Entrevista

“Propus, a todas as forças, pelouros importantes. A porta continua aberta”

A presidente da Câmara de Almada evita críticas aos comunistas, a quem reconhece trabalho, mas não deixa de lamentar que o PCP tivesse apresentado “contrapropostas” feitas “para serem recusadas” e que não tenha colaborado na transição do poder. Inês de Medeiros quer reconciliar o concelho com o PS.

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Inês de Medeiros é a nova presidente da Câmara Municipal de Almada Daniel Rocha

É na Casa da Cerca, um espaço cultural em Almada com uma desafogada vista para Lisboa, que Inês de Medeiros conversa com o PÚBLICO. Dali vê-se o rio que a autarca vai atravessar até arranjar um sítio em Almada onde ficar. A ideia é dividir-se entre o novo trabalho e a família que está em Lisboa, aquela que será sempre a sua cidade, apesar de ter nascido em Viena e vivido ainda em Paris. O cinema e a representação serão sempre os seus amores iniciais, mas a política também a preenche. Percebeu a importância dela logo em menina, quando voltou a Portugal no pós-25 de Abril e a presenciou nas ruas. Aos 49 anos, vai abraçar uma autarquia, onde fez uma aliança com a direita, embora seja uma defensora da “geringonça” de esquerda na Assembleia da República: “Com esta solução governativa, o Parlamento ganhou um bocadinho mais da dignidade que merece.” Para Inês de Medeiros, a política é um espaço de liberdade. E, nesse aspecto, não tem dúvidas: o PS é o partido “mais tolerante e livre do espectro político”. Curiosamente, ainda não sentiu necessidade de ser militante.

Foi mandatária da juventude de Jorge Sampaio, mas na tomada de posse foi Mário Soares quem evocou. Porquê?
São duas referências absolutas para mim. No caso de Mário Soares, todos temos uma grande dívida para com ele naquilo que é a instalação de uma democracia livre. E está na altura, aqui em Almada, de haver uma reconciliação com o passado. Independentemente das lutas e dos conflitos que se viveram e muito intensamente neste concelho, é importante dizer que há pessoas que também são um símbolo de tolerância e convivência democrática. Se houve coisa que Mário Soares me ensinou foi a não ter medo. Não haver medos, não haver palavras proibidas. Não se trata obviamente de uma provocação, trata-se de uma homenagem a alguém que lutou pela democracia neste país, no pós-25 de Abril, e sempre lutou pela liberdade de todas as forças políticas sem excepção. É isso que importa relembrar.

Ganhou uma câmara histórica ao PCP. Vai governar com o PSD. Não é uma guinada demasiado forte para a "geringonça"?
Não devemos misturar assuntos nacionais com autárquicos. Há realidades locais particulares. Não creio que a "geringonça" – da qual sou uma defensora há muitos anos, antes de acontecer – esteja comprometida com o que aconteceu em Almada. Propus, a todas as forças, pelouros importantes. Aliás, a porta continua aberta. Negociámos com as três forças, só conseguimos concluir com o PSD. Não quer dizer que daqui para a frente não possa haver outras formas de colaboração ou novas configurações. Com o PSD não é uma coligação, é um acordo de governabilidade. E agradeço a disponibilidade do PSD para essa abertura. As eleições em Almada tiveram um significado especial, nomeadamente para a CDU. São 40 anos de um poder que nunca tinha mudado. É preciso dar tempo para as pessoas e as forças se conseguirem readaptar à nova realidade. A lei é como é: dá possibilidade a todos os eleitos de assumirem pelouros, embora limite a quantidade de vereadores a tempo inteiro que podemos ter.

Não tem receio que o eleitorado de esquerda se sinta traído?
Não. Quando o presidente Bernardino [Soares, em Loures] faz um acordo com o PSD em 2013, no auge da crise, acho que nada disso põe em causa o seu sentido de esquerda.

A direcção do PS disse-lhe algo sobre o entendimento com o PSD?
Não. Deu liberdade a cada município para fazer os entendimentos necessários. Há um entendimento muito claro de que uma coisa é a realidade nacional e outra coisa é a realidade autárquica. Mas, obviamente, temos a noção do impacto desta alteração em Almada.

