Editorial

Começou

Se algum dos acusados apontar no sentido do ocupante da Sala Oval, Trump não deverá chegar a celebrar o segundo aniversário no mesmo posto.

O castelo de cartas em que se montou a presidência Trump começou a ruir nesta segunda-feira. As primeiras acusações do procurador especial sobre a influência estrangeira na campanha americana representam a mais séria ameaça ao Presidente americano, menos de um ano depois de ter sido eleito.

Num país onde há prazer em assumir a separação de poderes e em garantir que as instituições funcionam, o poder judiciário é soberano e formalmente respeitado. E o mandato do procurador Mueller é amplo, podendo abrir outras linhas de inquérito — que podem abranger financiamentos ilegais, pôr a descoberto lobbies e manobras de pressão sobre os titulares dos cargos públicos.

Mas basta bem, para já, esta primeira linha de inquérito. Que houve interferência russa nas eleições americanas, já ninguém tem dúvidas. Que essa interferência foi feita para fortalecer o resultado de Donald Trump, também não. Falta demonstrar que isso aconteceu em conluio, ou, pelo menos, com o conhecimento expresso da campanha do então candidato. Se algum dos acusados apontar no sentido do ocupante da Sala Oval, Trump não deverá chegar a celebrar o segundo aniversário no mesmo posto.

Não é improvável que, para reduzir a sua pena, um dos acusados implique directamente os familiares de Trump ou até o próprio Presidente. O próprio facto de ter sido negociado um acordo dependente de cooperação a Papadopoulos, outro dos acusados, é sinal de que este é um cenário muito provável. E, numa Casa Branca onde as guerras de poder são constantes e os ódios estão à flor da pele, será fácil encontrar um traidor à causa Trump. Até porque já é público que o filho e o genro de Trump tiveram (pelo menos) uma reunião com representantes do Governo russo para discutir formas de prejudicar a campanha de Clinton.

Não é difícil antever que este caso terá as mais graves consequências para a presidência Trump. A mais imediata é que a sua agenda ficará completamente suspensa deste processo, visto que o Congresso deverá reduzir ao mínimo a cooperação com uma Casa Branca sob suspeita. Isso terá implicações nas eleições do ano que vem, mesmo que entretanto Trump acabe por não cair.

Valerá também a pena olhar para o comportamento do “vice” Mike Pence nos próximos meses, porque ele será o primeiro grande beneficiário de um escândalo judicial que atinja Trump — e pode com isso vir a ser o próximo Presidente dos Estados Unidos da América.