Crítica

O diário militante de Princess Nokia, agora em grande

1992 chega em versão revista e aumentada pela editora Rough Trade, fortalecendo o lugar de uma rapper em ascensão.

Frasqueri reivindica o lugar da fala das mulheres não brancas e pessoas queer, com postura aguerrida e comprometida
Foto
Frasqueri reivindica o lugar da fala das mulheres não brancas e pessoas queer, com postura aguerrida e comprometida

Em 2017, falar de música sintonizada com activismo feminista é falar também de Princess Nokia, nome de guerra da rapper nova-iorquina Destiny Frasqueri. Como outros colegas dentro do hip-hop, de Quay Dash a CupcakKe, de Le1f a Angel Haze, Frasqueri reivindica o lugar da fala das mulheres não brancas e pessoas queer, com uma postura aguerrida e comprometida que deixa pouco espaço para dúvidas — e isso pode incluir chamar as mulheres para a frente do palco nos seus concertos, dirigir o podcast e colectivo feminista Smart Girl Club ou atirar uma sopa para cima de um tipo que lança insultos racistas no metro (episódio verídico e muito recente).

Essa ferocidade foi crescendo na própria música de Destiny Frasqueri, que antes se apresentava como Wavy Spice ou, simplesmente, Destiny. Metallic Butterfly (2014) foi o primeiro disco editado enquanto Princess Nokia, uma viagem afro-futurista de estofo digital entre o hip-hop, r&b, música de dança e barroquismos da internet (um ano depois estávamos a ouvi-la no trabalho de estreia a solo do português Branko, no tema Take Off). Mas foi em 2016, com a mixtape 1992, que deu o salto — e desde então tem estado cada vez mais no centro das atenções. Prova disso são os vários concertos esgotados (um deles aconteceu na ZDB, em Lisboa, no ano passado) e a reedição que agora nos chega, pela Rough Trade, de 1992 numa versão revista e aumentada, com oito novas canções. O seu primeiro álbum oficial, nas palavras da própria.

Já no primeiro round, 1992 — que é também a data de nascimento de Destiny Frasqueri — era um disco de homenagem à Nova Iorque da sua infância e adolescência, rodeado pela cultura pop dos anos 90 (Kitana é trap directo à jugular com referências à personagem dos jogos Mortal Kombat), por algum hip-hop da Costa Leste dos EUA e por uma celebração da sua identidade e genealogia enquanto americana de ascendência afro-porto-riquenha (ouça-se Brujas, jungle aquoso e fantasmático em que Princess Nokia fala da arte da brujería herdada das suas ancestrais).

Princess Nokia - Brujas

Neste novo disco a carga autobiográfica alastra-se, complexifica-se, fortalece-se. Há canções que funcionam quase como parelhas. Green Line e ABCs of New York, cartas de amor, de oxigénio neo-soul, à pluralidade étnica e cultural de uma cidade multifacetada, sem esquecer problemas como a gentrificação, o racismo, o abuso das forças policiais. Saltemos também entre Bart Simpson e Goth Kid, onde Nokia evoca a violência dos lares de adopção e o aborrecimento que era ir à escola, compensado depois com actividades extracurriculares como fumar erva e ler banda desenhada. E ainda Tomboy e Flava, canções de trap sacarino, simples mas eficaz, contra padrões de beleza hegemónicos, a favor do empoderamento feminista interseccional e da sororidade. Entre a fornada de músicas novas, G.O.A.T. e Brick City são outros dos momentos que trazem mais músculo ao disco e sublinham a firmeza e eloquência de Princess Nokia, que ficaria a ganhar se em algumas situações os beats e a produção fossem menos rudimentares. Apesar disso, ela acaba por se impor — e o futuro de Destiny Frasqueri visto daqui tem tudo para dar certo.

Princess Nokia - G.O.A.T.