Editorial

Um ano de populismo

Donald Trump pode só ter conseguido passar legislação menor, mas o que foi aprovado constitui um pacote que replica a agenda mais conservadora das últimas décadas.

O que é mais impressionante neste ano é a capacidade que o Presidente Trump teve de se manter mais Trump e menos Presidente. Dito de outra forma, é o candidato transformado em Presidente que menos se deixou influenciar pelo cargo, tendo em vez disso transformado o cargo num subproduto da sua imagem. Trump continua a passar um terço do tempo nas suas propriedades, a jogar golfe sempre que pode, a dar destaque às figuras menores que o rodeiam e a desprezar os cânones do comportamento

Como disse ontem um diplomata na WebSummit, “o Presidente que ganhou graças ao Facebook governa através do Twitter”. É isto que a Casa Branca tem dado ao mundo, comprovando a manutenção de uma guerra cultural que está para durar. Quando um presidente passa os primeiros seis meses do mandato a tentar construir um gabinete que se desfaz em lutas fratricidas, e os restantes seis a apostar em políticas que não conseguem sequer unir o próprio partido, é fácil concluir que este mandato está a ser tudo menos fácil.

Mas a guerra é real: Donald Trump pode só ter conseguido passar legislação menor, mas o que foi aprovado constitui um pacote que replica a agenda mais conservadora das últimas décadas. O ataque às liberdades civis de imigrantes, a recusa dos refugiados, a limitação de direitos das comunidades LGBT, a menorização das mulheres no gabinete e a destruição das políticas ambientais mais sensatas têm consequências profundas na psique norte-americana. Isto agrada à sua faixa de apoiantes e explica porque a taxa de aprovação do Presidente se mantém próxima dos 40% - que até pode ser a mais baixa dos últimos presidentes, mas é bem mais alta do que muitos analistas gostariam. Tal como a Fox News se mantém o canal mais visto nos EUA, está longe de ser claro que hoje Trump perdesse uma reeleição – até porque há sempre o último recurso para um Presidente sem ideias que precise de unir uma nação, que é a guerra. Esse é o verdadeiro problema que esta Casa Branca representa: a expressão política deste candidato criou um novo espaço de poder que será representado pelos piores políticos, com poucos princípios e ainda menos escrúpulos.

O segundo ano da sua presidência pode até ser o último, graças à investigação do procurador especial que está a ligar os pontos entre a campanha republicana e a influência russa. Mesmo que isso não aconteça, as as eleições intermédias, daqui a um ano, podem ter consequências dramáticas para o Presidente: se os democratas ganham controlo da Câmara dos Representantes, será ainda mais difícil para o presidente passar legislação, o que irá assegurar ainda mais populismo raivoso exposto no Twitter e na rua.

A queda de Trump pode até já ter começado. Mas mesmo que isso aconteça, não é isso que vai fazer cair esta vertente do populismo reacionário e demagógico.