Está preparada para ceder à direita?
Se tivesse, como gostaria de ter tido, vereadores com pelouro da CDU ou do BE também teria de negociar permanentemente.

Mas não lhe custaria tanto, sendo uma mulher de esquerda.
Há questões transversais. Todas as forças políticas, sem excepção, da esquerda à direita, têm noção de que é necessário atrair investimento para Almada. Nenhuma das forças envolvidas, com ou sem pelouros, deve estar fixada na cedência, é uma palavra que não faz sentido aqui, o que importa é encontrar os pontos de concordância. Temos um acordo de governação e é possível que haja matérias onde não chegaremos a acordo com o PSD, mas os vereadores sem pelouro também têm voto. Até agora, com o PSD de Almada as relações tem sido das mais cordiais, construtivas e disponíveis, com pontos muito concretosem que há concordância, como, por exemplo, na necessidade absoluta de atrair investimento ou a reabilitação do espaço urbano. E na criação de uma agência de desenvolvimento para Almada. 

E o seu pai, que sempre disse que a filha era uma mulher de esquerda, como reagiu a este entendimento?
Com naturalidade. Não vou estar aqui a reproduzir frases sobre quem dança com quem. É preciso haver abertura dos dois lados e estamos certos de ter feito propostas à CDU que eram consistentes. Não eram de todo minimizadoras. Não quero entrar no detalhe das negociações. 

Temos de lhe perguntar na mesma. Por que razão falharam as negociações à esquerda?
Por enquanto falharam, porque há contrapropostas que são feitas para serem recusadas. São mensagens muito claras. As conversas sempre correram muito bem, de forma afável e colaborativa, durante 15 dias. Foi algo surpreendente para mim que, na véspera da tomada de posse, houvesse uma alteração de posição. Considerámos que era uma grande alteração de posição relativamente àquilo que tinham sido os encontros anteriores.

E o Bloco de Esquerda?
O BE foi sempre muito claro, transparente. Anunciou que, não sendo decisivo para a criação de uma maioria, não estaria disponível para assumir pelouros de grande envergadura. Mostrou-se disponível para colaborar de outras formas. As portas continuam abertas. 

Com a CDU, o que houve foi uma luta por pelouros?
A última proposta, a que a CDU chama contraproposta, era daquelas feitas para não serem aceites. É a leitura que fazemos.

Teve a ver com pelouros ou com regimes de permanência?
Infelizmente tinha a ver com pelouros. Nunca chegámos à fase — que, para mim, era mais importante — do debate programático. Fomos surpreendidos com esta contraproposta na véspera da tomada de posse à noite. Não havia sequer tempo para mais negociações até à tomada de posse. Era urgente começarmos a trabalhar. Por outro lado, também não posso não referir que a transição não se fez da melhor maneira ou da forma colaborativa que estaríamos à espera.

O que quer dizer?
Houve muito pouca transição de pastas. Mas, mais uma vez, isto já está a ser ultrapassado. O que quero deixar aqui muito claro é que as portas continuam abertas e não há um clima de tensão. Entretanto já voltámos a ter contactos com a CDU.

Que pelouros estavam em causa? Era o da cultura do qual não abria mão?A cultura nunca esteve em cima da mesa, por razões evidentes. Não quero entrar no detalhe. As negociações devem ser feitas com recato, o mais importante é o resultado e a atitude daqui para a frente.

Reconhece o papel da CDU na governação do município mas diz que o modelo do PCP está esgotado. Porquê?
Qualquer poder inalterável há demasiado tempo cria inércias e perde algum sentido de urgência. Reafirmo que reconheço o papel do PCP, da APU e da CDU, no desenvolvimento de Almada e na superação de anos muito difíceis, como foram os 80 e 90, com a desindustrialização. E é justo prestar o devido tributo à ex-presidente da câmara, Maria Emília de Sousa, que esteve 26 anos na autarquia. O que se sentiu nos últimos oito anos, e muito neste último mandato, foi uma certa inércia e incapacidade de responder aos problemas mais prementes. É a dificuldade da política autárquica. O poder autárquico tem duas obrigações: responder às necessidades imediatas e projectar o município para o futuro.

