O novo Louvre Abu Dhabi quer ser um museu da era global

Dez anos após o anúncio do projecto, o edifício projectado pelo prémio Pritzker Jean Nouvel abriu finalmente as portas este sábado. Milhares de visitantes viram da Vinci no deserto e maravilharam-se com este museu-arquipélago coberto por um tecto estrelado.

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Visitante fotografa o tecto de estrelas metálicas sobrepostas concebido por Jean Nouvel Reuters/SATISH KUMAR
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Últimos retoques antes da abertura ao público Reuters/SATISH KUMAR
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A entrada do museu Reuters/SATISH KUMAR
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Um museu rodeado de água, ao qual também se pode chegar de barco Reuters/SATISH KUMAR
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Folhas de Luz, uma árvore com espelhos nos ramos concebida pelo artista italiano Giuseppe Penone Reuters/SATISH KUMAR
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Visitantes no dia da inauguração Reuters/SATISH KUMAR

“É o primeiro museu universal do Médio Oriente”, resume Manuel Rabaté, o director do novo Louvre Abu Dhabi, desenhado pelo arquitecto Jean Nouvel e inaugurado este sábado na ilha Saadiyat, ao largo da capital dos Emiratos Árabes Unidos. Com os bilhetes rapidamente esgotados, cerca de quatro mil visitantes percorreram as dezenas de edifícios independentes que constituem o ambicioso arquipélago-museu projectado pelo prémio Pritzker francês para acolher uma colecção que pretende mostrar cronologicamente a evolução da arte, desde a pré-história ao presente, tal como se foi desenvolvendo simultaneamente nos diversos continentes e civilizações.

O projecto, anunciado há uma década, em 2007, resultou de um acordo intergovernamental de características inéditas: o emirato pagará 525 milhões de dólares pelo direito a poder usar o nome do Louvre durante 30 anos e seis meses, desembolsando mais 747 milhões (num total de 1093 milhões de euros) pelo empréstimo, por dez anos, de 300 obras de arte de diversos museus franceses, incluindo peças tão icónicas como o célebre Retrato de Mulher (La Belle Ferronière) de Leonardo da Vinci, Napoleão Cruzando os Alpes, de David, um auto-retrato de Van Gogh, O Tocador de Pífaro, de Manet, ou Natureza Morta com Magnólia, de Matisse. A França comprometeu-se ainda a oferecer assistência técnica e a colaborar durante 15 anos no programa de exposições temporárias do novo museu: a primeira abrirá já em Dezembro e abordará a história da criação do Museu do Louvre na Paris do século XVIII.

E o próprio Louvre Abu Dhabi tem vindo a adquirir, desde que o projecto foi lançado, um significativo conjunto de obras para a sua colecção permanente, de uma valiosa Virgem com o Menino de Giovanni Bellini, produzida entre 1480 e 1485, passando pela Escada de Jacob (c. 1665) de Murillo e por diversas obras de pintores oitocentistas, como Ingres ou Manet, até, por exemplo, um banco de madeira do decorador e desenhador de mobiliário Pierre Legrain (1889-1929).

Mas a verdadeira estrela do museu talvez seja o próprio edifício, ou, mais precisamente, o conjunto de 55 edifícios independentes que Jean Nouvel projectou, uma espécie de cidade rodeada de água (com a sua própria marina), coberta por uma cúpula que parece flutuar no ar, mas que na realidade pesa 7500 toneladas (pouco menos do que a Torre Eiffel) e é composta por oito camadas sobrepostas de estrelas metálicas de diferentes dimensões. O arquitecto contou ter-se inspirado no modo como as folhas das palmeiras filtravam a luz para conceber este tecto, que cria no interior o efeito de uma fina “chuva de luz”, contribuindo ainda para fazer descer consideravelmente a temperatura ambiente sem gastos energéticos.

O presidente francês, Emmanuel Macron, que visitou o museu na quarta-feira, ao lado do príncipe herdeiro dos Emiratos Árabes Unidos, Mohammed ben Zayed Al-Nahyane, não poupou elogios a este “Louvre do deserto e da luz”, exemplo de como a beleza “pode combater os discursos do ódio”. Mas o atribulado desenvolvimento do projecto, desde que foi anunciado há uma década, não esteve isento de polémicas.

