Opinião

Secas que transformaram civilizações e a seca em Portugal

Há muitos exemplos de secas que provocaram colapsos e transições civilizacionais.

No Egipto, o ciclo exterior mais importante, para além do movimento aparente diurno do Sol, era a cheia anual do Nilo que inundava e fertilizava os campos preparando-os naturalmente para as culturas agrícolas essenciais à vida das populações. As três estações do ano correspondiam às três fases fundamentais daquele ciclo. A primeira, chamada Akhet ou inundação, começava com a inundação cíclica do vale do Nilo no princípio do Verão provocada pelas chuvas das monções na região da Etiópia e do alto Nilo e durava de Junho a Setembro. A segunda, chamada Peret ou crescimento, era o período das sementeiras, do ressurgimento da vida vegetal e animal e coincidia com os meses de Outubro a Janeiro. Finalmente, Shemu ou águas baixas era a fase das colheitas de Fevereiro a Maio.

Embora o início da cheia anual do Nilo fosse previsível, a altura máxima que as águas atingiam era muito variável e imprevisível. Cheias muito altas eram destrutivas e podiam devastar povoações e infraestruturas ribeirinhas. Em contrapartida, as cheias fracas diminuíam a produção agrícola e podiam causar a fome generalizada. O progresso da cheia era essencial para planear o novo ano e provavelmente para calcular o valor dos impostos nesse ano.

Os sacerdotes dos templos alimentavam a fama de predizerem a altura das cheias anuais e mediam a altura das águas do Nilo por meio de nilómetros. Alguns deles perduraram até à atualidade, tais como os de Elephantine, Edfu, Esna, Kom Ombo, Dendera e Thmuis. São formados por corredores com escadarias que conduzem ao rio e cujos degraus vão ficando submersos com o avanço da cheia ou poços ligados por um túnel ao rio e acessíveis também por uma escadaria. Os nilómetros foram usados durante mais de 5000 anos e existem registos escritos do nível das águas do Nilo durante grande parte desse período, especialmente nos últimos 14 séculos. A análise destes dados permitiu concluir que a variabilidade das cheias no Nilo está correlacionada com o fenómeno da Oscilação Sul – El Niño.

A monção da África Oriental é a principal origem da precipitação que alimenta o Nilo através das águas do Nilo Azul. Na situação de El Niño, as águas do Pacífico equatorial leste estão anormalmente quentes, o que gera movimentos ascensionais na atmosfera e chuvas intensas, enquanto na região ocidental, incluindo o Índico, geram-se movimentos descendentes anómalos que enfraquecem a monção e provocam secas no planalto da Etiópia, onde nasce o Nilo Azul, e caudais muito baixos no Nilo Azul e no Nilo. Com a construção de barragens, o nível das águas do Nilo deixou de estar correlacionado com o El Niño, mas a análise dos registos históricos das cheias desde o ano de 622 permite concluir que a maior frequência de eventos de El Niño observada desde os finais da década de 1970, durante cerca de quatro décadas consecutivas, relativamente aos períodos anteriores, é provavelmente uma anomalia provocada pelas alterações climáticas antropogénicas (Trenberth, 1996). Projeções baseadas em cenários climáticos indicam que os eventos extremos de El Niño e de La Niña se vão tornar progressivamente mais frequentes com as alterações climáticas (Wang, 2017).

Após o final do Império Antigo, cerca do ano de 2150 a.C. e durante duas ou três décadas, as cheias do Nilo diminuíram drasticamente, as areias invadiram parte do vale do rio, o lago de Faiyum secou, os solos do delta degradaram-se, a fome estendeu-se por todo o Egipto e paralisou as instituições políticas, semeando o caos. Na parte biográfica das inscrições do túmulo de Ankhtifi, governador de Edfu e Hierakonpolis na IX dinastia, lê-se que “todo o país ficou como se fossem gafanhotos à procura de comida”. As pessoas eram levadas a praticar atrocidades tremendas devido à fome, incluindo, muito provavelmente, o canibalismo. Houve templos vandalizados e saqueados e estátuas destruídas. A governação centralizada do faraó colapsou e os governadores das várias regiões passaram a assumir o poder a nível local e a guerrear-se. Iniciou-se o chamado Primeiro Período Intermediário da história do Egipto. Porém, passados cerca de 100 anos, a governação centralizada ressurgiu com a reunificação do Egipto realizada pelo faraó Mentuhotep II, cujo reinado iniciou o Império do Meio e durou de 2055 a 1650 a. C.

