Lenine entre a “energia” e o “sonho”

Uma grande exposição inaugurada em Moscovo recupera a raiz do projecto soviético e faz regressar Lenine a um museu que já foi dele. O radicalismo, a vontade enérgica e a utopia no centro dos 100 anos da Revolução de Outubro.

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LUSA/SERGEI ILNITSKY

Fim de tarde de sexta-feira, centro de Moscovo. A Praça Vermelha regressara à habitual azáfama do turismo depois de milhares de militares a terem ocupado durante horas ensaiando os desfiles do feriado que este sábado se comemora na Rússia (4 de Novembro, data da expulsão dos polacos da região de Moscovo em 1612, que iniciou a construção do moderno estado russo). Nas suas costas, no pátio de entrada do Museu da Grande Guerra Patriótica de 1812, dezenas de pessoas preparavam-se para uma ressurreição. Por umas semanas, o edifício que durante anos albergou o Museu de Lenine voltou a acolher o espólio e o espírito da Revolução de 1917. Homens engravatados com sobretudos, mulheres com casacos de pele, gente das artes e da academia apertavam-se em frente a um pequeno palco para ouvir o todo-poderoso Serguei Natishkin, presidente da Sociedade Histórica da Rússia e director do serviço de informações no exterior ou o ministro da Cultura, Vladimir Medinski. Depois das palmas, a exposição “A Energia dos Sonhos” estava inaugurada. Lenine e os soviéticos regressaram ao seu lugar.

Custa a perceber como é que peças como a que se vislumbra logo na primeira sala da mostra puderam estar assim, arquivadas, escondidas, impedidas de serem vistas pela população. Um quadro de enormes proporções (quatro por três metros) assinado por Sojolov Skalia mostra os bolcheviques a tomarem de assalto o Kremlin depois de assumirem o poder em Petrogrado (a capital da Rússia na época, hoje São Petersburgo). Durante mais de 20 anos, desde que na ressaca da mudança de regime liderada por Boris Ieltsin, em 1991, pôs termo à liturgia revolucionária e tentou apagar os rastos da memória soviética, que aquele quadro estava em depósito. Algum do acervo do outrora Museu de Lenine foi despachado para outras colecções históricas, mas a maioria dos cartazes, pinturas, esculturas, artefactos quotidianos, projectos, esquiços, relatórios oficiais ou medalhas de mérito a trabalhadores diligentes foram simplesmente remetidos à penumbra dos armazéns.

Memórias e surpresas

Ao passarem o olhar pelas paredes do museu, os participantes hesitavam. Os mais velhos puderam recordar um tempo perdido que em tempos foi o deles. Os mais novos tiveram oportunidade de constatar a distância que separa as campanhas de alfabetização ou de higiene dos anos de 1920 da Rússia contemporânea. Houve surpresas com a brutalidade de cartazes que anunciavam em letras garrafais o início do julgamento de uma prostituta acusada de infectar com sífilis um soldado do Exército Vermelho. Ou a constatação do traço megalómano de um regime que, como o de Hitler, projectava um novo salto para a Humanidade redesenhando cidades.

Maria Zenenko, uma tradutora de 37 anos, espantava-se com os projectos de arquitectura com torres colossais concebidos para se erguerem mesmo em frente do Kremlin. Ou ficava impressionada com o esquiço de um plano de urbanização que apagava uma parte da velha Moscovo para dar lugar a uma série de bairros geométricos com uma gigantesca estátua de Lenine a erguer-se entre os blocos de apartamentos. “Chegaram a começar a construção, mas depois desistiram e no lugar da estátua foi feita uma piscina. O meu pai ia para lá nadar”, recorda Maria.

Ao longo de toda a exposição, Lenine aparecia e reaparecia destacado. Em cartazes, em estátuas, em pequenas fotografias de propaganda, com a face de perfil desenhada em pratos ou jarras, em medalhas ou em pinturas glorificadoras do seu génio revolucionário. Afinal, ele foi o grande criador dessa “energia” que alimentou os “sonhos” expostos no museu que outrora era o seu. Esgotada a energia, com muitos dos sonhos transformados numa utopia totalitária, Lenine vai resistindo como símbolo desse acontecimento crucial da História do século XX.

Em Moscovo, o seu nome permanece intocado nas estações de metro ou no nome de uma das avenidas principais. A sua estátua gigante no centro ou o pórtico ao estilo germânico, imponente e perpetuador de supostas glórias, também. E, apesar de todas as polémicas, o seu mausoléu ao lado do Kremlin, no coração da Praça Vermelha, vai sobrevivendo até contra as poderosas pressões da Igreja Ortodoxa. O Sínodo Sagrado dizia ao PÚBLICO não ter uma posição oficial sobre a matéria, mas enviou uma declaração do metropolita de Volokolamsk, Hilarion Alfaiev, que clarifica a posição dos ortodoxos: “Os nomes dos terroristas e dos revolucionários não devem ser imortalizados nas nossas cidades. Os corpos mumificados destas pessoas não devem ser expostos aos olhares dos cidadãos”.

