Opinião

Terrorismo: a ilusória fraqueza pós-Síria

Os políticos ocidentais não salvaram os sírios, arrasaram-nos. Mas nem têm a humildade de o reconhecer.

A guerra na Síria é indissociável de muitos dos horrores que o terrorismo islamita tem causado na Europa, na própria Síria, no Iraque e em múltiplos países muçulmanos, inclusive em África. Foi o caos na Síria, introduzido largamente pelos impreparados políticos ocidentais, que permitiu a dantesca dimensão da guerra civil e a implosão das autoridades nacionais que permitiam algum grau de ordem, mesmo que não democrática. Naturalmente, qualquer democrata detesta regimes autoritários, que não faltam no mundo. Países ocidentais escolheram a Síria para, com uma intenção conceptualmente positiva, tentarem, como objetivo, derrubar o presidente Bashar al-Assad e o seu regime.

Neste processo atacou-se militarmente esse país, foram apoiados e armados grupos oposicionistas duvidosos e recheados de interesses corruptos, semeou-se uma guerra civil e, com o vazio de autoridade, abriu-se o caminho à criação do ISIS, o “Estado Islâmico” que chegou a controlar brutalmente um território duas vezes e meia superior a Portugal. A inteligência e a sensatez dos políticos ocidentais parece “brilhante”. Agora é o Ocidente que, com lágrimas de crocodilo, se desdobra em convenientes imagens televisivas de simpatia e acolhimento aos refugiados sírios, que fogem de um drama pavoroso em que políticos ocidentais têm responsabilidades que a História para sempre registará.

O regime sírio era autoritário, tal como muitos outros, incluindo vários que o Ocidente acarinha. O último relatório anual da Amnistia Internacional antes da guerra civil (2011) apontava, por exemplo, casos de prisioneiros de consciência, oito mortes de presos durante a detenção, centenas de condenados por radicalismo, 49 prisioneiros que tinham desaparecido nos três anos anteriores, pelo menos 17 condenações à morte. Não existiam refugiados sírios e o país acolhia centenas de refugiados iraquianos. Em resumo, um triste registo de situações graves que se tornaram uma dramática rotina em regimes autoritários.

Entretanto, o Ocidente, com o propósito de derrubar Bashar al-Assad, induziu a guerra civil e os horrores que acima refiro. Por comparação com a situação registada pela Amnistia Internacional antes desta fase, vejamos qual é o resultado da genial estratégia ocidental. Bashar al-Assad continua no poder. Cerca de 11 milhões de sírios (metade da população) foram deslocados das suas casas. As cidades estão largamente destruídas. Cerca de 500 mil sírios morreram. Permitiu-se a criação do monstro ISIS, violações massivas de mulheres em cidades sírias, decapitações sistemáticas de sírios na praça pública, escravização de populações sírias e genocídio de uma importante comunidade síria. E iniciou-se uma sequência de efeitos em que muitos europeus foram mortos nas nossas ruas por radicais do ISIS. Tenhamos a honestidade de reconhecer que, antes da guerra civil e do caos que semeámos na Síria, as condições de vida, a prosperidade, a segurança e a dignidade dos sírios eram muito maiores do que o absoluto horror de agora. Os políticos ocidentais não salvaram os sírios, arrasaram-nos. Mas nem têm a humildade de o reconhecer.

Finalmente, o Estado Islâmico tem estado a ser demolido. O mundo rejubila e sente-se mais seguro. Instala-se no Ocidente a subliminar perceção de que o terrorismo está em declínio. Essa imagem de presumível fraqueza é perigosa, porque irrealista.

O maior erro estratégico do ISIS foi o de se associar à imagem de um Estado territorial. Essa identificação física vulnerabilizou-o, porque nunca poderia resistir ao poder militar de entidades como a Rússia ou os Estados Unidos. E, por isso mesmo, implodiu territorialmente. Contudo, o problema central, para nós, é o de a verdadeira força do terrorismo islâmico ser a força que reside nas mentes dos radicais, não em pedaços de território. Conseguimos libertar militarmente territórios mas não as mentes. Não, o terrorismo inspirado pelo ISIS não se extinguiu, apenas se encontra em reagrupamento e em reorganização. O ISIS tenta desesperadamente reformular a sua implantação na África Central e do Norte e reordena as múltiplas células que inspira na Europa. Os atentados serão retomados no nosso continente, enquanto atingem níveis de enorme ferocidade em países islâmicos.

A derrota militar do ISIS na Síria e no Iraque causou a morte de mais de 60 mil militantes, quatro quintos dos seus membros nessa região onde tinham suplantado os efetivos da Al-Qaeda. Agora, a Al-Qaeda é regionalmente mais forte que o ISIS e aumenta rapidamente os seus apoios entre os grupos em guerra civil. Reforça a sua implantação nesta área. Mas, na verdade, a Al-Qaeda, que odeia o ISIS (e reciprocamente), tem-se discretamente mantido fora das atenções mundiais enquanto todos têm concentrado esforços na luta contra o ISIS. Na sombra, Al-Qaeda reinventou-se e revitalizou-se. Um dos filhos de Bin Laden, Hamza, é o novo rosto da sua mediatização global e poderá ter impacto na adesão de camadas jovens islâmicas. Em determinados locais, designadamente no Iémen, a Al-Qaeda congregou estruturas de excelentes especialistas em tecnologias avançadíssimas úteis para a realização de novos atentados de enorme dimensão, a sua “imagem de marca” após os atentados de 11 de Setembro de 2001. A Al-Qaeda configura-se como uma organização “aristocrática” no terrorismo global, diferente dos “primitivos” do ISIS que se desgastam em pequenos atentados e em brutalidades que consideram animalescas. Nesta luta entre Al-Qaeda e ISIS, é a Al-Qaeda que emerge vitoriosa. Não nos iludamos com situações específicas (inteligentes) de “apoio” da Al-Qaeda ao ISIS num momento da implosão deste, por exemplo na Líbia a sul de Bani Walid. A Al-Qaeda vence este braço de ferro. Tem uma negra e sofisticada inteligência que o ISIS nem por sombras possui.

Vamos voltar a presenciar atentados do ISIS. Os atentados da Al-Qaeda voltarão também, em menor quantidade mas com uma perigosidade que, novamente depois do 11/Set, poderá mudar a segurança mundial como julgamos conhecê-la. A popularizada imagem de fraqueza do terrorismo global é uma ilusão. Por isso, ela é uma outra vulnerabilidade nossa.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico