Reuniões secretas com líderes israelitas fazem cair ministra britânica

É a segunda baixa no debilitado Governo de Theresa May em menos de uma semana. Priti Patel, responsável pela ajuda aos territórios palestinianos, omitiu contactos com o executivo de Netanyahu.

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Patel foi mandada regressar de uma visita ao Uganda NEIL HALL/EPA

Priti Patel, ministra britânica para o Desenvolvimento Internacional, apresentou nesta quarta-feira a sua demissão depois de, por várias vezes, ter omitido que aproveitou o pretexto de férias familiares em Israel para se encontrar com vários governantes, incluindo o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, à revelia do corpo diplomático e sem informar Theresa May. Em menos de uma semana, a primeira-ministra perde o segundo membro do seu executivo, o que dá uma imagem de crescente desagregação, num momento crucial das negociações para a saída da União Europeia.

Patel foi recebida ao início da noite em Downing Street, horas depois de ter sido mandada regressar de uma visita ao Uganda (numa viagem que foi seguida em tempo real nas redes sociais graças a sites de monitorização de voos aéreos), e quando se tornara já claro que não restava a May outra alternativa que não a de substituir Patel, uma das principais advogadas do “Brexit” dentro do executivo. Na carta de demissão, a ex-ministra afirma que agiu com “a melhor das intenções”, mas admite que as suas acções “ficaram aquém dos padrões de transparência” exigidos. Na carta em que confirma ter aceitado a saída, a líder conservadora afirma apenas que Patel tomou a decisão “certa” perante as últimas revelações vindas a público.  

A gota de água terá sido a notícia de que a ministra, quando foi chamada na segunda-feira a Downing Street para dar explicações, não informou May de outros dois encontros com dirigentes israelitas, realizados em Setembro já depois das férias. Um deles foi com Gilad Erdan, o ministro responsável pela estratégia de Telavive para combater a campanha a favor de boicotes a Israel por causa da ocupação de territórios palestinianos, e à semelhança do que acontecera em Israel teve como única testemunha o presidente do lobby Amigos Conservadores de Israel, de que Patel já foi vice-presidente.

Ora Patel, estrela em ascensão do Partido Conservador e que chegou a ser vista como potencial sucessora de May, é a responsável pela gestão dos milhões de libras da ajuda enviada por Londres à Autoridade Palestiniana e a organizações, como a Amnistia Internacional, que denunciam abusos cometidos nas zonas ocupadas. Israel tem feito pressão junto de vários aliados para reverem estes apoios, que considera terem como objectivo deslegitimar o Estado hebraico.

Na véspera soube-se também que, ao regressar de Israel, a ministra terá questionado o seu ministério sobre se seria possível financiar um hospital militar nos montes Golã, território capturado à Síria em 1967, com o pretexto de que ali estão a ser assistidos feridos no conflito do país vizinho. O pedido foi considerado impróprio pelos seus serviços – o Reino Unido, como a maioria dos países, não reconhece a ocupação dos montes Golã – e, na terça-feira, um porta-voz da primeira-ministra confirmou que Patel não informou May desta proposta.

Já nesta quarta-feira, o jornal Ha’aretz revelou que a ministra britânica se deslocou àquele hospital, uma visita que, a ser confirmada, viola o protocolo diplomático do Governo britânico, que impede os seus dirigentes de se deslocarem a territórios ocupados sob os auspícios do Governo israelita.

Diplomacia britânica em causa

Patel sai do Governo menos de uma semana depois de o ministro da Defesa, Michael Fallon, se ter demitido por causa de comportamentos impróprios que terá tido com mulheres, jornalistas e colegas de partido, parte de um escândalo de assédio sexual que levou a primeira-ministra a ordenar inquéritos à conduta de outros dois membros do executivo. Casos que fragilizam ainda mais um governo consumido pelas difíceis negociações com a UE e liderado por uma primeira-ministra que não voltou a reencontrar a sua autoridade desde que perdeu, nas legislativas de Junho, a maioria absoluta que detinha no Parlamento.

Para vários analistas, a saga que culminou no afastamento de Patel demonstra bem as consequências explosivas que a fragilidade de May pode ter sobre a posição do Reino Unido e a reputação da sua diplomacia, tal como já tinha acontecido em Setembro quando o ministro dos Negócios Estrangeiros, Boris Johnson, assumiu posições divergentes de May em relação ao “Brexit” sem que isso lhe valesse a demissão.

“May desistiu da noção de disciplina no Governo”, escrevia na terça-feira Ian Dunt, editor do site Politics.UK, argumentando que “a sua falta de autoridade levou ao surgimento de pequenos feudos onde antes existia uma política externa britânica centralizada”. “Os ministros podem falar e agir independentemente do nº10 [de Downing Street] sem qualquer consequência.”

Uma conclusão reforçada pela última gaffe cometida por Johnson que, na semana passada, disse no Parlamento que Nazanin Zaghari-Ratcliffe, uma britânica de origem iraniana presa e condenada por conspiração em Teerão, estava no país “apenas para ensinar jornalismo”. Uma afirmação desmentida pela família, que garante que ela estava no país apenas para visitar os pais, e que levou o regime iraniano a admitir acusá-la de mais crimes. Perante a indignação da família, Johnson telefonou ao seu homólogo iraniano para corrigir a informação, mas não se retractou nem foi admoestado por May.

“Nenhum destes ministros mereceria um lugar no Governo conservador baseado na competência, na lealdade ou na agenda política de May”, escreveu o jornal Guardian em editorial, sublinhando que Patel e Johnson, ambos apoiantes do “Brexit”, foram chamados ao executivo “numa tentativa falhada de manter o Partido Conservador unido”. “Em termos de política externa, não há propriamente um governo, mas uma série de tribos desavindas”, acrescenta Dunt. “Em tempos normais isto seria um momento triste na história do Reino Unido. Por causa do ‘Brexit’ é uma catástrofe.”