Editorial

Um Presidente em fuga

Lembra-se de Nixon em Pequim? O medo em Washington é que Trump nem a Nixon chegue.

Não é Carles Puigdemont. Falo de Donald Trump, que saiu da América para uma longa e assustadora viagem pela Ásia. Nesta edição, a Ana Gomes Ferreira já explica para quem a viagem é assustadora: assessores, conselheiros e, no fundo, toda a West Wing. O susto é que Donald Trump estrague tudo. Outra vez.

Quase um ano depois da sua eleição, o Presidente foge da situação interna. Com a investigação ao “Russia Gate” a chegar já à sua candidatura presidencial, com alguns republicanos a lançar uma ameaça sobre a sua presidência, com as sondagens a mostrarem quedas sucessivas e com a sua agenda política a afundar-se (até nas críticas das maiores empresas ao seu novo plano fiscal), Trump precisa de uma vitória diplomática para poder abrir o champanhe. Na história da América não faltam exemplos de Presidentes que se seguraram no plano externo para afirmar uma liderança. Lembra-se de Nixon em Pequim? O medo em Washington é que Trump nem a Nixon chegue.

A fuga de Donald Trump é sempre uma fuga para a frente, tropeçando nas suas contradições — e na sua contradição com a tradição americana. Ontem, no El Pais, uma analista mostrava como Xi Jinping receberá Donald Trump: “Ao contrário dos Estados Unidos, a China apresenta-se agora como a grande potência defensora da globalização, do livre comércio, da luta contra as alterações climáticas.” Podíamos acrescentar alguns pontos: é Xi Jinping quem lança um Plano Marshall para toda a Ásia, é ele quem tenta controlar diplomaticamente a ameaça coreana, em contraste com a ameaça belicista que vem da Casa Branca. O líder fiável seria ele — não fosse a China ainda fiel às suas muito próprias tradições.

A longa visita de Trump pela Ásia é uma incógnita, também, porque Trump não preparou o jogo antes de sair de casa: não tentou uma solução para o conflito no Mar do Sul da China, não leva uma solução para o tratado de livre comércio com a Coreia do Sul. O que Trump leva é, aparentemente, uma mão cheia de palavras. Umas metidas no bolso — aquelas que usava na campanha de há um ano, acusando a China de “violar a América” e de “roubar os empregos americanos”; outras tantas num caderno de notas, tiradas das aulas breves que vários membros do Governo e conselheiros lhe deram para minimizar os riscos de uma gaffe que deite, outra vez, tudo a perder.

Não será fácil. São oito dias de viagem. E, só nos últimos dez, Trump fez 114 tweets — um dos quais a acabar com um dos mais sagrados princípios da democracia americana, o da separação de poderes. Bem vistas as coisas, pelo menos nisso será fácil um acordo com Xi.