Opinião

Os mirones do empreendedorismo

A minha crítica ao deslumbramento perante a Web Summit é este empreendedorismo de mirones.

Diogo Queiroz de Andrade escreveu um editorial intitulado “Os parolos e os pacóvios” onde parecia mesmo, mesmo que estava a referir-se a mim e ao meu artigo sobre a Web Summit. Uma senhora chamada Raquel Correia, que se apresenta como “médica, copywriter, intrinsecamente curiosa e quase sempre sarcástica” escreveu um texto chamado “Dor de cotovelo Summit” no P3, bué da curioso e bué da sarcástico. João Gomes de Almeida, publicitário e cronista, escreveu um texto no i intitulado “Igreja Universal do Reino dos Preconceituosos contra a Web Summit”, onde começa por me elogiar como “comentador de direita” e acaba a denunciar o meu excesso de exposição a “comentadores de esquerda” e respectivos “preconceitos”. Até Vítor Bento — meu Deus, Vítor Bento — molhou a sopa no DN, elogiando a Web Summit em dez parágrafos e informando que desvalorizar a sua importância seria “um grande passo em falso”.

E cá estou eu outra vez. Voltar a escrever sobre um assunto explicando o texto original a quem não o percebeu é sempre cansativo, mas acho que Vítor Bento merece o esforço. Aliás, a prova de que estamos mesmo a falar da Igreja Universal do Reino da Tecnologia é este coro de indignações, que acompanha sempre o fervor religioso. Novamente: nada tenho contra a existência de uma feira de tecnologia em Portugal. Acho óptimo que a Web Summit se tenha instalado em Lisboa, com muito sucesso, público e turistas, e espero que continue até eu andar de bengala. Não sou um avozinho infoexcluído nem um inimigo da tecnologia. O meu problema não é com a inteligência artificial. O meu problema é com a parolice nacional, e com a forma provinciana e deslumbrada como a elite portuguesa olha para a Web Summit; como toda a gente, do primeiro-ministro ao Presidente da República, procura uma photo opportunity com Paddy Cosgrave; como todos querem parecer cool e tecnológicos e trendy; e como tudo isso é reflexo de um país pobre e limitado, onde muito pouco acontece, pois esta concentração absurda de elites e de atenção mediática só é possível aqui e, vá lá, na Irlanda ou na Grécia.

O verdadeiro parolo da Web Summit não é o empreendedor que ali vai apresentar uma ideia, nem o miúdo que vai à procura de um sonho, nem o investidor que vai à procura de um negócio, mas sim a catrefada absurda de portugueses que confundem trabalho com networking, que acham que ter ideias originais é copiar as ideias dos outros, que não distinguem informação de conhecimento. Eu conheço demasiada gente que está sempre a par da última tecnologia e da última trend, que tem sempre o mais recente modelo de iPhone, que sabe tudo o que se passa na Google e no Facebook, mas que depois é absolutamente incapaz de ter uma única ideia original, de construir um produto de jeito, de fazer algo para o qual possamos olhar e dizer: “sim senhor, isto está realmente bem feito, parabéns.”

Aquilo que “A Web Summoparolice” criticava é a proliferação de Oliveiras da Figueira 2.0, com um paleio inversamente proporcional à qualidade do seu trabalho. A minha crítica ao deslumbramento perante a Web Summit é este empreendedorismo de mirones, que se traduz num desfile vazio de beautiful people apinhada de gadgets sob cenários LED a faiscar. Tudo ok, se tivéssemos garagens cheias de miúdos a tentarem ser o novo Steve Jobs. Mas temos? Não, não temos. Os cenários estão cheios, mas as garagens continuam vazias. Os parolos são os que confundem uma coisa com a outra — e são tantos que até dói.