As coisas boas da Costa Má

As casas e os quartos do Moleiro da Costa Má ficam num recanto silencioso de Sever de Vouga, junto ao rio Mau. Ali vai desligar do mundo, experimentar produtos biológicos e, se tiver tempo, mergulhar num banho retemperador com ervas aromáticas, no meio da natureza.

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Quando se instalar no Moleiro da Costa Má não se esqueça que está a entrar na memória de António Oliveira e no sonho de futuro de António Oliveira. Tudo no mesmo espaço. E é importante que não se esqueça, porque cada recanto deste espaço de agroturismo é o reflexo do que acabou de ler.

Estes são os espaços da sua infância, quando o avô ainda era o proprietário da quinta de 10 hectares que comprara ao moleiro local. Onde se erguem hoje os sete quartos duplos e as áreas comuns é onde funcionavam os moinhos de água, que as pessoas das redondezas utilizavam amiúde, para moer os cereais que cultivavam. “Depois, apareceram os moinhos eléctricos e as pessoas deixaram de vir”, lembra agora António Oliveira. A quinta ficou, por isso, ao abandono, e, quando o avô morreu, o espaço foi retalhado entre os vários herdeiros. Coube ao neto, arquitecto e hoje com 44 anos, voltar a comprar tudo o que tinha sido distribuído pela família e fazer da quinta um espaço uno outra vez.

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Nelson Garrido

Hoje, naquele local de silêncio onde apenas se ouve o rio Mau a saltar no pequeno açude junto aos quartos, António diz que sente cada vez menos saudades da agitação das cidades. E ele já andou por várias. Tirou a licenciatura em Coimbra, o mestrado em Lisboa e fez o doutoramento em Manchester, na Inglaterra, onde também deu aulas. Agora, admite que é preciso sair daquele recanto escondido do mundo de vez em quando, mas não por muito tempo. “Assim que me apanho numa fila de trânsito começo a pensar o que estou ali a fazer”, sorri.

A quinta está a crescer, mas ainda não atingiu todo o potencial que o proprietário sonhou para ela. Começou pela produção de mirtilos e de ervas aromáticas. Somou-lhe, há três anos, a abertura das três casas turísticas e, em Junho deste ano, dos sete quartos. “O que eu queria mesmo era ter aqui um centro de investigação de arte e design”, confessa. E a ideia não está posta de lado. “Estamos a começar a organizar algumas actividades, vamos ver.”

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Por enquanto, quem escolher passar alguns dias no Moleiro da Costa Má fica com uma garantia. “É um local de ruptura com o dia-a-dia. Pretendo que seja um espaço criativo e de reflexão, com uma vertente ecológica e pedagógica muito forte, mas tem também essa componente de relaxamento, de desligar”, descreve António.

E isso consegue-se de várias formas. Desde logo, não há televisões nos quartos — se quiser ligar-se ao mundo por esse modo, terá que ir até à sala comum. O espaço tem wi-fi, que funciona muito bem nas zonas comuns, mas nem tanto nos quartos. Há sempre chá à disposição, com ervas e misturas de ervas colhidas na quinta. A manhã começa com sumo de produtos dali (calhou-nos mirtilo e estava tão bom) e ainda há um moinho que funciona quando é preciso cozer pão. Laranjas, tangerinas, maçãs ou framboesas (quando é época) também saltam dos terrenos ali ao lado para a mesa e o mesmo se pode dizer de praticamente tudo o que a dona Natália ou a Tânia, pela manhã, lhe porão à frente. Só o peixe e a carne é que vêm de fora e, neste último caso, nem sempre.

Saindo do núcleo de casas, onde se chega por uma estrada estreita e sinuosa mas recentemente alcatroada, há trilhos para explorar e redes presas a árvores para se estender quando entender. Se quiser, pode participar nas actividades da quinta ou ir experimentar a sauna que está paredes-meias com o pequeno moinho funcional coberto de hera.

Já agora, aquela banheira com o interior manchado de castanho, que parece uma instalação artística no meio da natureza, é o que António chama “os banhos”. “A cor é dos banhos que preparamos, que são, literalmente, chás em que as pessoas mergulham.” E, se tudo isto não lhe chega, ainda há massagens e outros tratamentos de rosto e corpo que pode pedir e que serão levados até à porta do seu alojamento.

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Mas — e ele também deixa o aviso — não espere um local “perfeito”. A paisagem não é perfeita (aquelas manchas de eucalipto ficam, pelo menos, escondidas pelos carvalhos, amieiros e salgueiros junto ao rio), a comida vem em tachos para a mesa e os sofás em que se vai sentar não são novos a estrear. António diz que quis construir ali um ambiente o mais caseiro possível, familiar, e que só se não tiver outra possibilidade é que adquire algum mobiliário novo. Tudo o resto são coisas usadas que vai encontrando e adquirindo aos poucos. E por isso é que na sala, por baixo da televisão, há um maravilhoso móvel em madeira que esconde um gira-discos e um rádio com um som que parece mais quente do que os actuais — tudo com mais de 40 anos e ainda a funcionar.

Esta vontade de reutilização das coisas, do recurso ao biológico e natural, tem muito a ver com toda a filosofia que António quis transpor para o Moleiro da Costa Má e que é visível também no revestimento exterior do núcleo dos quartos, feito em cortiça. “É 100% nacional, natural e um excelente isolador térmico e acústico. Além disso, é óptimo para explorar a parte criativa”, diz o arquitecto, imaginando já aquelas paredes perfuradas por bilhetes, desenhos ou brochuras a desvendar actividades para fazer.

Auto-suficiente e totalmente biológica. É esse o caminho que a quinta do Moleiro da Costa Má está a traçar, sob o olhar plácido e a voz calma de António Oliveira. Que, nos tempos livres, ainda escreve contos. E recebe amigos que lhe deixam pequenas obras (serigrafias, desenhos) espalhadas pelas paredes da casa. A lareira em pedra ainda não estava acesa e estava demasiado frio para experimentar a piscina exterior, alimentada por água de uma nascente e sem qualquer tratamento químico. Mas ficar simplesmente ali, entre os tachos da dona Natália, o silêncio da noite coberta de estrelas e a frescura de um sumo de mirtilo pela manhã, já teve a bênção de um longo suspiro, antes de se voltar à realidade. E de certeza que Antónioficaria contente por saber que foi esse o efeito que o seu Moleiro teve em nós.

A Fugas esteve alojada a convite do Moleiro da Costa Má