Lenine foge, porém, à regra geral da censura porque é uma personagem distante no tempo e não tem no seu currículo o Gulag, as purgas ou os assassínios políticos como Estaline. Para muitos, é até simpático pela sua aura de revolucionário romântico, como Che Guevara. “Lenine era um político, Estaline uma pessoa cruel”, sintetiza Yana Dobrova, uma aluna de sociologia da Universidade de Moscovo. Nas ruas em torno do centro de Moscovo é fácil encontrar sósias de Lenine que se deixam fotografar com os turistas em troco de umas dezenas de rublos. O agitador de massas radical, o estratega frio, o teorizador de revoluções e actor principal dos passos que, entre Fevereiro e Novembro de 1917, derrubaram um regime imperial com três séculos e levaram à instauração da primeira “ditadura do proletariado” no Mundo tornou-se para muitos russos uma memória apenas, um resquício. Só no Governo de Vladimir Putin parece haver preocupação com essa herança: a Rússia Sagrada, unida em torno dos valores da Igreja e do poder político, dispensa exemplos de rupturas como a que Lenine deixou.

Lenine triunfa em 1917 porque a Rússia estava no caos, porque as carências e as privações estimulavam o desespero das massas (a Revolução começa com um motim numa fila para o pão), porque havia a guerra ou porque a autoridade do Estado estava despedaçada. Mas também porque, entre as lideranças políticas do seu tempo, ele era o político que tinha uma ideia sobre o que fazer e uma determinação férrea para a tornar realidade. O seu radicalismo foi considerado inconsequente, mesmo junto de alguns dos seus camaradas de partido, praticamente até ao momento em que ele provou que era a única solução para o assalto ao poder e para a concretização dos projectos socialistas que propunha. Os membros do partido Menchevique (Bolcheviques, ou maioritários, e Mencheviques, minoritários, são duas facções que nasceram em 1903 no seio Partido Social Democrata Trabalhista fundado cinco anos antes), diziam ser impossível competir com um homem que pensava na revolução 24 horas por dia.

Olhos rasgados

Vladimir Ilych Ulianov nasceu em Simbirsk, na região do Volga, em 1870 filho de uma família da classe média – o pai era inspector escolar, próximo do regime czarista. A sua fisionomia denunciava uma origem racial desde sempre ocultada pelo regime soviético: os olhos rasgados e as maçãs do rosto salientes foram herdados do ramo asiático da família – o seu avô paterno era um calmuque da Ásia Central.  O historiador e biógrafo de Lenin, Victor Sebestien, diz que a sua veia revolucionária nasceu em 1886/87, após a morte súbita do pai e a condenação à morte do irmão por conspirar contra o czar. Desde esse momento, o derrube do poder por meios violentos esteve sempre presente no seu pensamento e na sua acção política.

Num regime autocrático e repressivo como o do czar, essa forma de estar tinha um destino: o exílio. Logo em 1887 na Sibéria, onde passou três anos e onde conheceu a sua mulher, Nadezhda Krupskaia. Depois em várias capitais europeias e por fim na Suíça. Com este destino, Lenine passou anos a promover a revolução pela palavra. Escrevia diariamente para o Pravda, órgão do Partido Bolchevique, mas não esteve na revolta de 1905, não experimentou a falsa sensação de liberalização política que se lhe seguiu, nem estava na Rússia quando, no final de Fevereiro de 1917, o país entrou na espiral irreversível da revolução. Excepto uns seis meses em 1905/6, passara os últimos 17 anos no exílio. “Sei muito pouco da Rússia”, confidenciaria ao escritor Maximo Gorki.

Na Suíça, seguiu com atenção o que se passava na capital russa. Mas não acreditava no sucesso da mobilização de massas que em poucos dias impôs a abdicação do czar e a criação de um Governo Provisório liderado por um nobre rural com contornos de personagem puro dos livros de Tolstoi, o Príncipe Lvov. “Nós, os mais velhos, talvez não sobrevivamos até às batalhas decisivas”, dizia ainda na Suíça a uma plateia de jovens. Mas, para ele, a batalha iniciada na revolta dos operários e dos soldados de Fevereiro de 1917, valia a pena ser travada. Por isso tratou de viajar depressa para Petrogrado. Numa Europa em guerra, chegar à Rússia por terra era difícil. Tentou via marítima, dobrando a Escandinávia; procurou um passaporte falso da Suécia junto de um amigo; finalmente, encontrou uma ajuda preciosa: a dos alemães, em guerra com a Rússia.

Carruagem da revolução

A sua viagem de 3200 quilómetros da fronteira Suíça até à Estação da Finlândia, em Petrogrado, onde chegou na noite de 3 de Abril, segunda-feira de Páscoa, deu um livro delicioso, Lenine no Comboio (ed. portuguesa Temas e Debates) de Catherine Merridale. Na carruagem da revolução seguia Lenine e 31 bolcheviques. “Foi com pavor que (os alemães) enviaram para a Rússia a mais temível de todas as armas. Transportaram Lenine numa carruagem fechada a chumbo como se ele fosse uma praga”, escreveria depois Winston Churchill.

Recebido em festa, Lenine não perdeu tempo. No dia de chegada discursa durante duas horas aos membros do seu partido. Diz ao que vai: a luta tinha como objectivo “colocar o poder nas mãos do proletariado e dos camponeses”. Houve quem achasse que tinha enlouquecido.

Meio ano depois conquistava o poder. E ameaçava mudar o mundo. As estátuas que ainda hoje perduram nas cidades da Rússia com o braço a apontar esse destino revelam esse acto de fé, onde a “Energia e o Sonho” da exposição de Moscovo se fundiram um projecto radical. Há quem discuta Lenine como projecto, mas, no museu, não haverá quem discorde do seu valor pelo menos como memória.