Médicos portugueses preferem as grandes cidades em detrimento do interior

Incentivos, descentralização das escolas médicas e regulação do local onde os jovens médicos vão exercer são algumas das soluções sugeridas pela OCDE para reverter o cenário em países onde a disparidade entre zonas urbanas e rurais é maior.

Médicos preferem trabalhar nos grandes centros urbanos
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Médicos preferem trabalhar nos grandes centros urbanos Enric Vives-Rubio

Os médicos portugueses preferem trabalhar nas grandes cidades em detrimento do interior. A disparidade é destacada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), no seu relatório Health at a Glance 2017 publicado esta sexta-feira. Preocupações com a evolução da carreira e a oferta escolar para os filhos são alguns dos motivos referidos no documento que também aponta sugestões para inverter o cenário como incentivos financeiros ou regulação do local onde os jovens médicos vão exercer.

“O acesso a cuidados médicos obriga a um número e uma distribuição adequada de médicos. A concentração de médicos numa região e a falta deles noutras leva a iniquidades no acesso como tempos de espera ou grandes deslocações”, refere o relatório da OCDE, que acrescenta: “Em muitos países há uma enorme concentração de médicos nas capitais. Isto é especialmente evidente na Áustria, República Checa, Grécia, México, Portugal, Eslováquia e Estados Unidos.” A concentração é também evidente quando se comparam zonas urbanas com rurais, com a primeira a ter mais oferta especializada.

Portugal tem 4,6 médicos por mil habitantes

A média da OCDE é de 3,4 médicos por mil habitantes. Portugal tem 4,6 , mas o relatório refere que o valor está sobrestimado, pois são contabilizados todos os médicos inscritos na Ordem, independentemente de estarem a exercer ou não. Mas quando se olha para a divisão entre zonas urbanas e rurais, as diferenças são evidentes. A média da OCDE para as zonas urbanas é de 4,2 médicos por mil habitantes enquanto que nas zonas rurais é de 2,7 por mil habitantes. No caso português, existem 5,4 médicos por mil habitantes para o primeiro cenário e 3,2 médicos por mil habitantes para o segundo.

Entre as possíveis justificações avançadas pela OCDE para esta diferença estão as preocupações dos médicos com limitações na evolução da carreira, falta de profissionais com quem fazer equipa, menos oferta educacional para os filhos e oportunidades de trabalho para o cônjuge.

A captação e fixação de profissionais nas zonas mais carenciadas já faz parte da política de muitos países, entre eles Portugal que desde 2015 tem em vigor incentivos financeiros que foram recentemente revistos com o objectivo de levar mais médicos para o interior. Esta é uma soluções sugeridas pela OCDE, que aponta ainda medidas como a descentralização das escolas médicas, a regulação do local onde os jovens médicos vão exercer e a reorganização dos serviços para melhorar as condições de trabalho para reverter estes cenário. “As medidas devem ser definidas com o claro conhecimento do que interessa ao grupo-alvo para que o impacto seja significativo e duradouro”, aponta o relatório.

Despesa das famílias com saúde aumenta

O relatório passa ainda em revista o investimento e os gastos em saúde. E as famílias portuguesas estão a pagar mais. “Os encargos das famílias [out of pocket] e as consultas perdidas por causa dos custos são dois indicadores que medem o acesso, com especial relevância nos grupos com menos recursos. Os encargos podem criar barreiras no acesso aos cuidados de saúde. Na OCDE houve um ligeiro aumento do consumo das famílias, que foi mais alto na Coreia, Suíça, Grécia, Hungria, México, Portugal e Chile”, refere o relatório. A média dos encargos das famílias com saúde é de 3%, enquanto que em Portugal é de 3,8%. com uma grande fatia dos gastos a irem para os tratamentos dentários.

Quanto ao investimento, de uma forma geral a maioria dos países europeus registou uma quebra. Que foi mais acentuada nos países que enfrentaram uma crise financeira maior, como Portugal e Grécia. O relatório refere que os medicamentos são o terceiro principal encargo quando se fala de gastos em saúde. E foi este um dos sectores onde mais se fez sentir os efeitos da crise, com uma redução de gastos.