Os seus parceiros de governação do PSD defendem uma auditoria às contas do município e dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento. Vai fazê-la?
É uma operação normal quando há uma alteração de gestão e de força política, normal no início de mandato. Não se trata de uma auditoria para estar a pôr em causa mandatos anteriores. É para sabermos a quantas estamos.

Era algo que já pretendia fazer?
Sim, mas com muita naturalidade. Não se deve dramatizar ou politizar esse acto.

Sente-se preparada para governar Almada ou está a refazer-se da surpresa?
Não foi uma total surpresa. Sobretudo no final da campanha sentíamos muito que alguma coisa ia acontecer.

Mas, quando partiu, achou que ia ganhar este bastião comunista?
Tinha perfeita consciência da dificuldade de ganhar, estava a concorrer com um poder instalado há quase 42 anos. Percebemos muito cedo que havia uma grande insatisfação, um sentimento de frustração com os últimos quatro anos. À medida que a campanha foi avançando, sentimos uma onda de entusiasmo maior. Comuniquei ao presidente da distrital de Setúbal e ao PS nacional: “Pode acontecer qualquer coisa em Almada”. O PS de Almada dizia que nunca tinha tido uma campanha assim. Não foi uma total surpresa, mas não podíamos calcular ao certo qual seria a dimensão. Acabámos, na recontagem, com 400 votos de diferença, uma pequena diferença.

E quanto a estar preparada? Quando interiorizou a vitória sentiu aquele frio no estômago como quando entra em palco?
[Risos] Numa analogia com o palco, devo dizer que só se tem o frio no estômago antes de entrar, depois esses temores desaparecem.

Começa a sentir-se bem nestas funções?
Começo. Sinto-me preparada e com uma equipa capaz e igualmente preparada para desempenhar estas funções.

Assumiu a reabilitação urbana como uma das prioridades. O Cais do Ginjal e a Cidade da Água vão avançar nestes quatro anos?
Posso garantir que tudo faremos para que avancem. O Cais do Ginjal está em consulta pública, teremos de nos reunir em breve com os promotores e detentores de grande parte do Ginjal para perceber quais os projectos para aquela zona, que considero prioritária. Tudo faremos para que, até ao final do mandato, a obra possa ter início. Na Margueira, felizmente, toda a questão da titularidade dos terrenos já está resolvida e há que abrir, quanto antes, o concurso internacional para iniciar o projecto.

Disse que quer um projecto em que a comunidade se reveja. Admite que o plano possa ser alterado?
O plano está feito e publicado, mas o projecto não está feito. O plano já prevê a possibilidade de pequenas adaptações. Terá de haver um concurso público para os investidores privados que ficarão encarregues do projecto propriamente dito. Também falei, no discurso de posse, da rampa da mobilidade [primeira medida como presidente] e fico muito feliz por saber que já está um projecto concluído, em pouco mais de uma semana. Já temos um primeiro projecto em cima da mesa e vamos poder avaliá-lo, orçamentá-lo e concretizá-lo. Há outros problemas quotidianos em Almada. A política de acessibilidades está parada e tem de ser retomada. Almada é referência em várias áreas, mas não está bem como concelho inclusivo. Há outros projectos que gostaria de iniciar rapidamente, como o Presídio da Trafaria. Nas grandes prioridades temos também a mobilidade, com dois contratos de concessão que têm de ser revistos, dos Transportes Sul do Tejo (TST) e Fertagus, e a higiene urbana.

É uma pessoa do teatro. O apoio ao Festival de Teatro de Almada é para manter, reforçar ou repensar?
É para manter, certamente. Gostava até que fosse para reforçar, mantendo a fortíssima identidade do festival, uma referência internacional e o maior evento teatral do país. Quero também deixar nota que a Mostra de Teatro de Almada, que junta grupos amadores e profissionais e está na 21.ª edição, merece ser mais promovida. Aproveito ainda para descansar algumas almas mais inquietas dizendo que o Sol da Caparica, um grande evento, também é para manter.