Taxa de mortalidade do surto de Legionella está nos 10%. É normal, diz especialista

A taxa de mortalidade varia de acordo com a susceptibilidade dos infectados e a precocidade do início da terapêutica com antibióticos, explica o penumologista Filipe Froes.

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

No dia em que o ministro da Saúde pediu desculpa às vítimas do surto de Legionella do Hospital de S. Francisco Xavier (Lisboa), foi anunciada a morte de mais um doente ali internado, uma mulher de 76 anos, e o número de infectados subiu para 50. Trinta e cinco pessoas continuavam esta segunda-feira internadas, seis das quais em unidades de cuidados intensivos.

Em pouco mais de duas semanas, cinco pessoas não resistiram às pneumonias graves provocada pela doença dos legionários. É uma taxa de mortalidade de 10%, que “é normal” tendo em conta as circunstâncias, afirma o pneumologista e consultor da Direcção-Geral da Saúde (DGS) Filipe Froes.

Taxa varia de acordo com dois factores 

A taxa de letalidade da doença dos legionários varia entre 5 a 10% do total de infectados, segundo o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês). Mas os surtos desta doença têm provocado taxas de mortalidade que variam de forma acentuada consoante os locais e as circunstâncias em que ocorrem.

O prognóstico e a taxa de mortalidade na doença dos legionários, explica Filipe Froes, variam de acordo com dois factores: a susceptibilidade dos infectados e a precocidade do início da terapêutica com antibióticos.

Sendo a pneumonia muito comum em Portugal - um estudo que avaliou dados do período entre 2000 e 2009 concluiu que havia então 81 internamentos e 16 mortes por dia por este motivo - e tendo a Legionella uma forma de apresentação inicial em que predominam sintomas e sinais extrapulmonares, nomeadamente cansaço, cefaleias, tosse seca, isto contribui para para atrasar o diagnóstico, sublinha.

A febre muito alta (da ordem dos 40 º, o que é pouco habitual em adultos) pode ajudar a identificar a bactéria, acrescenta o consultor da DGS, que acredita não ser provável que a partir desta terça ou quarta-feira surjam mais casos no S. Francisco Xavier, tendo em conta o período de incubação da doença.

"Abrandamento do surto"

“As indicações epidemiológicas apontam para um abrandamento e resolução do surto”, frisou também esta segunda-feira a directora-geral da Saúde, Graça Freitas, em comunicado.

No surto de Vila Franca de Xira, com 14 mortes, a taxa de mortalidade foi substancialmente inferior, da ordem dos 3,5%, o que é compreensível, diz ainda Filipe Froes. A população afectada era uma população em idade activa, mais jovem, e provavelmente não tinha uma elevada prevalência de patologias crónicas, ao contrário da maior parte dos pacientes do S. Francisco Xavier afectados por este surto, acrescenta.

Em Portugal, a tendência tem sido para um aumento de casos reportados após o surto de Vila Franca de Xira. Mas, em 2014, numa análise aos dez anos do programa de vigilância da doença dos legionários, a DGS admitia que havia subnotificação de casos. Nessa altura, a mortalidade resultante da doença situava-se nos 5% dos casos notificados, abaixo da média então reportada na União Europeia (7%).

Os últimos dados do ECDC indicam que o número de casos notificados está a aumentar: em 2015, a Legionella terá infectado mais de 7 mil pessoas na UE, o valor mais elevado desde que há registo.