Como era África, pai?

Como se diz guerra?, como se diz morte?, como se diz amor? O presente de um país na tensão entre dois homens e na linguagem em que conseguem comunicar um com o outro. É o 29.º romance de António Lobo Antunes.

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Nuno Ferreira Santos

O título ecoa. Até Que as Pedras Se Tornem mais Leves Que a Água. Poema de amor e morte. Ou só uma frase bonita. No dia em que o amor vier ou a morte chegar, o peso talvez se perca, talvez nos salvemos. Entretanto, há um pai e um filho, cada um com a sua guerra, ou melhor, cada um com a sua perspectiva de uma guerra 43 anos depois e nesse tempo, com as vidas que essa guerra moldou.

Até Que as Pedras Se Tornem mais Leves Que a Água, 29.º romance de António Lobo Antunes, marca o regresso do escritor a um território que tem sabido explorar como poucos: o da Guerra Colonial e das marcas numa geração que vai envelhecendo e morrendo, e agora noutra que cresceu debaixo de uma sombra da qual nem se livra nem entende. Isto no país da classe média, do conformismo da religião católica, das raivas e dos afectos contidos. Neste livro, esse deslaçar de valores é mais notório, como se o tempo que passou ajudasse no luto de uma guerra ainda por fazer, em que o preconceito que a fomentou e os outros mais preconceitos que dela vieram funcionam como barreira. Através de toda a tensão e tentativa de diálogo entre um pai e um filho, Lobo Antunes expõe essas dores.

É um exercício de linguagem com a marca a que o autor tem habituado os leitores, mas que ganha aqui uma tensão e uma dimensão muito física. “Esta noite, conforme tantas vezes desde há quarenta e três anos, tornei a sonhar com África.” A frase é de um dos narradores. Serviu na guerra em Angola, como alferes pára-quedista. Anda desde então às voltas com a sua identidade. A guerra baralhou tudo.

“O que aconteceu ao meu sorriso?”, questiona-se entre muitos silêncios, os de quem não sabe contar porque é impossível contar o horror a quem não o viu, ou viveu. Uma criança de cinco anos estava lá. Soube. Viu-o matar os seus pais. E o alferes leva-a com ele no fim dos 27 meses de combate. Ele será o seu filho. O “preto”, o “macaco”, o “escarumba”, como lhe chamam. Um e outros tentam encontrar-se nos seus silêncios. Em Lisboa apresenta esse filho à que será sua mãe, a mulher do alferes, que conhecemos doente de cancro em vésperas de uma matança de porco. Quarenta e três anos depois. Já o menino “preto” é adulto, casado com uma mulher que não o entende, e irmão de outra mulher que só parece conhecer o rancor e não entende o que seja gostar. A irmã que quer que o irmão vingue o pai.

Cruzando tempos, perspectivas, tendo como palco principal uma aldeia envelhecida nos arredores de Lisboa, Lobo Antunes indaga acerca da identidade em todas as suas contradições e actualiza um conflito, ferida aberta. “Como era África, pai?”, pergunta o filho, adulto, ao ex-alferes, que por sua vez se inquieta com o olhar do rapaz. O adulto que sabe mais do que aquilo que diz, que sempre disse.

Essa gestão é o pulsar do livro, vários ritmos de respiração. O presente de um país na tensão entre dois homens e na linguagem com que escolhem ou conseguem comunicar um com o outro. E os diálogos seguem o fluxo da consciência. Como se diz guerra?, como se diz morte?, como se diz amor? Como se elimina o peso? Dizer que é um grande livro sobre a guerra — colonial, de África, do Ultramar — seria reduzi-lo. Talvez seja sobre o medo de não ser amado.

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