Espólio de Manuel António Pina vai ser digitalizado

A Faculdade de Letras da Universidade do Porto vai receber uma bolsa da Fundação Gulbenkian para assegurar a digitalização do espólio de Manuel António Pina, anunciou a família do escritor e jornalista, que faria este sábado 74 anos.

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Duas páginas de um desses famosos caderninhos Moleskine de capa preta com um rascunho bastante inicial de um poema

Actualmente encaixotados em casa de familiares, os papéis deixados pelo poeta, ficcionista, cronista e dramaturgo Manuel António Pina (1943-2012), prémio Camões em 2011, vão ser digitalizados pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP) com o apoio financeiro da Fundação Gulbenkian. Um conjunto que inclui originais dos seus livros, rascunhos de poemas, correspondência, desenhos, e muitos desses caderninhos Moleskine de capa preta que trazia sempre consigo e nos quais ia apontando coisas de diversa natureza: um verso que acabara de lhe vir à cabeça, uma citação do livro que andasse a ler, uma lista de coisas a comprar no supermercado (que dificilmente deixaria de incluir comida de gato).

A notícia foi divulgada pela família do escritor, que faria este sábado 74 anos, data igualmente evocada pela Porto Editora com o lançamento de uma nova edição de A Noite, um dos seus muitos livros para crianças, levado ao palco em 2001 pela companhia Pé de Vento ainda antes de ser publicado, no final desse ano, pela editora Campo das Letras.

O arquivo de Manuel António Pina foi já avaliado pela FLUP, que receberá da Gulbenkian uma bolsa de seis mil euros para assegurar a sua digitalização, trabalho que será adjudicado a uma empresa especializada e que deverá iniciar-se em breve. Os materiais digitalizados deverão ficar depois à guarda do Centro de Estudos da Cultura em Portugal (CECP), uma instituição recentemente criada pela FLUP para acolher, tratar e investigar acervos documentais relevantes para a cultura e literatura portuguesas.

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O escritor na sua casa do Porto em 2011 Adriana Miranda

Dirigido pela professora Fernanda Ribeiro, este centro virá a funcionar num edifício da FLUP, o chamado palacete Burmester, que entrará ainda este ano em obras de remodelação, cuja conclusão está prevista para o final de 2018. É lá que ficarão alguns acervos literários que a faculdade já detinha, e também o arquivo e a gigantesca biblioteca de Vasco Graça Moura, ali depositada por um período de 25 anos.

Foi também no âmbito do CECP que a Faculdade de Letras do Porto digitalizou em 2016 o arquivo do poeta Herberto Helder (1930-2015), igualmente com uma bolsa da Gulbenkian, cujo apoio, em ambos os casos, foi conseguido com a intermediação do ensaísta Arnaldo Saraiva, professor jubilado da FLUP.

O destino que a família de Manuel António Pina dará ao arquivo físico ainda não está decidido, explicou ao PÚBLICO Sara Pina, filha do escritor, notando que estes papéis, para lá da sua importância para o estudo da obra literária do pai, reflectem também a sua longa carreira como jornalista e incluem documentos interessantes para se historiar o desenvolvimento da imprensa portuguesa desde os anos que antecederam o 25 de Abril de 1974.

Não é também ainda claro em que exactas condições os documentos virão a poder ser consultados após a sua digitalização, mas Sara Pina disse ao PÚBLICO que, “pessoalmente, gostaria que este arquivo ficasse aberto à comunidade”. E para dar uma imagem visual do tipo de materiais que se encontram no espólio, cedeu ao PÚBLICO a reprodução de duas páginas de um desses famosos caderninhos em que muitos dos poemas de Manuel António Pina iam confusamente tomando forma antes de serem dados como concluídos, passados a limpo e publicados. Trata-se do rascunho bastante inicial de um poema do seu último livro, Como se Desenha Uma Casa (2011), que aqui publicamos na íntegra.