Entrevista

“Estamos a viver mais, estamos a matar-nos menos. Os dados falam por si”

Steven Pinker, psicólogo especializado em ciências cognitivas, está em Portugal para falar sobre o declínio da violência e sobre o progresso. Entre os melhores anjos e os demónios íntimos da nossa história, sublinha a defesa do iluminismo agora.

Nelson Garrido
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Nelson Garrido

“O mundo não está a desmoronar-se”, assegura Steven Pinker. O professor catedrático de Psicologia na Universidade de Harvard (EUA), especializado em linguística e ciências cognitivas, defende que houve um declínio da violência ao longo da história. No livro Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Porque Tem Declinado a Violência [publicado nos EUA em 2011 e em Portugal em Setembro de 2016 pela Relógio D’Água] esfrega-nos os dados do passado na cara para nos convencer de que vivemos agora um dos momentos mais pacíficos de sempre. Uma visão optimista que não escapou a críticas. Steven Pinker define-se, no entanto, como “optirrealista”.

Na conversa com o PÚBLICO, reage aos ataques terroristas aconselhando mais rigor e precisão aos jornalistas que, sublinha, não devem confundir um episódio com uma tendência. A postura menos positiva surge quando avalia os actuais movimentos populistas e nacionalistas que exaltam a “glória da tribo” (por oposição à conquista de direitos dos indivíduos) como uma ameaça ao progresso. Assuntos mais políticos que são tratados no novo livro Enlightment Now: The Case for Reason, Humanism and Progress, que será publicado em Fevereiro de 2018. Admite que depois de alguma indecisão, decidiu escrever sobre Donald Trump num dos capítulos do novo livro. Não acredita que estamos perto de uma guerra nuclear mas admite que a probabilidade aumentou no último ano. Sobre as alterações climáticas, desvia a nossa atenção para os ganhos conseguidos nas últimas décadas. Acredita, sobretudo, no progresso que devíamos celebrar hoje e no outro, o de amanhã, que está nas nossas mãos.

Tínhamos meia hora para ouvir o investigador que foi considerado em 2004 pela revista Time uma das “cem pessoas mais influentes do mundo”. Este sábado, às 21h30, quem estiver no Teatro Municipal Rivoli, no Porto, vai ter mais tempo para ouvir Steven Pinker e José Pacheco Pereira. O tema da conferência do Fórum do Futuro, organizado pela Câmara Municipal do Porto, é a violência. Mas seguramente a conversa desta noite irá muito além disso.

Que ideias sobre o declínio da violência que defende no seu mais recente livro vai destacar na conferência?
Vou falar um pouco do meu próximo livro, que é uma espécie de sequela de Os Anjos Bons da Nossa Natureza. Chama-se Enlightment Now: The Case for Reason, Humanism and Progress (algo como Iluminismo Agora: Pela Causa da Razão, do Humanismo e do Progresso). O que me levou a escrever os “Anjos Bons” foi a surpresa ao descobrir que, sempre que a violência foi quantificada, os gráficos mostram-na sempre em queda. A maioria das pessoas não estava consciente disto. Isto era verdade para a guerra, crime, violência contra as mulheres, violência contra as crianças, castigos como ser queimado numa estaca... Mas depois descobrimos que não é só na violência que vemos o progresso humano, mas em qualquer outra dimensão do bem-estar das pessoas, incluindo na esperança de vida – a média da esperança de vida hoje são 71 anos comparado com os 30 anos durante a maior parte da nossa história – a pobreza extrema está a diminuir radicalmente, a literacia está a aumentar, a educação está a aumentar, o tempo de lazer, as pessoas trabalham menos horas do que há 100 anos, estão mais seguras, há menos probabilidades de morrer em acidentes. Por isso, parece existir uma tendência geral que mostra que a vida humana está mais longa, mais agradável e segura.

Acha que as pessoas estão conscientes disso? Parece que está a descrever algo de outro mundo…
As pessoas não estão conscientes disso. Pelas mesmas razões que não estão conscientes do declínio da violência. A principal razão é a existência de uma infeliz química entre a natureza das notícias e a natureza da mente humana. A mente humana – e isto é uma descoberta célebre do campo em que trabalho da psicologia cognitiva – leva-nos a avaliar o risco, perigo e a probabilidade através da capacidade que temos de nos lembrar de exemplos. Isto chama-se a heurística da disponibilidade. Foi descoberta por Daniel Kahneman e Amos Tversky. O que significa é que se perguntarmos a alguém se um acontecimento é raro ou comum, eles respondem a esta questão tentando lembrar-se de exemplos. Assim, se eles viram acidentes de avião na televisão nos últimos tempos vão dizer que viajar de avião é perigoso. Se houve um ataque de um tubarão, as pessoas não vão para a água. Isto em oposição a procurar provas estatísticas.