Um relatório de 2015 da organização não-governamental Human Rights Watch denunciava que muitos dos emigrantes que trabalhavam na obra eram sujeitos a condições próximas da escravatura, e arriscavam prisão sumária ou deportação se ousassem queixar-se. O próprio Jean Nouvel interveio na discussão, garantindo que visitara as instalações dos operários e que estes tinham melhores condições do que em muitos países europeus.

Os sucessivos atrasos nas obras também foram criticados, mas tendo em conta que a empreitada só arrancou verdadeiramente em 2013, o tempo de construção para uma obra desta complexidade – ninguém sabe quanto custou, mas os 600 milhões de dólares inicialmente previstos terão sido largamente ultrapassados – não parece particularmente excessivo.

Mais atrasados, a ponto de alguns duvidarem de que algumas vez venham a ser construídos, estão os vários outros projectos previstos para a ilha Saadiyat: uma sucursal do Guggenheim projectada por Frank Gehry, que deveria ter sido inaugurada em 2012, o Museu Nacional Zayed, desenhado por Norman Foster, um Museu Marítimo com assinatura de Tadao Ando ou um centro de artes performativas concebido pela recentemente desaparecida arquitecta iraniana Zaha Hadid.

Dirigido por Manuel Rabaté, um gestor de 41 anos com formação em Estudos Políticos e experiência profissional em vários museus – e que já era o responsável pela Agence France-Muséums, um consórcio de doze instituições públicas francesas cuja missão principal era justamente levar a bom porto o projecto do Louvre Abu Dhabi –, o novo museu dos Emiratos Árabes Unidos usa o nome, algumas obras e a experiência e competências técnicas do museu parisiense, mas não é uma sucursal do Louvre, é uma instituição dotada de plena autonomia, cujo percurso expositivo em boa medida rompe com as práticas dos grandes museus de arte ocidentais.

Usando peças emprestadas não apenas por instituições francesas, mas também por vários museus do Médio Oriente – uma das mais notáveis é uma antiquíssima estátua antropomórfica com duas cabeças descoberta na Jordânia e que poderá datar do 8.º milénio a.C. – propõe uma história da arte global, que vai sistematicamente justapondo obras produzidas num mesmo período, mas em paragens geográficas e contextos culturais diferentes, mostrando aproximações e influências recíprocas raramente sublinhadas nas salas dos museus europeus.

Abrindo com um primeiro espaço preambular que tenta realçar alguns tópicos universais recorrentes na arte das primeiras civilizações, das máscaras mortuárias às figuras maternais ou às estilizações do Sol, o percurso expositivo organiza-se depois em doze capítulos ordenados cronologicamente. Mas uma cronologia que também não se revê necessariamente na periodologia ocidental e que relativiza conceitos como “Antiguidade”, “Idade Média”, “Renascimento” ou “Modernidade”.

“As primeiras povoações”, “As primeiras grandes potências”, “As civilizações e impérios”, “Religiões universais”, “Rotas comerciais asiáticas” e “Do Mediterrâneo ao Atlântico” são os títulos dos primeiros seis capítulos. A segunda parte abre com “O mundo em perspectiva”, na época da expansão marítima, e prossegue com “A magnificência na corte” (século XVII), “Um novo modo de vida” (século XVIII), “Um mundo moderno”, a acompanhar a expansão planetária da revolução industrial ao longo do século XIX, “Os desafios da modernidade”, no século XX, e, a terminar, “Um estádio global”, com obras de artistas contemporâneos como o dissidente chinês Ai Weiwei, o senegalês Omar Ba ou o marroquino Mounir Fatmi.

Para os mais entusiastas, o Louvre Abu Dhabi poderá marcar o início de um novo conceito de museu, mais adequado à era global; para os mais cépticos, este trajecto da criatividade artística da espécie, desde os primeiros aglomerados humanos à era digital, parecerá talvez algo ingénuo.

 

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