Labour quer fundos de Isabel II abrangidos por inquérito

Jeremy Corbyn deu a entender que rainha deveria pedir desculpa por investimentos feitos pela entidade que gere os seus bens pessoais.

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A entidade que gere os bens e propriedades de Isabel II investiu perto 13 milhões de libras em empresas sediadas nas Bermudas e Ilhas Caimão WILL OLIVER/EPA

O Partido Trabalhista britânico quer que os investimentos feitos em paraísos fiscais pelos gestores pessoais da fortuna de Isabel II sejam incluídos num inquérito público que considera essencial pôr em marcha depois de novas revelações sobre os esquemas usados pelos muito ricos para esconder milhões em contas offshore

Os Paradise Papers – o novo capítulo da investigação internacional a milhões de documentos pertencentes a sociedades especializadas na criação de veículos offshore – representam um embaraço para o governo de Londres, já que grande parte dos esquemas têm lugar em territórios ultramarinos britânicos (caso das Bermudas e das ilhas Caimão) ou dependências da Coroa (como a ilha de Man). E muitos dos que ali investem são britânicos, alguns com ligações próximas ao Partido Conservador, a começar por Michael Ashcroft, antigo presidente e durante muitos anos um dos principais financiadores dos tories.

Um incómodo que é ainda maior para Theresa May, a primeira-ministra que ao chegar a Downing Street, em 2016, prometeu um governo empenhado em reduzir a desigualdade no país. Mas na primeira reacção aos Paradise Papers, May descartou a ideia de agir a quente, afastando a ideia, defendida pelo actual líder dos liberais-democratas e antigo ministro da Economia, Vincent Cable, de estender aos territórios ultramarinos a obrigatoriedade de as empresas revelarem quem são os seus proprietários ou accionistas.

“Há já muito trabalho que está a ser feito para garantir a transparência” naqueles territórios, respondeu May, sublinhando que desde as medidas introduzidas pelo seu antecessor, David Cameron, as Finanças britânicas conseguiram aumentar a cobrança de impostos em mais de 160 mil milhões de libras.

Números que não impressionaram o líder trabalhista, Jeremy Corbyn, para quem as novas revelações mostram que continua a haver “uma lei para os super-ricos e outra para os restantes quando se trata de pagar impostos”.

John McDonnell, responsável pela Pasta das Finanças no “governo sombra” trabalhista, veio por isso exigir um inquérito público – semelhante ao que investigou o envolvimento britânico na guerra do Iraque – aos esquemas usados por empresas e particulares para fugir ao pagamento de impostos. Os Paradise Papers “são a prova de que o Governo tem falado muito sobre combater a evasão fiscal mas não aconteceu nada”, disse Mcdonnell, defendendo também a proibição de atribuir contratos públicos a empresas que tenham iludido as finanças.

Questionado sobre se os investimentos de quase 13 milhões de libras feitos em 2004 e 2005 pelo Ducado de Lancaster, a entidade que gere as propriedades e bens pessoais de Isabel II, também deveriam ser incluídos neste inquérito, Corbyn foi peremptório: “Toda a gente. A Casa Real está sujeita a impostos e eu não sei o que aconteceu neste caso. Mas todas estas questões devem ser investigadas”.

O líder trabalhista, militante durante décadas da ala mais à esquerda do Labour e republicano assumido, acabaria por ir ainda mais longe quando lhe perguntaram se Isabel II deveria pedir desculpa pelas decisões tomadas pelos gestores do Ducado.

“Qualquer pessoa que ponha dinheiro em paraísos fiscais para evitar ser taxado no Reino Unido – e claro que é preciso que haja investigações a isso – deve fazer duas coisas: não apenas pedir desculpa, mas também reconhecer o que está a fazer à nossa sociedade”, afirmou, sublinhando que quando um milionário foge aos impostos quem perde “são as escolas, os hospitais, a habitação, todos os serviços públicos e é o resto da população que tem de cobrir o défice criado por essa fuga”.

Um porta-voz do partido veio depois garantir que Corbyn não estava a exigir um pedido de desculpas pessoal da monarca, tão só a pedir responsabilidades a quem usa os offshores para não pagar os impostos que deve e a defender que todas as suspeitas devem ser investigadas.

Em resposta a este comentário, um porta-voz do conselho que gere o Ducado disse ao jornal Daily Telegraph que dos muitos investimentos efectuados nos últimos anos “alguns foram depositados em fundos no estrangeiro” e “todos foram totalmente auditados e são legítimos”.