Ganhar a Web Summit trouxe dinheiro, atenção e dores de cabeça

A grande vencedora do concurso de startups de 2016 recusou o prémio de 100 mil euros, uma das finalistas mudou o seu produto e o fundador da outra abandonou o projecto. Mas um ano depois de subirem ao palco da Web Summit, nenhuma se arrepende do bilhete.

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O Kubo, o pequeno robô dinamarquês capaz de ensinar crianças a programar, venceu o concurso de 2016 Kristoffer Juel

O primeiro ano de vida de uma empresa que aos três meses ganha a competição de startups da Web Summit vem com desafios, e a fama é um deles. Doze meses após agarrar o primeiro prémio, a equipa do Kubo — o pequeno robô dinamarquês capaz de ensinar crianças a programar — conta ao PÚBLICO que o palco do evento trouxe investidores, milhões de euros e pôs a empresa na boca mundo, mas a explosão de atenção inicial foi uma barreira.

“Ganhar não nos fez a vida fácil. De certa forma dificultou”, admite Tommy Otzen, o director executivo do Kubo. “É difícil focar-se no desenvolvimento do produto quando se está a receber chamadas de todo o mundo a pedir encomendas e não se tem experiência nenhuma no mercado.”

Todos queriam saber mais do robô humanóide com peças coloridas para comunicar com crianças e “cérebros” que se podem trocar para aprender coisas diferentes. Mas, em Novembro de 2016, o Kubo era apenas um protótipo. “Tínhamos chamadas do Brasil, EUA, Israel... Algumas a perguntar se era possível enviar dez mil unidades, mas o robô ainda tinha de ser construído à mão”, diz o fundador. “Demoraria provavelmente um mês só para três trabalhadores acabarem 1000 unidades.”

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O robô comunica com crianças através de blocos coloridos Kubo

No entanto, não trocaria o título. “A Web Summit deu-nos muita credibilidade quando só estávamos a começar”, frisa Otzen. “Tivemos foi de aprender a dizer não. Se disséssemos sim a tudo, percebemos, não íamos a lado nenhum.” Hoje, o foco é o mercado nórdico, onde já há centenas de robôs a funcionar em várias escolas.

Kubo não usou primeiro prémio

O dinheiro do primeiro prémio não contribuiu. “Recusámos os 100 mil euros”, confirma Otzen sobre o investimento da Portugal Ventures. “A proposta era boa e justa. Só que recebemos outra muito melhor, de um milhão de euros, enquanto estávamos a negociar.”

Veio da Danish Growth Fund, um fundo de investimento estatal dinamarquês que já estava a seguir o trabalho da startup e se convenceu após a feira internacional. Em Fevereiro de 2017, conseguiram mais 64 mil euros de uma campanha de financiamento online. O dinheiro foi usado para registar uma patente e criar a linha de montagem. Agora, bastam três dias para construir 1000 robôs. “A maior vantagem da Web Summit é que deu acesso a uma rede de pessoas com muita experiencia que nos ajudaram a gerir os desafios à nossa espera”, resume Otzen.

startups que descrevem os “segredos de mercado” que se trocam na feira como vitais. “Não acho que a nossa empresa tivesse sobrevivido se não tivéssemos chegado à final do concurso. Não é uma piada”, diz Alex Just, o director executivo da Papaya Pods, uma plataforma de alojamento online suíça que ficou atrás do Kubo no pódio.

Em vez de prémios, receberam conselhos e saíram da Web Summit com um produto diferente daquele que ali levaram. “Alterámos o ângulo. Eramos uma espécie de marketplace, muito como a Uniplaces. Agora focamo-nos muito mais na experiência do senhorio”, diz Just. “As pessoas que conhecemos foram fundamentais.” Um dos júris que participou na votação, mas que Just não quis identificar, terá mesmo viajado para a sede da equipa, em Barcelona, para a orientar.

Hoje, o objectivo é dar aos proprietários uma plataforma para aceder aos contratos de estadia, pagamentos, fotografias e comentários sobre o estado do imobiliário. Estão a funcionar na Suíça, Lisboa e Barcelona.

Sucesso não chegou a todas

Nem todas as finalistas da Web Summit tiveram o mesmo sucesso. A cipriota SoilTron, que desenvolve pequenos dispositivos para gerar energia eléctrica do solo, está parada. “Aos 18 anos, quando subi ao palco da Web Summit, não sabia nada sobre negócios,” diz Wael Al Masri, o fundador da SoilTron. “Ficámos entre as três primeiras, mas eu era considerado muito novo para tudo isto.”

Depois da competição, o projecto de Al Masri foi seguido por várias empresas internacionais, mas divergências com a CyRic, a incubadora em que a SoilTron já estava inserida, impediram os negócios de avançar. “Queriam 50% de tudo. Falei com advogados, mas era impossível sair do acordo”, diz o fundador.

O director executivo da CyRic, Panayiotis Philimis, diz ao PÚBLICO que o projecto da SoilTron continua a ser desenvolvido, mas sem Al Masri. “O objectivo de irmos à Web Summit nunca foi o financiamento, foi a atenção”, diz Philimis.

Mas mesmo fora da SoilTron, Al Masri diz que o destaque da Web Summit ainda o ajuda: "Chegar à final deu-me uma boa reputação e credibilidade para defender ideias em frente de centenas." Está a trabalhar num projecto para carregar drones e, em Abril, ganhou uma competição promovida pela NASA para desenvolver ideias que podem ajudar em situações de emergência. Quer voltar à Web Summit daqui a uns anos, melhor preparado.

“Vale a pena ir à Web Summit. Somos prova disso, mas é preciso ir com um plano”, defende Tommy Otzen, o director executivo da grande vencedora de 2016, que é um dos oradores na edição deste ano. “As startups têm de ir com uma ideia dos investidores que querem conhecer e é preciso estar preparado para a atenção. Caso contrário, vão ser bombardeadas de todos os lados, não vão conseguir aproveitar o evento e é um desperdício de dinheiro.”