Não vão olhar para os dados no passado…
Exacto. Agora, junte essa característica psicológica à natureza das notícias. O que são notícias? Coisas que acontecem. Não são coisas que não acontecem. Nunca vemos um jornalista a dizer “aqui estou eu, ao vivo, num país onde não houve nenhum ataque terrorista”. Ou nenhuma guerra, ou nenhum tiroteio. Mas quando isto acontece, um ataque, um tiroteio, ou outra coisa, consegue uma cobertura exaustiva. E à medida que a cobertura se torna mais intensa – porque hoje qualquer pessoa com um smartphone é um repórter – temos a impressão de que a violência está a aumentar. E não está.

Mas um ataque terrorista é notícia. A negatividade é um dos critérios jornalísticos.
Precisamente. E essa é a segunda explicação para sermos levados a acreditar que o mundo está cada vez pior, apesar de estar cada vez melhor. Nós temos todos um enviesamento para a negatividade. Essa é outra das conclusões de Kahneman e Tversky e outros psicólogos. Ficamos mais incomodados com as perdas, os danos, do que felizes pelos ganhos. Damos mais atenção às notícias negativas do que às positivas. E isso está presente nos jornalistas. É considerado profissional e responsável relatar as coisas más. Quando relatam as coisas boas, que correm bem, isso é visto mais como publicidade do que como notícia. Os jornalistas evitam as boas notícias.

Li que acha que os intelectuais gostam de ser pessimistas e que os progressistas odeiam o progresso. Que o pessimismo parece ter mais crédito do que o optimismo. Mas há de facto coisas que correm mal. O que fazer?
É verdade. É óbvio que é importante saber o que corre mal. Não podemos ignorar os desastres, as guerras, a pobreza mas se as pessoas pensarem que não houve mudança, que as coisas não melhoraram, apesar dos esforços de milhões de pessoas para fazer um mundo melhor…. Se pensarmos que esses esforços foram uma perda de tempo, as pessoas vão ser fatalistas e pensar “por que é que hei-de tentar tornar as coisas melhores, é inútil”. Ou vão apoiar lideres radicais. Donald Trump é um exemplo. Ele fez uma campanha com um argumento explícito de que o país estava num estado de completo desastre. E que, por isso, devíamos dar cabo de todas as instituições, destruir o governo, desacreditar os especialistas, porque fizeram do mundo uma grande confusão. Conseguimos uma fotografia muito diferente se virmos o mundo – que obviamente tem problemas muito sérios e terá sempre, a utopia nunca vai acontecer – olhando para as últimas décadas. Percebemos que houve melhorias. Progressos.

Olhar para os progressos é a solução?
Acho que precisamos de nos apoiar nas estatísticas, por um lado. Procurar mais dados quantitativos. Vou dar-lhe um exemplo: é muito comum que um colunista nos EUA – tenho a certeza que isto também se passa em Portugal – quando fala de algo que aconteceu na véspera, um ataque terrorista, por exemplo, conclui rapidamente que estão a aumentar. Mas diz isto sem olhar para os dados para ver se está de facto a aumentar ou não. Um episódio não é uma tendência.

Na sua opinião são os “media” que têm um papel decisivo em mudar esta ideia pessimista do estado do mundo?
Tem de ser. De que outra forma eu posso saber o que está a acontecer na Síria, Europa, Londres ou América do Sul. Não posso viajar para todos esses lugares do mundo.

