Reportagem

Bem-vindo à Sputnik, um reino de meias-verdades

Na era soviética, a propaganda destinava-se a disciplinar um povo inteiro para seguir os seus líderes. A Rússia de hoje abraçou a evolução tecnológica e quer disputar com o Ocidente a luta pela verdade. O PÚBLICO passou três dias numa das suas armas.

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Será que o Kremlin continua a controlar a mensagem como fazia durante a época soviética? YURI KOCHETKOV/EPA

Nos últimos anos, a forma de se fazerem notícias na Rússia tornou-se notícia. Os canais de televisão estatais como a RT (anteriormente conhecida como Russia Today) e as agências noticiosas como a Sputnik são acusados pelos serviços de informações norte-americanos de terem manipulado a percepção de milhões de eleitores durante as eleições presidenciais, em favor de Donald Trump. Recentemente, o Twitter decidiu proibir a compra de publicidade na rede social por parte dos dois órgãos de comunicação russos. Acusações semelhantes têm sido afloradas sempre que se aproximam ciclos eleitorais na União Europeia, como aconteceu em França ou na Alemanha.

A guerra de informação entre a Rússia e o Ocidente é apenas uma das faces do clima de desconfiança que se abateu nos últimos anos entre os dois blocos, com vários responsáveis políticos a falarem de uma nova Guerra Fria. A partir daí, as comparações entre a Rússia governada por Vladimir Putin desde o início do milénio – com uma curta interrupção para trocar de lugar com o primeiro-ministro Dmitri Medvedev, entre 2008 e 2012 – e o regime soviético que nasceu há precisamente cem anos regressaram em força. Será que o Kremlin continua a controlar a mensagem como fazia durante a época soviética?

O historiador Oleg Lekmanov diz, em resposta ao PÚBLICO por email, que as “analogias entre as duas épocas são extremamente simplistas”. Durante o período soviético, “os meios de comunicação não eram apenas usados para exercer pressão sobre os cidadãos, mas também havia pressão directa”, diz o professor da Escola Superior de Economia de Moscovo, dando o exemplo das prisões de “personalidades indesejáveis do meio cultural”.

Hoje, o sentimento dominante é de que existe uma “campanha global anti-russa”, como disse o director-adjunto do Departamento de Imprensa e Informação do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo, Alexander Bikantov, durante um encontro com jornalistas estrangeiros na semana passada. O papel dos meios de comunicação estatais é mostrar a “perspectiva russa” dos acontecimentos diários e disputar aquilo que dizem ser uma imagem parcial apresentada pelos media mainstream. Mais do que a sociedade russa, onde o apoio ao regime parece inabalável a poucos meses das eleições presidenciais (Março de 2018), é para o mundo globalizado construído sobre as ruínas da União Soviética que os canais e websites estatais russos se têm direccionado.

Agenda russa

Durante quatro dias, um grupo de 39 jornalistas de todo o mundo, incluindo do PÚBLICO, participou numa série de seminários e workshops organizados pela Sputnik, em colaboração com a agência federal que promove as relações com os países da Comunidade de Estados Independentes (que reúne antigas repúblicas soviéticas).

A agência é apresentada como um baluarte de sucesso e de boa capacidade de adaptação ao mundo da Internet e das redes sociais. “É a agência mais citada dentro e fora da Rússia”, começa por dizer o director-adjunto, Anton Anisimov. A Sputnik surgiu em 2014 como uma versão modernizada da agência RIA Novosti, e hoje tem serviços em mais de 30 línguas, incluindo português, e redacções em todos os continentes, de Pequim ao Cairo, passando pelo Rio de Janeiro.

Os seus responsáveis editoriais e técnicos utilizam o mesmo jargão que é ouvido nas redacções de todo o mundo: “evolução tecnológica”, “engagement”, “alerta de última hora”, “visualizações”, “efeito uau”. Tal como em qualquer site noticioso, uma das prioridades é a expansão da base de leitores – actualmente, o grupo Sputnik tem 14 milhões de seguidores nas diferentes plataformas de redes sociais.

Mas há outro factor que entra nos cálculos das chefias – e que ninguém tenta ocultar. “Estamos a promover a agenda da Rússia, somos financiados pelo Governo russo, haveríamos de estar a promover a agenda americana?”, questiona Anisimov. O director-adjunto da Sputnik é franco e directo, e parece não ter tempo para semear grandes dúvidas. Garante que “há padrões que não podem ser quebrados”. “Já despedi muita gente este ano por terem cometido erros factuais”, garante.