A profunda crise que afetou o Egipto gerou um novo quadro político caracterizado por uma maior sensibilidade para as questões sociais, a misericórdia e a compaixão. Esta terá sido provavelmente a primeira vez na história das civilizações que um governo, baseado numa hierarquia forte e centralizadora, adotou, embora sob uma forma embrionária, conceitos sociais de equidade que impunham ao faraó proteger os mais fracos e pobres na sociedade, especialmente em períodos de adversidade. Mais tarde, estes conceitos e práticas floresceram sob diversas formas com o cristianismo e o islamismo. Uma das manifestações mais claras da transição para novas formas de igualdade foi tornar a imortalidade acessível a todos e não apenas ao faraó e às elites dos dirigentes e sacerdotes. A fórmula encontrada foi considerar todos iguais assumindo que, para efeitos de acesso à imortalidade, cada um é um faraó. Os detalhes práticos sobre como aceder à imortalidade estavam escritos no interior dos sarcófagos.

Dados paleoclimáticos revelam que entre 2350 e 1850 a.C. houve períodos de secas severas em várias regiões do mundo, uma das quais originou os níveis muito baixos do Nilo no Egipto a partir de 2200 a.C. Outras regiões afetadas foram a América do Norte, o Mediterrâneo, o Médio Oriente, África Oriental, Índia e a China. É muito provável que essas secas tenham sido a causa principal do colapso do Império Acádio na Mesopotâmia e da cultura Liangzhu, a última do jade no delta do rio Iangtzé, na China, na região onde hoje está Xangai. A mudança climática para um clima mais seco há cerca de 4200 anos deu-se também na Península Ibérica na Idade do Bronze e está na origem de umas construções intrigantes em pedra que se encontram na região de Castilla La Mancha, em Espanha, próximo de Ciudad Real, chamadas Motillas. Investigações arqueológicas nos últimos anos levaram à conclusão que as Motillas eram edificações destinadas a aproveitar as águas subterrâneas e a armazenar água e cereais numa época de grande aridez. Na Motilla de Azuer encontrou-se um poço com cerca de 4000 anos, provavelmente o mais antigo da Península, que permitia ir buscar água a um nível freático profundo. A construção dos poços na cultura das Motillas foi uma solução de sucesso para fazer face à seca, que contribuiu para impulsionar a transição para uma sociedade mais complexa e estruturada. Quanto à origem do evento climático de seca de há 4200 anos sabe-se ainda muito pouco. Poderá estar relacionado com variações da temperatura superficial no Oeste do Pacífico, Índico e no Atlântico Norte. 

Há muitos outros exemplos de secas que provocaram colapsos e transições civilizacionais. No período de 750 a 900 d.C. deu-se o colapso da civilização Maia Clássica que resultou em parte de períodos de seca prolongados. Situação análoga deu-se com o Império Tiwanaku entre 1000 e 1100 d.C. e com o Império Khmer baseado em Angkor, no Camboja, nos séculos XIV e XV.

Recentemente houve uma seca na região da Síria que durou 15 anos, de 1998 a 2012, tendo sido a mais intensa dos últimos 500 anos (Cook, 2016). As suas consequências contribuíram para criar as condições que levaram à guerra civil iniciada em março de 2011, que matou entre 331 e 475 milhares de pessoas e levou cerca de 5,1 milhões de refugiados a abandonarem a Síria.

Devido às alterações climáticas antropogénicas, a média decadal da precipitação anual tem estado a diminuir no Mediterrâneo, especialmente na Península Ibérica, Península Balcânica e região do Médio Oriente, onde se encontra Israel, Jordânia, Palestina e Síria. As secas estão a tornar-se mais frequentes e prolongadas e a seca na Síria insere-se nesta tendência, que tende a agravar-se. A severidade da seca que afeta atualmente grande parte da Península Ibérica é muito provavelmente mais uma manifestação das alterações climáticas.

Nos últimos 13 meses, desde outubro de 2016 a outubro de 2017, não houve um único mês em que uma parte de Portugal Continental não estivesse na situação de seca. O melhor mês foi março de 2017, em que apenas algumas regiões tinham seca fraca. Em Portugal, a seca é já gravíssima e não sabemos quando irá terminar. Pode chover abundantemente este inverno ou haver apenas chuva fraca. As consequências desta última hipótese são preocupantes e urge estar preparados para as enfrentar. Aquilo que sabemos com bastante segurança é que se o Acordo de Paris não for cumprido, o centro e sul da Península Ibérica irão tornar-se perigosamente áridos. É necessário adaptar-nos às alterações climáticas e termos planos de contingência de médio e longo prazo adequados para diversos cenários futuros.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico