Crítica

Poveda, uma lição de flamenco com tonalidades pop

Na Gulbenkian, Miguel Poveda voltou a comprovar a sua excelência e mestria como cantaor, embora não tenha suplantado o concerto mágico de 2014 no CCB.

Miguel Poveda com, à esquerda, o pianista Joan Albert Amargós, em <i>Íntimo</i> (em 2014, no CCB)
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Miguel Poveda com, à esquerda, o pianista Joan Albert Amargós, em Íntimo (em 2014, no CCB) RUI GAUDÊNCIO

Quando Amália cantava os poetas e as músicas de Alain Oulman, diziam os músicos “vamos às óperas!” E essa é uma imagem que irresistivelmente nos assalta a memória quando ouvimos o cantaor catalão Miguel Poveda: também ele, voz magnífica caldeada nas peñas do flamenco, parece levar para territórios do canto lírico o cante, sem jamais sair dele, como aliás Amália sempre fez com o fado. O percurso de Poveda, das raízes flamencas às coplas, da voz dos poetas às ambiências mais pop que contaminam alguns dos seus temas mais recentes, mantém-se ainda assim fiel à arte que sempre o norteou.

Na noite de 11 de Novembro, perante um Grande Auditório da Gulbenkian esgotado, Poveda começou com os poetas: primeiro com Guerra a la guerra por la guerra, de Rafael Alberti, depois com El poeta pide a su amor que le escriba, de García Lorca. Dois temas que fazem parte do seu mais recente disco, Sonetos y Poemas para la Libertad (de 2015), ao qual voltaria depois, com Querido Guerra (que Luis Eduardo Aute escreveu e Pedro Guerra musicou), não sem antes cantar Donde pongo la vida pongo el fuego, poema de Ángel Gonzalez também musicado por Pedro Guerra. Este início, que constituiu a primeira parte do espectáculo, fez-se já com todos os músicos em palco (Joan Albert Amargós, piano; Jesus Guerrero, guitarra; e Paco González, percussão) e foi, digamos, a parte mais flamenco-pop. As orquestrações de Amargós para o novo disco dão-lhe esse ar, que a muitos agradará e outros acharão estranho, mas Poveda redime-o com interpretações de grande nível. E ao ouvi-lo tudo se esquece. Até porque, antes de passar à segunda parte, ele cantou maravilhosamente (rematando-o com shhh) El silencio, de Lorca: “Oye, hijo mío, el silencio./ Es un silencio ondulado,/ un silencio,/ donde resbalan valles y ecos/ y que inclina las frentes/ hacia el suelo.”

Veio depois o momento mais “cante jondo” (no CCB, em 2014, foi ao contrário: este abriu, e só depois se passou às coplas com Amargós ao piano). Saiu o pianista e ficaram Guerrero e González, guitarra e cajón, para uma exibição flamenca por alegrías, onde se ouviu também uma bulería que Poveda sempre canta: Qué disparate! Manteve-se, nos palos seguintes, a sensação de encantamento que o canto de Poveda proporciona e que teve um dos seus momentos mais altos quando cantou a capella perante um silêncio ainda mais profundo da audiência, que depois rebentou em significativos aplausos. E quando ele, descendo do palco, andou pela sala cantando, a cumplicidade com o público foi total, pois nessa aproximação a naturalidade do canto afastou qualquer vedetismo.

Passou-se, então, à terceira parte, assegurando os músicos uma rapsódia instrumental, a abrir, onde couberam Lisboa antiga e Canção do mar, a ressoar nas teclas do piano de Amargós. Jesus Guerrero, na guitarra, cumpriu, mas foi impossível não lembrar Juan Gomez “Chicuelo”, “vulcão de múltiplas cores”, que no CCB foi deveras brilhante. O regresso de Miguel Poveda ao palco fez-se com En el último minuto, ouvindo-se depois, num alinhamento inteligente e equilibrado, temas como Ay, mi hermanita! ou Para la libertad, de Miguel Hernández, a fechar a noite com a força de um hino transcendente.

O encore, após fortes aplausos, fez-se primeiro com Meu fado meu (escrito por Paulo de Carvalho), que Miguel Poveda cantou com Mariza no filme Fados de Carlos Saura, há precisamente dez anos. Na altura, cantou-o apenas em castelhano, mas agora arriscou cantar também em português e saiu-se muito bem. O final fez-se com Mis tres puñales, com Poveda e os músicos a saírem do palco ao som da música, cantando e tocando.

Um espectáculo onde Miguel Poveda voltou a comprovar a sua excelência e mestria como cantaor. Não suplantou o concerto mágico de 2014 no CCB, de tão boa memória, mas confirmou, mais uma vez, que Poveda é um intérprete extraordinário, dos maiores.