Este tipo de prática é generalizada e as palavras de Anisimov mostram que é assim que é compreendido o jornalismo por aqui. “Todos os media são dependentes das suas fontes de financiamento. Se um jornal é propriedade de um fabricante de automóveis, não vai publicar notícias a dizer que os carros da marca são uma merda.” Apesar de contar com algum rendimento proveniente da subscrição dos seus serviços noticiosos, o financiamento da Sputnik é essencialmente público – 93 milhões de euros por ano, diz Anisimov.

O jornalismo torna-se, assim, num jogo de soma zero, mais um tabuleiro de confronto entre visões contrárias, tal como a diplomacia ou até o desporto. “Acredito que todos os outros media apoiam agendas dos seus países ou das empresas que os financiam”, defende o responsável editorial.

Resolver "um problema"

Esta lógica está subjacente ao lema da agência, presente um pouco por toda a redacção – “Dizer o que não é dito”. Para o director de projectos internacionais, Vassili Puchkov, o lema “não é tão agressivo como parece”. Tudo começou depois de ser detectado “um problema” com a cobertura noticiosa realizada pelas “quatro grandes” – a Agência France Presse, a Associated Press, a Reuters e a Deutsche Presse-Agentur – as principais agências de informação mundiais. “A imagem que apresentam é igual em todas elas e o nosso objectivo é dar a informação alternativa, dizer o que não é dito”, explica Puchkov.

“Dizer o que não é dito” pode abranger muita coisa, como dar eco a declarações de um deputado francês que dava a entender que Emmanuel Macron, então candidato às eleições presidenciais, seria homossexual. Depois de ver a sua cobertura das eleições francesas descrita como “propaganda”, a Sputnik acabou por ser impedida de acompanhar a campanha de Macron. Anisimov diz que a agência não alimentou qualquer boato nem propagou notícias falsas, apenas dando voz a um deputado, e que o caso acabou por ter uma projecção “exagerada”.

A parcialidade da informação fornecida pela Sputnik é prontamente reconhecida pelo director-adjunto. Por aqui, ninguém pode acusar os editores e jornalistas de ambicionarem ser donos da verdade. “Não mostramos tudo”, admite Anisimov, “mas nunca acusámos a BBC ou a CNN de serem propaganda, nem dissemos às pessoas para não as verem, é preciso ver a imagem completa”.

Da Reuters para a Sputnik

Chegar a essa “imagem completa” pode ser um exercício tortuoso, praticamente impossível. O último dia passado no edifício da Sputnik foi dedicado a um workshop com um título prometedor – “Digging out the truth” (“À procura da verdade”). São formados vários grupos com a tarefa de analisar a cobertura mainstream e a dos media russos a certos acontecimentos, tais como a do veto russo no Conselho de Segurança da ONU ao prolongamento da missão que monitoriza o arsenal químico na Síria.

“No final, irão ver que a verdade está algures no meio.” Oleg Schechdrov traz consigo uma aura de cinismo e ironia. Fala um inglês perfeito, de forma pausada e levemente arrastada, com uma predilecção para atirar frases lapidares a quem o ouve e aguardar uma reacção. Hoje, trabalha na formação dos jornalistas que integram a Sputnik, mas tem uma carreira longa, iniciada na cobertura dos Jogos Olímpicos de Moscovo, em 1980. Passou os loucos anos 1990 ao serviço da Reuters, onde permaneceu “enquanto ainda era uma agência de notícias”.

Trava uma cruzada contra a utilização daquilo que diz ser “palavras emotivas”. “A maioria da cobertura da guerra da Síria parte do pressuposto de que Assad é mau, logo é responsável por tudo de mau que acontece. Por isso se utilizam expressões como ‘regime bárbaro de Assad’”, observa.

Schechdrov não acredita que o jornalismo na Rússia seja melhor que o do Ocidente. “Em teoria”, diz, “um jornalista russo pode tentar fazer uma cobertura equilibrada sobre a Crimeia, tentar ouvir a outra parte”. “Mas o feedback seria muito negativo”, alerta.

Na semana anterior, uma editora da rádio Eco de Moscovo, um dos poucos órgãos de comunicação que dá voz à oposição ao Kremlin, foi esfaqueada na própria redacção. A polícia disse que o autor do ataque mostra indícios de desequilíbrio mental, mas persiste um sentimento de insegurança entre os jornalistas locais. Semanas antes, um canal de televisão tinha acusado a rádio e a própria editora de apoiarem “interesses estrangeiros” e de serem uma ameaça à estabilidade da Rússia semelhante ao grupo radical islâmico Daesh.

Seria este o tipo de feedback negativo a que Schechdrov se referia? “Não creio que andem a tentar matar jornalistas”, responde. A verdade estará algures no meio.