Editorial

A última guerra civil de Angola

Nada do que aconteceu ontem é um detalhe. Ainda não é a garantia de que a riqueza do Estado angolano vá começar finalmente a reverter a favor dos angolanos, mas já dá para respirar melhor.

Hoje Angola acordou a respirar melhor. Não é um detalhe. O que aconteceu ontem é um passo importantíssimo para ajudar a acabar com um dos regimes mais criminosos do planeta e pode ser o equivalente a uma revolução num país que continuava a não se cumprir.

A surpreendente acção do novo Presidente angolano, João Lourenço, começou a afastar a família Dos Santos do controlo económico do país. Já estão fora dos petróleos, dos diamantes e da televisão pública, tal como tinham já sido afastados os seus acólitos do Banco Nacional e de várias empresas de media e de minérios. Ainda não acabou, porque falta a jóia da coroa do dinheiro angolano: o Fundo Soberano de Angola, que vale cinco mil milhões de dólares e ainda é gerido por um dos filhos de José Eduardo dos Santos — é nele que se concentra agora toda a pressão. Se esse último reduto também for para longe do clã, será um sinal definitivo da mudança de poder em Angola, em notáveis dois meses de mandato de João Lourenço. E que também poderá ter implicações em Portugal.

Tudo isto significa que a guerra pelo controlo do poder angolano está ao rubro e que a afronta à família Dos Santos vai ter consequências, que serão tanto maiores quanto for o poder do velho ex-Presidente. E convém recordar que nesta batalha há três forças, porque entre o anterior e o actual Presidente há o aparelho de Estado controlado pelas forças opacas do MPLA. O poder também se exerce nas polícias, no Exército e nos gabinetes ministeriais, que estão cheios de homens do aparelho que servem os todo-poderosos que ainda mandam no país desde o fim da guerra civil. Esses quererão agora controlar os fluxos financeiros do país, de forma a dominar o futuro de Angola – mas o Presidente precisa do dinheiro para executar o seu programa de Governo.

Abrir a economia não se fará sem custo e não há forma de piorar ainda mais as condições de vida num país onde quase tudo está por fazer. Transformar o investimento público de um fundo familiar num projecto nacional exige uma mudança de cultura profunda que vai mexer com quase tudo no país, mas pode finalmente levar ao nascimento de uma classe média com voz e capacidade que se possa fazer ouvir para lá das redes sociais onde ontem se repetiam os sorrisos de surpresa e os suspiros de alívio.

Nada do que aconteceu ontem é um detalhe. É muito importante. Ainda não é a garantia de que a riqueza do Estado angolano vá começar finalmente a reverter a favor dos angolanos, mas já dá para respirar melhor.  

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