Editorial

O problema polaco

A Polónia é um estranhíssimo caso de esquizofrenia política. A receita populista de Jaroslaw Kaczynski só existe graças a uma espécie de cabala que mantém a nação católica debaixo de uma permanente ameaça conspirativa do mundo.

A manifestação nacionalista em Varsóvia é o caso do fim-de-semana. Quando sessenta mil pessoas marcham numa capital europeia aos gritos de “Polónia pura, Polónia branca” e se exibem faixas com inscrições como “rezemos pelo holocausto árabe”, temos mesmo de prestar atenção – até porque o próprio governo polaco elogiou a “linda imagem que orgulhou a nação”.

A Polónia é um estranhíssimo caso de esquizofrenia política. A receita populista de Jaroslaw Kaczynski só existe graças a uma espécie de cabala que mantém a nação católica debaixo de uma permanente ameaça conspirativa do mundo – em que basta baixar a guarda para que o país seja invadido por refugiados árabes, a economia dominada por judeus e o estado controlado pelos comunistas que ainda espreitam debaixo das ruínas do Pacto de Varsóvia.

Tudo isto é tão mais anacrónico quanto a Polónia vive uma verdadeira primavera económica, liderando o Leste com números estatísticos que impressionam; ao mesmo tempo tem espalhado estudantes e profissionais jovens pela Europa, aproveitando ao máximo as benesses do mercado livre; e tem Donald Tusk, um ex-primeiro-ministro, como presidente do Conselho Europeu, que só mereceu a reprovação de um estado: o seu.

Quando Tusk, um democrata-cristão tradicional, é considerado persona non grata no seu próprio país por supostos desvios esquerdistas, percebe-se melhor a maluqueira que grassa em Varsóvia. E é esta fogueira que Kaczynski vai ateando alegremente, sem preocupação que ultrapasse o curto prazo da sua própria relevância política.

E está em choque directo com a tradição política liberal porque tem feito questão de ursupar os poderes democráticos, controlando os tribunais e os meios de comunicação públicos de forma a moldar a mensagem ao mensageiro. A receita vai funcionando e chega para assustar muito boa gente, que acaba por aceitar esta deriva racista de uma sociedade que se continua a dividir entre a modernidade ansiada e a tradição resistente.

Ali perto, a Hungria vai liderando a resistência anti-Bruxelas e testando a paciência dos parceiros europeus com as suas políticas pouco democráticas. O risco dos populismos parece ter migrado para lá de Berlim, e para o ano teremos muitos motivos para olhar a Leste: há presidenciais na República Checa e no Montenegro, bem como eleições parlamentares na Bósnia, na Hungria e na Eslovénia. Quaisquer ganhos das forças populistas vão rapidamente virar-se contra Bruxelas e contra o futuro comum da União.