borges da Silva. Minutos antes, aos microfones da TSF, o autarca apontara a necessidade de um “racionamento de guerra” e defendeu a declaração do estado de emergência.

- Está a ver o que é uma empresa ligada ao sector automóvel parar por falta de água? São produções a nível mundial que funcionam em cadeia. Já imaginou a desconfiança dos investigadores e a dificuldade que terão em perceber por que é que todos, autarcas incluídos, não souberam prevenir uma situação que sabiam que podia vir a acontecer?

Desde Viseu, Almeida Henriques traça o panorama geral em Viseu, Nelas, Penalva do Castelo e Mangualde, umas oitavas acima na escala do optimismo.

- Com a sensibilização da população, já reduzimos o consumo diário de água dos 20 mil para os 17 mil m3. Estamos a tentar retardar o esgotamento de Fagilde, que já está abaixo dos 10% da sua capacidade. No fundo, é estender um bocadinho o calendário à espera que a chuva chegue.

O cenário não estaria tão dramático se as aeronaves não tivessem andado ali num desvario a sacar água da barragem para apagar os fogos.

- Tiraram-nos cerca de um milhão de metros cúbicos. Se não tivesse sido isso, provavelmente estaríamos tranquilos até Fevereiro ou Março -, contabiliza Almeida Henriques.

O autarca aproveita para lembrar ao Governo a necessidade de construir uma conduta de água que ligue estes municípios à estação de tratamento de águas de Balsemão, em Lamego. Seriam precisos entre 7 a 8,5 milhões de euros. Para já, a única obra garantida é a construção, já no arranque de 2018, de comportas capazes de aumentar a capacidade da barragem de Fagilde. Serão 2,5 milhões de euros para garantir o armazenamento de mais milhão e meio de metros cúbicos.

Para isso, é preciso que chova a cântaros. O IPMA prevê chuva a partir de quarta-feira, mas não passará daquela molha-tolos.

- Se chover um dia ou dois, a água nem chega à barragem, porque a terra está tão sedenta que a bebe toda - antecipa Carlos Ferreira, 41 anos. Alto, moreno, barba de dias, vai apontando com gestos largos a secura do rio pasmado que se vê desta “Casa do Rio”, com vista privilegiada para a barragem.

Marcelo Rebelo de Sousa ainda há dias por aqui andou, deixando um eco de estupefacção perante o baixo nível das águas, antes de voltar a fazer-se à estrada na sua costumeira energia de Bip Bip a fugir de coiotes. Foi-se o Presidente e ficou Carlos Pereira a remoer preocupações a partir deste enorme deque de madeira com direito a prancha de mergulho no rio, se rio houvesse.

- Logo em Agosto, proibi os mergulhos. A água, que numa situação normal chega até ao deque, já estava tão afastada que se tornava perigoso…

Não fosse o estrelejar das folhas de carvalho e das bolotas sob as solas, dir-se-ia ainda Verão. De resto, a esplanada continua em parte montada, o cartaz dos gelados também não saiu do sítio, cinzeiros sobre as mesas. Ouve-se o rumorejar da brisa nas folhas quebradiças, será do Outono ou da seca, ou tudo junto, parece que estamos dentro de uma música do Fausto.

Carlos Pereira volta a puxar-nos para a seca realidade:

- O poço da quinta da minha mãe, cheio de água há mais de 40 anos, está a querer secar. Tem 10 ovelhas, mas, acabando-se a folhagem das oliveiras e o resto das videiras, vai comprar fardos de palha? Ela já disse que vai matar mais três.

Na casa de Carlos, sacam todos do regador quando vão ao chuveiro para impedir que aqueles primeiros 20 litros de água fria vão pelo cano abaixo.

- Costumava dizer a brincar que se algum dia nos faltasse água aqui já mais de metade do país estaria seco. Sinceramente, julgo que ainda ninguém interiorizou a gravidade disto tudo.