Hariri disse que pode voltar ao Líbano quando quiser, mas poucos acreditaram

Libaneses continuam a questionar presença do seu primeiro-ministro em Riad. No Iémen, sauditas suavizam bloqueio.

A entrevista de Saad Hariri não desfez quaisquer dúvidas
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A entrevista de Saad Hariri não desfez quaisquer dúvidas JAMAL SAIDI/Reuters

O mistério em torno das condições em que está Saad Hariri, o primeiro-ministro libanês que anunciou a sua demissão a partir de Riad e com quem quase ninguém tem conseguido falar, adensou-se após uma entrevista estranha.

No dia 4 de Novembro, Saad Hariri anunciou a sua demissão a partir de Riad, e não voltou desde então. Colaboradores próximos que o têm contactado dizem que ele pouco tem falado. Responsáveis libaneses passaram de questionar se não estaria a ser impedido de sair pela Arábia Saudita para pedirem a Riad que o deixe partir.

O novo capítulo desta saga ocorreu no domingo, com uma entrevista de Saad Hariri ao canal de televisão do seu próprio partido, e transmitido também pela saudita Al-Arabiya. “Se quisesse voltar amanhã, voltaria”, disse Saad Hariri.

No Líbano, poucos acreditam – a televisão estatal nem transmitiu a entrevista, dado que se parte do princípio de que Hairiri está a dizer o que Riad quer. Quem o conhece diz que a sua declaração de demissão foi atípica, especialmente pelas palavras duras de crítica ao Hezbollah (que faz parte da coligação de Governo que liderava). E a entrevista também.

Na entrevista, Hariri e a entrevistadora apareciam a olhar para uma figura, ao fundo, sugerindo que podiam estar a ser instruídos, diz a revista norte-americana The Atlantic. Há ainda um momento em que Hariri parece estar à beira das lágrimas, quando agradeceu as manifestações a exigir o seu regresso, conta pelo seu lado o jornal britânico Financial Times.

Hariri justificou a sua demissão com a intenção de provocar “um choque positivo” no Líbano, que por causa da interferência do Irão e do poder do Hezbollah está “numa situação de perigo”.

“Não foi convincente”, disse o analista libanês Kamel Wazne ao Financial Times. “Tudo o que foi mostrado foi a situação peculiar em que ele está.”

Os recentes acontecimentos no Líbano fazem temer que este seja o próximo palco da rivalidade entre Arábia Saudita e Irão. Hariri vinha a ser pressionado por Riad para cortar o poder do Hezbollah, o movimento xiita libanês que tem uma milícia com grande poder militar (está a apoiar o regime de Bashar al-Assad na Síria) e político no Líbano e está intimamente ligado ao Irão.

Este conflito desenrola-se com particular intensidade no Iémen, onde o Irão apoia as milícias houthi e a Arábia Saudita as forças governamentais.

Após críticas generalizadas ao encerramento de portos e aeroportos no Iémen, a coligação liderada por Riad anunciou esta segunda-feira que dentro de 24 horas reabriria alguns pontos de passagem permitindo a chegada de ajuda humanitária.

O encerramento foi decidido após o lançamento de um míssil pelos rebeldes houthis em direcção ao aeroporto de Riad. O sistema antimíssil saudita foi eficaz, fazendo-o explodir no ar antes de chegar ao alvo, mas a acção levou os sauditas a retaliar.

No entanto, o bloqueio mereceu um coro de críticas, e a ONU junto com outros 20 grupos de ajuda humanitária disseram que a decisão iria levar milhões de pessoas a um ponto muito próximo de “fome extrema e morte”, à “maior crise de fome vista no mundo desde há décadas”. Riad pareceu assim recuar e anunciou a reabertura.