Festa da arquitectura com jazz em fundo

Além da ala da arquitectura, a antiga Real Vinícola vai também acolher a Orquestra Jazz de Matosinhos. Para lá das exposições, o programa da inauguração quer mostrar as potencialidades de um novo bairro cultural.

Orquestra Jazz de Matosinhos em concerto na Casa da Música, em 2014
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Orquestra Jazz de Matosinhos em concerto na Casa da Música, em 2014 Fernando Veludo/NFactos

Uma casa das artes e de animação cultural com arquitectura e história em fundo. É este, em síntese, o projecto da nova Casa da Arquitectura, que quer inscrever definitivamente Matosinhos no mapa cultural da região e do país. E o programa com que a instituição assinala a inauguração das novas instalações no reconvertido edifício da Real Vinícola é um statement da grande ambição do projecto.

Vai haver exposições de arquitectura, visitas guiadas, oficinas, conferências, encontros, lançamento de livros, leituras encenadas. Mas também música, cinema, dança, performance e até um “baile dos candeeiros”.

O prato forte do programa é a exposição Poder Arquitectura, que vai ocupar os 800 metros quadrados da nave principal do edifício. Comissariada pelos arquitectos Jorge Carvalho, Pedro Bandeira e Ricardo Carvalho (também crítico de arquitectura do PÚBLICO), a mostra exibe maquetas, fotografias, postais, desenhos, livros, revistas e vídeos a documentar uma centena de projectos de arquitectos e gabinetes de todo o mundo, e construídos em diferentes países: de Álvaro Siza a Peter W. Soderman, de Souto de Moura a Herzog & de Meuron, de Nuno Grande a Renato Rizzi, de Nuno Brandão Costa à Dietmar Feichtinger Architectes, da Promontório Arquitectos à OMA de Rem Koolhaas…

PÚBLICO -
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Nuno Sampaio é, desde 2014, o director executivo da CA, e quer inscrevê-la no mapa internacional do sector Nelson Garrido

“O poder na arquitectura é um tema fundamental para questionar o modo como a sociedade contemporânea e a arquitectura trabalham em conjunto”, escrevem os comissários desta exposição, que vai ficar patente até 18 de Março de 2018.

Na designada Galeria da Casa, serão mostradas obras que fizeram a X Bienal Ibero-Americana de Arquitectura e Urbanismo (BIAU), realizada no último Verão em São Paulo, e que atribuiu o prémio principal a Eduardo Souto de Moura. “Entendemos que seria interessante acolher esta exposição, que passou já também por Milão e por Sevilha, e com ela celebrar a nível nacional o prémio dado a Souto de Moura”, justifica Nuno Sampaio, realçando que “nem sempre nos preocupamos em reconhecer o sucesso internacional dos nossos profissionais”.

Comissariada pela dupla de arquitectos espanhóis Ângela García de Paredes e Ignacio G. Pedrosa, e pelo brasileiro Álvaro Puntoni, a mostra lembrará também outros projectos portugueses distinguidos na BIAU: dos ateliers Aires Mateus (sede da EDP, em Lisboa, e Casa do Tempo, no Alentejo) e SAMI (Casa E/C no Pico, Açores), João Mendes Ribeiro, Cristina Guedes e Francisco Vieira de Campos (Arquipélago – Centro de Artes Contemporâneas, Açores), e ainda as edições Uma Anatomia do Livro de Arquitectura, de André Tavares (Dafne e CCA), e A Idade Maior. Cultura e Tecnologia na Arquitectura Moderna Portuguesa, de Anta Tostões (FAUP).

Em diálogo directo com estas duas exposições, o programa Please Share, comissariado por Roberto Cremascoli, põe desta vez em debate “a contaminação entre os saberes”. O terceiro capítulo de Please Share é subordinado ao tema Influence e dedicado às questões da curadoria e da edição, com a reunião, nos dias 18 e 19, de comissários de instituições nacionais e estrangeiros e de editores vindos também de diferentes países.

O prémio Pritzker brasileiro Paulo Mendes da Rocha vai estar também em foco neste fim-de-semana com o lançamento de um livro do historiador italiano da arquitectura Daniele Pisani sobre a sua obra, e a exibição do documentário Tudo É Projecto, realizado pela filha Joana Mendes da Rocha e por Patrícia Rubano.

Para 2018, Nuno Sampaio anuncia já três outras exposições, a reafirmar o objectivo de inscrever a instituição na rede internacional do sector. Em Abril, a CA vai acolher a exposição Os universalistas, comissariada por Nuno Grande, e uma produção da Fundação Gulbenkian apresentada na última Primavera em Paris, na Cité de l’Architecture – um sinal já do vínculo que a CA vai estabelecer com grandes instituições internacionais, realça Nuno Sampaio.

Paralelamente, será apresentada uma mostra dedicada à arquitectura brasileira, com os comissários Guilherme Wisnik, curador da Bienal de São Paulo de 2013, e Fernando Serapião, editor da revista Monolito, a documentarem 80 anos de história com 80 projectos.

Já para o final de 2018 está agendada uma exposição sobre os primeiros 25 anos da arquitectura portuguesa pós-25 de Abril de 1974: uma equipa dirigida por João Belo Rodeia está já a reunir testemunhos e documentos sobre mais de duas centenas de projectos e edifícios que fazem a história do último quartel do século XX.

A segunda principal inquilina da Casa da Arquitectura é a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM), que aqui encontrou um novo espaço para o seu trabalho, e uma sala de concertos – a que chamou Centro de Alto Rendimento Artístico (CARA). A assinalar a nova residência, a OJM vai reconstituir, no dia 19, o espectáculo que apresentou na Casa da Música, no Porto, em Fevereiro de 2013, no centenário do naufrágio do navio Veronese (que esteve na origem de uma das primeiras produções da Invicta Film, com grande sucesso internacional). A peça composta para a ocasião por Luís Tinoco, Costa Muda, e outras obras de Bernardo Sassetti, Carlos Azevedo e Mário Laginha, para filmes de Tiago Guedes, Sandro Aguilar, Francisco Moura, João Canijo e Margarida Cardoso, completam o reportório deste concerto, que será dirigido por Pedro Guedes.

No programa da Festa da Arquitectura haverá ainda dança e performances, pela Companhia Instável e pela Erva Daninha, e também oficinas para crianças e visitas guiadas para todos os públicos.