Nathalie, de Nova Iorque a Lisboa: “O fado é a música que mexe comigo”

Fadista nascida em Nova Iorque apresenta no Misty Fest o seu terceiro disco, com produção de José Mário Branco. Esta quinta-feira no CCB, em Lisboa, às 21h.

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Nathalie SOFIA RIBEIRO

O disco, já gravado, só será lançado no início de 2018. Mas quem quiser ouvi-lo poderá ir até ao CCB, em Lisboa, onde a jovem fadista Nathalie irá apresentá-lo, esta quinta-feira, às 21h. Nascida em Nova Iorque em 29 de Abril de 1986, filha de emigrantes portugueses, Nathalie foi levada pelo pai desde muito nova às noites de fados nas comunidades portuguesas de Newark. Aos 13 anos, já acompanhada à guitarra e à viola, começou a cantar em público. No ano em que Amália morreu.  

O seu disco anterior, Fado Além, foi lançado em Portugal em 2016 e deu-lhe alguma notoriedade. Agora tem outro, pronto a sair, Alma Serena. Com letras novas para fados tradicionais e temas de compositores como Amélia Muge, Capicua, Márcia, Agir, Manuela de Freitas e José Mário Branco, que assegura a produção e os arranjos. “A minha ideia foi gravar um disco de fado tradicional”, diz Nathalie ao PÚBLICO. “E nunca pensei que o José Mário Branco aceitasse. Mas foi uma honra trabalhar com ele, aprendi imenso.” Não só. “Aprendi também com esta experiência do fado. Como comecei a cantar nos Estados Unidos, nunca pensei que ia chegar a Lisboa e fazer aquilo que já fiz. Por isso pensei: porque não tentar o impossível?” Em relação aos outros compositores, diz: “A Amélia já tinha escrito para o meu disco anterior. Quanto à Márcia e ao Agir, como gosto de todo o tipo de música, achei que faria sentido inclui-los neste disco. E tive a honra de ter também a Manuela de Freitas a escrever para mim, não só a escrever mas a estar no estúdio comigo.”

Duas metades, aqui e lá

Ela escreveu-lhe Esta tristeza, para o Fado Rosa. “Adoro essa letra. Nas minhas conversas com a Manuela, a falar-lhe sobre o que eu sinto em ser fadista, o nunca estar bem ou nunca me sentir satisfeita, ter esta tristeza, ela apresentou-me esta letra que achou que tinha a ver comigo.” Já a letra escrita por Capicua, À espera, nasceu de outra conversa. “Disse-lhe que estou numa fase onde não sei se estou bem em Lisboa ou nos EUA, nem sei se quero escolher, é uma luta que sinto dentro de mim. Então ela escreveu essa letra, que num verso diz: ‘Entre estas duas metades/ aprendi a ser inteira.’ Tem tudo a ver comigo e achámos que encaixava bem no Fado Rosita.” Já Sinto falta do teu nome, de Amélia Muge, “é um dos mais difíceis de cantar, no disco”, diz Nathalie. Um desafio assumido. “Eu adoro cantar as coisas dela, é um filme que passa pela minha cabeça.”

No disco, há um dueto com Camané, em Fado sem ti. “Comecei a gravar em Janeiro e quando me encontrava com o Camané ele perguntava-me sempre como é que estava a correr, como é que me sentia. E pensei nele, perguntei se queria fazer parte do disco e ele aceitou, fiquei muito contente.”

Nathalie continua a viver nos EUA e a cantar lá. “Agora mais em festivais de world music. É muito raro cantar nas comunidades portuguesas, porque é muito difícil arranjar guitarristas que saibam tocar guitarra portuguesa. Então canto mais vezes em Portugal e noutros países europeus. Só este ano cantei em Espanha, África do Sul e Dinamarca.” Com José Manuel Neto (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola de fado) e Bernardo Moreira (contrabaixo). “Mas já cantei com o Bernardo Couto, com o Pedro Viana, o Miguel Amaral.” Continua a ser contabilista, embora seja “cada vez mais difícil equilibrar as duas coisas”, mas por enquanto quer manter-se assim.

À procura de um som próprio

Como olha para si como fadista? “Não penso muito nisso. Canto os fados que gosto de cantar, escolho as letras e canto o que acho que faz sentido para mim, mas não penso que quer ser assim ou de outra forma. Eu quero é chegar ao público. O meu estilo é muito calmo, é por isso que eu gosto tanto do fado tradicional. Mas ainda estou à procura de um som próprio, ainda estou a conhecer-me a mim própria e estou a aprender muito. E acho que é essa é também a mensagem do disco.”

Diz que ouve de tudo: Ella Fitzgerald, hip hop, jazz. “Mas não consigo identificar-me do mesmo modo com outro género de música do que com o fado. O fado é a música que mexe comigo. E cantar muito menos, já cantei hip hop ou música clássica, mas só me sinto bem a cantar o fado.”