Dor de cotovelo Summit

A Web Summit vende, além de unicórnios, dor de cotovelo. É por isso que pessoas que não vão se pronunciam. Eu, que sou tão dada à parolice como os que foram, resolvi reportar de volta

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Nuno Ferreira Santos

Ouve,

 

Fala-te a parola-mor da Web Summit. Como claramente não meteste lá os pés falas — como tantos outros — do que não sabes, faço-te um relatório detalhado, para poderes adelgaçar esse teu alter-ego "neandertal" (como dizes) e voltar a instalar umas apps a partir de amanhã.

 

Respira. Concordo que é melhor ir empreender e fazer networking para o Estádio da Luz — essa meca de desenvolvimento nacional. Sabes que por lá também se paga mais para estar mais perto do relvado, mas digo-te, poder levar com um bocado de suor ou uma escarradela perdida dos jogadores no decote não tem preço!

 

Isto já para não falar — como bem mencionaste — dessa javardice que é invadir revistas e jornais com artigos sobre um evento que faz mexer a economia e que traz 60.000 labregos a Lisboa e põe a trabalhar outros 21.000. Insólito deixar de dar prioridade a notícias que me instruem e que valorizo: transferências de jogadores, os novos filhos do Ronaldo e o que se serve nas refeições da selecção.

 

Foi um escândalo. Vi por lá muito boa gente a trabalhar quando podiam perfeitamente estar no café a falar da vida alheia: pessoal de restauração, seguranças, auxiliares de limpeza e até militares, destacados para lá em vez de estarem a palmar umas pistolitas em Tancos. De mau tom, tens razão.

 

Asseguro-te. A Web Summit é uma bandalheira. Uma pessoa galopa para lá, apenas para roçar a intelectualidade de feiras verdadeiras. Tentei ver onde podia pagar três vezes mais por uma febra duvidosa, como no Rock in Rio, e nada… Pelo sim pelo não, parola que sou, levei uma sandoca de fiambre na mochila — e não é que me deixaram entrar? Vergonhoso. Amanhã venho com frango de churrasco e meio litro de vinho.

 

Mais grave. Naquele chavascal, tens uma aplicação onde podes falar com toda a gente e marcar encontros. Uma real bosta. Partilho: fartei-me de empreender no chat do Al Gore, mandei-lhe pelo menos 23 emojis de pêssegos seguidos de beringelas, de forma profana mas ainda assim cordial, e o tipo nem uma respostinha. Unicórnios, dizes tu.

 

Pior. O auge — para além claro de poder tentar afiambrar o dono (CEO se quiseres) da Uniplaces ou da Fintech — foi a aparição da Sophia, uma tipa robótica, claramente trazida às pressas do último Salão Erótico de Estarreja. Nem uma peruca tiveram tempo de lhe enfiar. Pergunto-me. Porque não botar no palco a nossa La Makina Turbinada ? Melhor, mais roliça e bem apetrechada onde se quer.

 

E voluntários que trabalham de graça? Que conceito ridículo! Realmente não cabe na cabeça de ninguém trabalhar 18 horas em troca de algo. Aliás, para quê trabalhar para um evento onde se pode aprender, aguçar curiosidade e conhecer pessoas, quando se pode trabalhar o mês inteiro por 560 euros?

 

Enquanto ninguém se chega à frente nesse novo registo, eu vou andando pelo Summit. E olha, se me vires por lá, vem dar-me uma beijoca, a menos claro que sejas daqueles que ficou no sofá a ressabiar e não sabe do que fala.

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