Crítica

Diversidade e versatilidade na temporada Música em São Roque

A programação tem tido o mérito de dar a conhecer várias obras raramente interpretadas, com destaque para a música portuguesa, e de combinar agrupamentos jovens com alguns veteranos.

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O agrupamento La Batalla, criado em 1984 por Pedro Caldeira Cabral dr

A 29.ª temporada Música em São Roque, a decorrer até 19 de Novembro, tem atraído um público numeroso, tanto para os concertos como para as actividades pedagógicas e visitas guiadas aos espaços do património arquitectónico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, promotora da iniciativa. A programação tem tido o mérito de dar a conhecer várias obras raramente interpretadas, com destaque para a música portuguesa, e de combinar agrupamentos jovens com alguns veteranos.

Intitulado De Profundis, palavras iniciais do Salmo 130, o concerto de abertura foi um momento marcante não só pela forma como deu coerência a um repertório que abrange quase quatro séculos de música, mas também pelo alto nível da interpretação.

O Coro Gulbenkian, sob a direcção de Paulo Lourenço, mostrou-se em grande forma, evidenciando perfeição técnica, forte sintonia e flexibilidade de nuances expressivas. Estiveram em destaque as obras dos portugueses  António Pinho Vargas (De profundis) e Eurico Carrapatoso (Missa sine nomine, uma homenagem aos polifonistas da escola de Évora), com horizontes estéticos e universos expressivos bem distintos, mas ambas ilustrativas de um hábil e idiomático domínio da escrita coral. O restante programa pôs em foco a versatilidade do Coro Gulbenkian em estilos tão diversos como os de Allegri (com o famoso Miserere), Lotti (recorrendo à espacialização para pôr em destaque os efeitos da policoralidade), Verdi, Pärt e Eriks Esenvalds.

O agrupamento La Batalla, criado em 1984 por  Pedro Caldeira Cabral, apresentou na Igreja do Mosteiro de Santos-o-Novo um dos seus programas de maior sucesso: Speculum Mirabilium — Cantigas de Loor e Miragres de Santa Maria em Terras de Portugal, com uma selecção temática de algumas das mais belas Cantigas de Santa Maria, compiladas na corte de Afonso X, “o Sábio”, e trechos instrumentais com forte componente de improvisação.

Tendo em conta que, no caso das peças cantadas, o que chegou até nós foi apenas a melodia (existindo inclusive divergências no âmbito da interpretação dos valores rítmicos), a relevância que a componente instrumental adquire nas recriações de La Batalla põe em evidência a versatilidade dos seus músicos, que apostam num diálogo criativo entre conhecimento histórico (musicológico, literário e iconográfico) e as práticas musicais de tradição oral do espaço mediterrânico.

Um especial fascínio ao nível tímbrico e visual decorre da variedade de réplicas de instrumentos medievais usados, mas o cerne do legado trovadoresco encontra-se na parte vocal, liderada pelo poder narrativo e pela expressiva voz de Maria Repas, acompanhada nas secções de refrão por outros membros do grupo e contando ocasionalmente com rara voz de contralto de Susana Moody, também intérprete de viola de arco.

No passado domingo, o Americantiga Ensemble, dirigido por Ricardo Bernardes, voltou a juntar-se à companhia teatral 33 Ânimos, para um concerto encenado. Em comparação com a bem-sucedida proposta  em torno da figura de D. Maria I do ano passado, o resultado obtido na presente edição foi menos consistente. Entre dois mundos, com texto de Ricardo Cabaça, propunha um diálogo filosófico durante um encontro fictício entre um indígena sul-americano, educado pelos jesuítas nas missões dos territórios em disputa pelas coroas espanhola e portuguesa, e um jovem rei português (na interpretação dos actores Miguel Cunha e Victor Yovani).

A figura do monarca, que umas vezes faz lembrar D. João V, outras D. José, é ridicularizada por um figurino de roupão e chinelos, e algumas alusões à actualidade mostram-se pouco consequentes. Mas o texto funciona bem como um de fio condutor de um programa musical muito apelativo, com repertório ibérico e italiano levado pelos jesuítas para a América Latina e outras peças escritas entre os séculos XVI e XVIII.

A riqueza musical da selecção foi o ponto forte, sendo bem defendida pelos cantores do agrupamento, tanto a solo como em conjunto. O grupo instrumental tocou com grande energia rítmica e musicalidade, mas o conjunto ressentiu-se ocasionalmente na coesão, talvez como consequência dos diferentes graus de experiência neste repertório e nas práticas de execução históricas dos seus membros.

Entre outras obras, destaca-se o belíssimo Kyrie em stile antico da Missa de G. Giorgi, em estreia moderna, cantado apenas por vozes masculinas e contando com dobragens instrumentais (uma prática que não estava em uso na Capela Real de Lisboa na época do compositor, mas se usava noutros locais); uma ária da oratória de Sousa Carvalho Isacco figura del redemptore, cantada admiravelmente pelo contratenor Paulo Mestre; a exuberante Missa Encarnación, de Giovanni Bassani (na versão de Zipoli encontrada num convento do Paraguai); o vilancico Ilustre Sol do Oriente, também em estreia moderna a partir de manuscritos da Catedral de Évora; o divertido diálogo em A cantar um vilancico de Roque Ceruti (na interpretação eloquente de João Pero Afonso e Pedro Morgado); e como apoteose o brilho vocal e instrumental do Dixit Dominus, de Carlos Seixas.