Há outros meios para espalhar informação, boa e má. As redes sociais, por exemplo…Verdade. Mas estou a referir-me à sabedoria popular de qualquer pessoa informada. É claro que há pessoas que não são tão bem informadas… Por outro lado, também temos os intelectuais. As ideias dos intelectuais são filtradas para a população, como um todo. Muitas ideias que hoje fazem parte da sabedoria popular ou do conhecimento comum começaram em universidades e entre intelectuais. Estou a referir-me a coisas como a tolerância com a homossexualidade, do casamento gay, igualdade de género…

Normalmente, quando fala sobre o progresso não menciona o ambiente. Não houve progresso aqui?
Isso é falso. Estamos a fazer enormes progressos em todos os aspectos, menos no dióxido de carbono (CO2). Esse é mais um exemplo em que estamos perante uma séria ameaça ambiental – há poluição, há destruição de habitats –, mas o facto de isso estar a acontecer não quer dizer que esteja a piorar. Essa é a falácia. Como é que sabemos que está a piorar? A única maneira é confirmar com os dados.

Os cientistas dizem-nos que a situação está a piorar…
Não. Eles não nos dizem que está a piorar. Dizem que está a acontecer. Mas são duas coisas diferentes. Temos de olhar para outros períodos para concluir que está a piorar, olhar para os anos 60, 70, 80, 90, 2000, 2010…

Mas eles mostram essa tendência e apresentam previsões de um cenário pior ainda…
Isso não é verdade. Excepto para o CO2. Mas a poluição do ar, por exemplo, na maioria dos países está a melhorar. A terra que é preservada em nome da conservação está a aumentar cada vez mais, 22% da superfície da Terra está protegida. Muitas espécies que estavam em risco de extinção foram salvas, como a águia-de-cabeça-branca que é o símbolo dos EUA. A protecção ambiental é um outro exemplo em que a cobertura jornalística não está a ser baseada em tendências mas antes em exemplos. Isso causou alguns danos. Acho que as pessoas estão a ficar apáticas em relação ao ambiente. “Não podemos fazer nada, estamos condenados.” Ou pensam que a alternativa é termos de reverter a industrialização e voltar a viver como no passado. Se dermos essa escolha às pessoas elas vão responder que não querem ser camponeses. Gosto da electricidade, gosto de entrar num avião e visitar os EUA ou a Europa. Por outro lado, a realidade é que através de mudanças na tecnologia e na regulação é possível aproveitar a vida moderna e melhorar o ambiente. Neste momento, nos EUA, especialmente a Administração Trump, defende que a protecção ambiental tem de prejudicar o crescimento económico. E isso é totalmente falso. Nas últimas décadas, a economia cresceu, a população cresceu, usamos mais energia mas a poluição diminuiu.

Numa das suas entrevistas disse que estava indeciso sobre incluir Donald Trump no próximo livro. O que decidiu?
Não o podia evitar. Algumas pessoas disseram-me: “Esquece o Trump, ele vai ser esquecido dentro de alguns anos. Escreve como se ele não existisse.” Achei que não podia fazer isso. Por outro lado, eu não ia fazer um livro sobre os efeitos de Donald Trump no progresso porque quero que o livro continue a ser lido daqui a dez anos. Assim, tenho um capítulo que se chama “O futuro do progresso” e aí tenho uma discussão sobre Trump e também sobre o populismo da ala direita, incluindo na Europa. Porque fazem parte do mesmo fenómeno.

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E o que diz sobre isso?
Acho que são uma verdadeira ameaça ao progresso de que temos beneficiado. É um movimento contra-iluminista. Vão contra as tendências que tornaram a nossa vida melhor.

Podemos lutar contra essa ameaça?
Temos de lutar contra isso. Não há qualquer garantia de que o progresso vá continuar porque há forças contra-iluministas que o querem impedir. Mas isso só faz com que seja ainda mais importante apreciar o progresso que temos e que identifiquemos as forças que tornaram esse progresso possível para termos algo em que acreditamos de forma firme e que vamos defender. Não podemos deixar a discussão entregue aos populistas da ala direita que alegam falsamente que o mundo está cada vez pior e que precisamos de empurrar para trás o iluminismo. Até agora, aproveitámos o progresso. Por isso, não vamos agora estragar tudo.

Mas, aproveitando o seu conselho de olhar para o que está para trás, essas forças não são novas, pois não?
Não. Logo que o iluminismo aconteceu houve um contra-iluminismo. Há alguns exemplos. O movimento romântico do século XIX, a ascensão do nacionalismo, fascismo, e numa forma diferente, o comunismo. Tudo isso são forças que vão contra os direitos do indivíduo, contra o valor das trocas e comércio, globalização. O nacionalismo, valorizando a tribo em relação ao indivíduo, foi uma forma de contrariar o iluminismo. Concordo, não são forças novas. Mas houve um aumento da representação política nos últimos dez, 15 anos.

