Editorial

America, you have a problem

Trump tirou a conclusão antes de a conversa (re)começar: “Temos muitos problemas de saúde mental no nosso país. Mas isto não é um problema relacionado com armas.” Mas é.

Ok, por uma vez, Donald Trump teve razão num ponto: o autor do ataque de domingo a uma igreja baptista no Texas não tinha qualquer motivação política, religiosa ou racial para o massacre. Devin Kelley, um homem de 26 anos, matou 26 pessoas a sangue-frio apenas motivado por uma disputa doméstica. À sua maneira, porém, o Presidente tirou a conclusão antes de a conversa (re)começar: “Temos muitos problemas de saúde mental no nosso país, tal como outros países. Mas isto não é um problema relacionado com armas.” Mas é.

Facto: nenhum outro país do mundo desenvolvido (“civilizado”, neste contexto, não será a palavra mais apropriada) tem uma taxa tão alta de violência com armas como os EUA. Um quadro elaborado pelo The Guardian, com base em dados da ONU, mostra que a taxa de homicídios é quatro vezes superior à da Suíça (o segundo na lista), quase seis vezes superior ao Canadá, 16 vezes face à da Alemanha e 15 vezes superior à da Austrália (e já lá voltamos, à Austrália).

Mais um facto: os dados analisados pelo Washington Post mostram que, em média, um conjunto de dez cidadãos americanos tem pelo menos nove armas na sua posse. Nove é comparável com cinco no Iémen – o segundo país deste quadro, muito mais pobre do que os EUA – e que está em clima de guerra civil.

Contra os factos o Presidente americano resiste – da mesma forma que o Congresso tem resistido. Diz Trump que mais armas não significa mais mortes. Os dados do site Mother Jones demonstram o contrário: é nos estados onde a posse de armas é menor que os homicídios são menos frequentes. A ciência corrobora a estatística: em 2016, uma análise de 130 estudos em dez países, publicada no Epidemiologic Reviews, demonstrou que a imposição de restrições ao uso de armas acabou por reduzir a violência – e salvar vidas.

É daí que voltamos à história que lhe queria contar sobre a Austrália. Cito o Vox, que relembra o caso: “Em 1996, um homem com 28 anos entrou num café em Port Arthur, almoçou, tirou uma arma semiautomática da mala e abriu fogo sobre quem lá estava, matando 35 pessoas e ferindo outras 23. Foi o pior massacre da história da Austrália.” Depois disso, o país impôs restrições legais à compra de armas, lançando um programa de recolha e proibindo a compra, por exemplo, de armas como as que mataram aquelas 35 pessoas. Em apenas sete anos, a taxa de homicídios com armas de fogo baixou 42%.

A maior virtude de uma democracia é poder aprender com os erros – e corrigi-los. Em algum ponto da história a América voltará a fazê-lo.