Eleições

Menos leais a partidos, eleitores votam sobretudo nos líderes

Politólogos alertam para a crescente importância dos líderes partidários em detrimento dos partidos. Aviso encaixa que nem uma luva no actual momento político, com a escolha do próximo presidente do PSD.
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Passos Coelho com Santana Lopes e Rui Rio LUSA/HUGO DELGADO

A crise foi uma das responsáveis pela crescente deslealdade dos eleitores em relação aos partidos e a consequência dessa falta de fidelidade é  que o voto dos eleitores passou a ser mais determinado pelos líderes partidários. Daí o aviso da politóloga Marina Costa Lobo: “Tanto PS como PSD devem ponderar muito bem se os candidatos que apresentam são vistos como competentes para o cargo de primeiro-ministro, pois isso é determinante para o desfecho eleitoral nestes partidos”, diz ao PÚBLICO a co-autora do artigo Prime ministers in the age of austerity: an increase in the personalisation of voting behaviour.

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A pesquisa começou a ser feita em 2002, mas as primeiras conclusões, agora publicadas no West European Politics Journal, servem que nem uma luva ao actual momento político, tendo em conta que os sociais-democratas estão a escolher o líder do PSD, aquele que representará o maior partido de direita em Portugal e, actualmente, o maior partido da oposição.

Este contexto levou, aliás, Marina Costa Lobo a alertar, num artigo de opinião no PÚBLICO, para os riscos da escolha que os sociais-democratas estão a fazer (entre Santana Lopes e Rui Rio): “Do ponto de vista eleitoral, Pedro Santana Lopes foi o líder que menos votos trouxe ao PSD. Menos ainda que Ferreira Leite, a líder menos popular do PSD no mesmo período. Através de inquéritos pós-eleitorais, comparámos recentemente a importância dos líderes para explicar o voto entre 2002 e 2015 em Portugal e verificámos que este foi o líder do PSD que menos votantes conseguiu mobilizar.” Já no PS, o líder que menos votos mobilizou foi Ferro Rodrigues.

Mas qual foi o papel da crise no comportamento dos eleitores? “A crise que vivemos deixou marcas no eleitorado que se tornou muito menos leal a qualquer um dos dois grandes partidos. Isso tem consequências importantes, porque sinaliza que não há resultados nas legislativas que possam ser tomados por garantidos à partida. Nessa realidade fluída que é a nossa, vemos que o líder partidário é central para o sentido de voto dos portugueses”, alerta Marina Costa Lobo, em respostas enviadas ao PÚBLICO por email.

Esta crescente personalização do voto não é, porém, exclusiva de Portugal: “Nos debates sobre o funcionamento das democracias hoje acredita-se que haja uma cada vez maior personalização do voto. Esta personalização ocorre, entre outras coisas, porque as campanhas eleitorais se centram cada vez mais em pessoas, em vez de em programas, e porque os votantes são cada vez menos leais a um partido”, nota a académica, fazendo, no entanto, questão de desdramatizar o fenómeno: “Essa deslealdade sinaliza uma relação mais condicional entre eleitores e eleitos, e não deve ser vista negativamente. As pessoas deixam de votar num partido só ‘porque sempre o fizeram’ e passam a perguntar mais quem consegue gerir melhor a economia no contexto em que se encontram ou quem é o líder mais competente.”

O antes e depois de 2009

Apesar de a conclusão da pesquisa ser a de que “os líderes se tornaram mais importantes” para os dois maiores partidos portugueses, PS e PSD, no período analisado (entre 2002 e 2015), há nuances a ter em conta: “Detectamos duas fases: antes e depois de 2009, com o peso dos líderes a aumentar depois dessa data. Apesar desta tendência generalizada, há diferenças entre PS e PSD. No PS, o aumento é mais gradual, tendo começado logo em 2005 com a chegada de Sócrates ao poder. No PSD é mais abrupto, Passos Coelho faz a diferença em 2011 e 2015, é muito mais importante do que os líderes anteriores”, diz, acrescentando que são estes os “líderes mais mobilizadores do voto, respectivamente para cada partido” na fase analisada.

Apesar de lembrar que “o período de austeridade foi muito complicado para a credibilidade do Governo na medida em que a insatisfação com os partidos e com a democracia aumentaram muito” e que “as percepções sobre a economia eram quase unanimemente negativas”, a investigadora sublinha o papel dos líderes: “Neste contexto a capacidade dos líderes serem um activo para os partidos torna-se mais difícil. Mesmo assim, vemos que, no caso de Sócrates em 2009 e 2011, ele é muito importante para explicar o voto dos optimistas económicos e dos que se identificam com o PS. À direita, Passos Coelho foi capaz de mobilizar votantes que não eram à partida do PSD, portanto desalinhados tanto em 2011 como em 2015.”

Desde 2002 que um grupo de investigadores em Ciência Política tem vindo a realizar inquéritos pós-eleitorais para compreender o sentido do voto dos portugueses. O artigo em causa analisa a importância dos líderes para explicar o voto no PS e no PSD, entre 2002 e 2015 – o que significa que abrange vários líderes sociais-democratas e socialistas, tais como Durão Barroso, Santana Lopes, Manuela Ferreira Leite, Passos Coelho, Ferro Rodrigues, José Sócrates, e António Costa.