Portu-Gal, uma voz ainda a todo o vapor

Gal Costa mantém um vigor interpretativo assinalável e Espelho d’Água é disso prova. A primeira noite no Campo Pequeno foi digna de aplauso. Este sábado, com a lotação esgotada, poderá ser ainda melhor. Espera-a depois o Coliseu do Porto, no domingo.

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Gal em Espelho d'Água (no Brasil) DR

À medida que um cantor vai envelhecendo, a tendência natural é rodear-se de um lote considerável e seguro de músicos, de modo a que possam garantir alguns bons solos enquanto a voz descansa. Gal Costa faz o contrário: nos seus joviais 72 anos, acabados de fazer (em 26 de Setembro), apresenta-se agora em palco, só voz e violão ou guitarra eléctrica, sem pausas a não ser para usar a voz de outro modo, falando. Portugal já a vira assim, só voz e violão (por sinal num concerto menos inspirado, em 2007). Desta vez, a sonoridade desafiante da guitarra eléctrica, levada nalguns momentos até à distorção (e Guilherme Monteiro, entre electricidade e violão, saiu-se lindamente), não só permitiu arranjos inusitados para velhas canções como serviu de contraponto ideal à voz.

E a voz de Gal Costa, como já em anos anteriores aqui se escreveu, repousando agora mais nos graves, que ganharam com os anos uma maturidade assinalável, mantém o seu timbre cristalino quando arrisca os agudos, ainda que com grão e de forma mais contida.

Estando o Campo Pequeno esgotado no sábado, 11 de Outubro, foi ali organizado um concerto extra, na véspera, e é desse que aqui se fala. Com muita gente, porque o recinto é grande, embora com metade das bancadas por preencher, Gal seguiu em Lisboa (irá depois ao Porto, ao Coliseu, no domingo dia 12, às 21h) o roteiro do concerto original. Começou com Caras e bocas (de Caetano Veloso) e Passarinho (de Tuzé de Abreu) e depois voltou a Caetano (voltaria várias vezes), com Minha voz, minha vida. Folhetim, de Chico Buarque, serviu de rastilho ao entusiasmo do público, que demorava a fazer-se sentir, e Vaca profana (Caetano outra vez) foi a glória, numa versão poderosa onde a guitarra eléctrica e a voz de Gal se uniram num todo perfeito. Perfeito, diga-se, foi também o som de sala, um dos melhores que nos foi dado a ouvir este ano. Volta, de Lupicínio Rodrigues, e Sua Estupidez, de Roberto e Erasmo Carlos, recordaram-nos os tempos felizes dos discos Índia (1973) e FA-TAL (1971), felizes musicalmente, já que o Brasil estava mergulhado numa ditadura militar. Coração Vagabundo, do seu disco de estreia (Domingo, com Caetano Veloso nas gravações e na capa) fez-nos recuar ainda mais atrás, a 1969, e Negro amor atirou-nos para os braços de Bob Dylan, na versão que Caetano e Péricles Cavalcanti fizeram, em português, de It’s all over now, baby blue. Mais um momento em que a força interpretativa de Gal se fez sentir em pleno.

O resto seguiu já em ambiente de festa: primeiro com Tigresa (de Caetano) onde Gal voltou a mostrar as suas garras. E depois com Tuareg, de Jorge Benjor (que pulou umas casas no alinhamento, já que no Brasil vinha mais para o final), a guitarra eléctrica em sugestões arabizantes e Gal numa vocalização à altura. Mais Caetano, com Baby e Dom de Iludir, ambas marcantes na carreira de Gal, seguidas de Um Favor (o segundo Lupicínio da noite) e de uma brilhante versão de Solitude, de Duke Ellington, em boa hora escrita por Augusto de Campos, e aqui a puxar sentimentalmente aos blues. Já Espelho d’água, do novo disco Estratosférica (de 2015), escrito por Marcelo e Thiago Camelo, não se ouviu, embora seja o tema que dá nome ao espectáculo. Foi pena.

Você não entende nada, de Caetano, selou o enlace de Gal com o público, que trauteou parte da canção e repetiu “você!” ao mesmo tempo que no recinto se acendiam, num relâmpago, os holofotes sobre a audiência. Um efeito plástico impressionante, a sublinhar a ideia de espectáculo contra a sugestão ilusória de um ambiente de recital. Por fim, Meu Nome é Gal, de Roberto e Erasmo Carlos, canção que a acompanhará toda a vida, foi pretexto para ela mostrar que ainda sabe usar (e de que maneira) os agudos.

No encore vieram dois temas esperados, Gabriela e Dia de domingo, com a audiência a mostrar-se cúmplice em improvisados coros, e por fim, um momento evitável: Uma casa portuguesa, depois de Gal lembrar a extraordinária cantora Amália Rodrigues. Aqui, ao contrário dos temas anteriores, o público resistiu ao coro. Compreende-se que, devido à versão que dela fez João Gilberto, num embalo de bossa nova, essa canção possa ainda estar na memória de muitos brasileiros. Mas nem o célebre disco de Amália no Canecão, gravado ao vivo no Rio de Janeiro, a inclui, privilegiando outros fados que Amália eternizou, como Solidão, Coimbra, Lisboa antiga ou Foi Deus. É certo que tal canção faz parte da nossa história e que nessa qualidade aí ficou. Mas apesar de Uma casa portuguesa ter tido origem picaresca e não na exaltação da pobreza a que soa, ouvi-la (e cantá-la) em Portugal ou a representar Portugal nestes dias é anacrónico. Como diria o Diácono Remédios, “a cantora é uma boa cantora, não havia necessidade.”

P.S.: Praticamente no final da actuação, Gal Costa recordou a sua ascendência portuguesa (o seu avô era da Serra da Estrela); e, no início do espectáculo, a que ela foi chamando “concerto”, coisa que habitualmente não fazem os brasileiros, que lhe chamam show, Gal falou de Lisboa, elogiou as ruas limpas (sorte a dela, não ter passado por tantas que estão sujas), chamou “viola” ao violão e “viola eléctrica” à guitarra eléctrica e contou uma pequena anedota relacionada com a língua. Já em Lisboa, em conversa com alguém mais jovem que lhe falava em espanhol, a cantora disse-lhe que podia falar em português porque ela era do Brasil. Ao que ele terá respondido: “Português índio?” Mal ele sabia que Gal até imortalizara a guarânia Índia, que nesta noite não cantou em Lisboa.

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