Editorial

Regresso à valsa

A "geringonça" está à procura da paz perdida. E nada como um Orçamento para ajudar.

O Governo entra hoje no Parlamento, na discussão sobre o Orçamento do Estado, como quem regressa a uma zona de conforto. Depois de tudo o que se passou, depois da primeira fissura na relação com o Presidente, esta será a oportunidade para um certo regresso à normalidade. E nunca como hoje este Governo precisou de voltar à valsa.

Diz um velho ditado popular que “só se lembram de Santa Bárbara quando troveja”. Talvez nos incêndios ele se aplique a António Costa, mas seria injusto aplicá-lo também à saúde da "geringonça". Costa tratou de a regar com este Orçamento, negociando cuidadosamente o documento no pós-autárquicas para evitar qualquer risco de ruptura, sobretudo do lado do PCP. 

A verdade é que o PS estava por cima, naquela altura: como explicava ontem a Leonete Botelho, aqui no PÚBLICO, Pedrógão não afectou o focus group, as autárquicas demitiram Passos Coelho, só era preciso cuidar do PCP para que até a miragem de uma maioria absoluta se tornasse realista. Na verdade, até a renovação do PSD parecia espúria: os candidatos que apareceram e os discursos dos primeiros dias da campanha não mostraram diferenças visíveis face ao que tem sido o posicionamento do partido. 

Eppur si muove – e, no entanto, ela move-se, se preferir a tradução. A política moveu-se, de facto, com os incêndios de 15 de Outubro e o reposicionamento dos Palácios (de Belém e de São Bento). E com uma consequência: a maioria absoluta, antes visível à distância de 2019, tornou-se mais difícil e o PS teve que se confrontar com a realidade. “A valsa dança-se a três”, avisava ontem Francisco Louçã, no Tudo Menos Economia, explicitando que “esta política não pode abdicar do contributo do Bloco e PCP” e que “instigar um jogo de um contra o outro seria um tiro no pé”. 

Hoje, no plenário da Assembleia, não deveremos ouvir António Costa repetir o desabafo que teve para o Bloco no último debate quinzenal (“os votos do PS e BE ainda não formam uma maioria neste Parlamento”), porque o líder do PS vai mesmo precisar desta valsa a três para lá de 2019.

Pelo que lhe contamos hoje, o Governo já retomou a dança: na última semana, reabriu as negociações do OE 2018 com o Bloco (e provavelmente com o PCP), para garantir que todos acertam com o ritmo na especialidade. As próximas semanas vão trazer mais novidades, para reformados, professores, desempregados. Seguramente também no IRC e nas cativações. Esperamos que também alguma margem para as reformas que virão no combate aos fogos. A "geringonça" está à procura da paz perdida. E nada como um Orçamento para ajudar.