Opinião

As “Três Marias” e a Natália Correia é que sabem

Aprendi a tapar-me, aprendi a esconder o meu corpo não só porque os homens da aldeia falavam, mas porque os da cidade me dirigiam palavras que nunca tinha ouvido antes.

Lembro-me da televisão a preto e branco em cima da mesa camilla redonda com uma saia clara e de ver as “Três Marias” – as escritoras Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa – que foram julgadas por causa da publicação do livro Novas Cartas Portuguesas. Lembro-me de as ver sentadas a serem entrevistadas e não perceber nada do que se passava, mas de as palavras da minha mãe serem de condenação daquelas mulheres.

Recordo-me de, um bocadinho mais velha, ver e ouvir Natália Correia na televisão no seu programa Matria e de sentir a força daquela mulher de voz clara e traço forte nos olhos, que abria as sílabas e as entoava como se com as suas palavras rasgasse quem a ouvisse, como se estivesse permanentemente zangada com um mundo que não compreendia que as mulheres têm direito à sua voz e ao seu corpo, reinventando assim o feminismo.

Tendo estudado e vivido fora de Portugal durante o final da década de 1960 e início da seguinte, para a minha mãe não fazia sentido falar em direitos das mulheres. Ela votava, não precisava de pedir autorização para sair do país, casou com quem quis, portanto, tinha os seus direitos assegurados. “Queimar soutiens” foi uma expressão que sempre associei ao feminismo, graças à minha mãe. À medida que fui crescendo, a mesma pessoa que falava do feminismo com desprezo foi-me dando todas as oportunidades para ler o que queria, inclusive Maria Teresa Horta e Natália Correia.

No Verão, sentava-me no muro que ladeava o portão da quinta dos meus avós à entrada de uma aldeira na Beira Baixa, de calções de ganga e T-shirt rosa. Ali, à sombra das videiras que se emaranhavam nos arames que protegiam a entrada, via os cachos a amadurecer enquanto lia. A minha avó gritava por mim para ir à aldeia fazer uma compra e eu descia do meu poiso, memorizava o recado, guardava o dinheiro no bolso detrás dos calções e caminhava junto aos muros de pedra, na berma da estrada, no sentido contrário ao do trânsito, em direcção à aldeia. Passava pela igreja, do lado direito, pelo café, do lado esquerdo, e chegava à mercearia. Aviava o recado e fazia o caminho em sentido inverso, de cesta na mão. Quando passava, as pessoas calavam-se. Algumas não me conheciam, outras viam-me de ano a ano, todos os verões. “É a neta do senhor capitão”, diziam a quem não se lembrasse.

“Ai, madrinha, a menina não pode andar nestes preparos”, ouço, um dia, dizer a uma das muitas afilhadas dos meus avós – naquele tempo, eram todos afilhados, gente que procurava fugir da miséria através de um padrinho na capital que poderia cuidar do futuro dos filhos. A conversa é com a minha avó, que se ri e responde que eu sou uma criança – teria 12 ou 13 anos? – e que não tem mal algum andar de calções. “Os homens falam, querem lá saber se é uma criança… E já não é nenhuma criança!”, insiste a mulher de bata cinzenta às flores e de lenço na cabeça.

Até que um dia a minha avó pediu-me para ir fazer uma compra, mas para mudar de roupa. E lá fui eu de saia abaixo do joelho, na berma da estrada. Quando à noite me queixo, ao telefone, à minha mãe, que está em Lisboa, ouço como resposta que as mulheres no deserto andam todas tapadas e de preto.

Aprendi a tapar-me, aprendi a esconder o meu corpo não só porque os homens da aldeia falavam, mas porque os da cidade me dirigiam palavras que nunca tinha ouvido antes, que me incomodavam, que me faziam sentir envergonhada. Aprendi a caminhar na rua de rosto fechado, com uma espécie de olhar ausente, mas sempre atenta. Aprendi a andar em grupo ou, quando sozinha, a evitar ruas desertas. Foram muitas, mas muitas as vezes que desejei ardentemente ser invisível. Com a idade ganhamos resiliência ou, pior, habituamo-nos? Hoje orgulho-me da minha filha e dos seus calções de ganga. “Não sou eu que tenho de mudar, são eles que têm de me respeitar”, responde-me quando me ouço a verbalizar os medos que eu sentia ou a repetir que as mulheres berberes é que sabem. Não. Nós é que sabemos e, por isso, as palavras das “Três Marias” e de Natália Correia continuam a ser actuais, lamentavelmente, 40 anos depois, quando nos dizem que o feminismo já não faz sentido.