Como é que vê o futuro? No livro que publicou em 2011 somos levados a pensar que estamos no bom caminho. Estamos?
Depende de muita coisa. Uma parte depende de conseguirmos enfrentar desafios como as mudanças climáticas e a guerra nuclear. Que penso que conseguimos. O que não significa que vamos conseguir. Recuso-me a fazer profecias. Mas pensando sobre o que poderá acontecer, se mantivermos o progresso científico e tecnológico, se mantivermos as organizações internacionais como as leis das Nações Unidas, acordos ambientais como o Acordo de Paris… Se continuarmos a valorizar os direitos dos indivíduos acima da glória da tribo… Essas são as forças que nos deram o progresso que beneficiamos hoje e que, se quisermos, podem continuar a dar.

Acredita que estamos perto de ter uma guerra nuclear?
Não acho que estejamos perto disso, mas penso que a probabilidade aumentou durante o último ano. Não acho que vá acontecer. Mas devemos tentar reduzir a probabilidade tão perto do zero quanto possível. E mesmo para zero. Nisso a Administração de Trump está a caminhar no sentido contrário. Mas, claro, Kim Jong-un [líder da Coreia do Norte] é ainda mais responsável. Mas conseguimos reduzir o número de armas nucleares em 85% desde o seu pico durante a década de 1980 e há um movimento, não entre pacifistas e “hippies”, mas entre muitos especialistas militares e outros para eliminar as armas nucleares até zero. Henry Kissinger [diplomata norte-americano e cientista político], George Schultz [economista que foi secretário de Estado do ex-Presidente norte americano Ronald Reagan] e originalmente Ronald Reagan defendeu a abolição absoluta de armas nucleares. Isso não vai acontecer no meu tempo de vida. Mas em cem anos… Não acho que seja impossível.

Mais uma vez refere estatísticas. Algumas pessoas, como o conhecido antropólogo Brian Ferguson e mesmo Noam Chomsky, um cientista com quem já trabalhou, criticaram-no afirmando que muitos números no seu livro “Anjos Bons” estão errados. Aliás, Chomsky disse que apenas concorda com os progressos morais (nos direitos civis, da mulheres, crianças, entre outros) referidos no livro. O que se passou?
Eu mantenho os números, estão certos. Brian Ferguson, em parte, mudou a sua posição. Originalmente, ele referia que nas tribos de caçadores-recolectores havia pouca violência. Agora, diz que eles tinham muitos homicídios. Mas eles não tinham guerras. No entanto, se num grupo de 50 pessoas tivermos um homicídio e depois uma matança por vingança, isso, em proporção, é semelhante a uma guerra numa sociedade moderna. Portanto, ele próprio mudou, perante dados quantitativos que mostram que houve muitas mortes em grupos de humanos anteriores à civilização.

Quando escreveu este livro apresentou seis tendências, cinco demónios íntimos, quatro melhores anjos [a versão original é better angels que foi traduzido para anjos bons] e cinco forças históricas que influenciaram o progresso. Neste momento, acrescentaria ou retiraria alguma coisa, algum novo demónio ou anjo?
Bem… (silêncio) Não. Estas são teorias que varrem milhares de anos de história e da estrutura do cérebro humano. Acho que nada de tão radical assim aconteceu nos últimos seis anos que me fizesse mudar o que escrevi. Mas no novo livro eu realmente actualizo cada uma das tendências históricas. Incluindo as teorias sobre o porquê dos declínios terem existido.

O quê, exactamente?
O declínio de grandes guerras. O facto de a maioria das guerras de hoje serem guerras civis e de as guerras entre países serem cada vez mais raras. E guerras entre grandes potências são inexistentes desde 1953 [Guerra da Coreia]. A explicação que dei no livro anterior para este declínio foi o crescimento da democracia, do comércio, das organizações internacionais. Mas desde que li um livro de Scott J. Shapiro e Oona A. Hathaway fiquei com uma nova ideia. Eles falam na importância do Pacto Kellogg-Briand, também conhecido como Pacto de Paris, assinado em 1928, que considerou a guerra como algo ilegal e que para muitos historiadores é tratado como uma piada. Argumentam, com bons dados do lado deles, que esta foi uma mudança determinante na história humana e que merece algum crédito sobre o declínio das guerras desde a criação das Nações Unidas, em 1945.

Qual o papel que atribui à religião e à ciência? No livro não são nem anjos nem demónios...
As forças de que falo no livro também mudaram a religião. As religiões tornaram-se mais humanísticas, menos dependentes das imposições de uma divindade, de um Deus, e mais preocupadas com o bem-estar das pessoas. As religiões mudaram com liberalismo e reformas. Isso ainda não aconteceu no islamismo mas há um pequeno movimento de liberalização que nos próximos 100 anos poderá fazer no islamismo o mesmo que aconteceu com a cristandade desde o iluminismo.

E a ciência?
É, em grande medida, uma força do progresso, por ser capaz de eliminar doenças e aumentar a esperança de vida, mas o mais importante de tudo será por encorajar uma mentalidade empírica sobre tudo. Ou seja, a ética da ciência diz que devemos sempre: número um, tentar explicar as coisas e não dizer apenas é assim e não vamos perceber porquê, tudo pode ser compreendido na plenitude do tempo; número dois, devemos testar as nossas crenças e questionar sempre as nossas certezas, pensar que os humanos estão quase sempre errados sobre quase tudo e que a única maneira de estar certo é olhando para o mundo e fazendo uma revisão constante daquilo em que acreditamos à luz de provas empíricas.

Define-se como um optirrealista. O que é que isso significa?
Reconhecer que a descoberta, com os factos empíricos, de que houve uma melhoria, progresso. Não é uma questão de estado de espírito, personalidade, dos genes que herdámos, se temos um olhar mais sorridente ou sombrio… Vamos olhar para os dados. Estamos a viver mais, estamos a matar-nos menos… Os dados que temos falam por si.

Portanto, pode-me assegurar que o mundo não está a desmoronar-se?
Ainda não, depende do que fizermos. Mas não, não está a desmoronar-se. É verdade.

Ainda está a investigar a área da linguagem, onde começou a trabalhar?
Estou a trabalhar mais na área da linguagem e comunicação num contexto social, menos na área da gramática, sintaxe, conjugações.

Em quê precisamente?
Sobre as razões que nos levam a usar eufemismos e insinuações. Por que é que não dizemos explicitamente o que sentimos. Como é que as nossas expressões faciais coincidem com as nossas emoções, o que sentimos quando valorizamos alguém por ser generoso, ou por alguém mesquinho. Porque valorizamos algumas pessoas e condenamos outras.

E que respostas tem conseguido?
Há uma grande diferença entre saber uma coisa e saber que a outra pessoa sabe. Dou um exemplo na comunicação sexual: porque é que as pessoas dizem: "queres subir ao meu apartamento?" Em vez de dizerem "queres fazer sexo?" Se formos adultos, acho que sabemos mais ou menos o que é que aquela pessoa quer dizer com subir até ao apartamento… Mas então por que é que existe esta diferença psicológica?

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Porquê?
Acho que a principal razão é que, se for indirecta, as duas pessoas sabem o que está a acontecer mas não têm 100% de certeza que a outra pessoa sabe, ou que sabe que ela sabe que ela sabe…

Mas precisamos dessas ferramentas…
Sim, para manter as nossas relações mesmo que se partilhe a informação. É diferente todos sabermos uma coisa e todos sabermos que sabemos uma coisa. Por exemplo, acho que ninguém acredita mesmo que os homens e mulheres são exactamente iguais mas então por que é que é considerado tão incorrecto um político, um académico, um jornalista dizer isso? Toda a gente fala nisso nos cafés, em casa, de forma informal.

É considerado uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. O que é que isso significa para si? O que acha que fez para influenciar o mundo?
Bem, eu tento não me levar muito a sério. Tento levar as ideias a sério, o trabalho. Mas como pessoa, se me levasse tão a sério julgo que isso prejudicava a qualidade do trabalho. Isso significaria que não aceitaria críticas de forma séria, encarava as críticas como insultos em vez de as encarar como razões para examinar ideias. Assim, tento estar atento ao que interessa as pessoas, o que as aborrece. Acho que fui sendo confrontado com ideias que as pessoas devem conhecer, e é um desafio apresentá-las de uma forma clara e interessante para que sejam apreciadas.