Fernão Mendes, o homem que se fez total

João Botelho filmou a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto como a aventura de um homem que se fez total, um marinheiro que no seu livro se pôs em todo o lado onde estiveram os portugueses. E que sobreviveu para contar. No filme é ajudado pelas canções de Fausto, na voz coral de cantores/actores.

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Há dois momentos na vida de João Botelho em que a Peregrinação lhe bateu à porta: no liceu e logo após terminar a rodagem de Os Maias. Da primeira vez, diz ele ao Ípsilon, “foi há muitos anos, mas como um pesadelo, não como uma alegria.” Mas com o tempo e com novas leituras começou a interessar-se, até pôr o livro de Fernão Mendes Pinto (1510?-1583) na lista dos projectos possíveis. Foi há dois anos que se decidiu. “Hesitei entre a História Trágico-Marítima e esta. A história também é maravilhosa, mas é só derrotas e naufrágios. Já o Non ou a Vã Glória de Mandar, do Manoel de Oliveira, também era sobre as derrotas. Achei que um bocadinho de euforia neste povo um bocado triste não fazia mal nenhum.”

Logo na sua primeira longa-metragem, de 1981, já Botelho se aventurara na literatura, com Conversa Acabada, onde pôs Fernando Pessoa e Mário de Sá-Carneiro a dialogar. Voltaria a ela em cinco filmes: Quem És Tu? (2001), adaptação de Frei Luís de Sousa de Almeida Garrett; A Corte do Norte (2008), baseado no romance homónimo de Agustina Bessa-Luís; O Filme do Desassossego (2010), a partir de O Livro do Desassossego de Bernardo Soares/ Fernando Pessoa; Os Maias (2015), baseado no célebre romance de Eça de Queiroz; e agora a Peregrinação, com base nos relatos das viagens quinhentistas de Fernão Mendes Pinto. E incluiu no filme sete canções de Fausto Bordalo Dias, com autorização deste, mas todas elas cantadas a capella por dois corais de sete cantores, que são também actores activos no filme.

Várias coisas prenderam Botelho ao relato de Fernão Mendes. Uma: “É um tratado sobre a língua portuguesa naquela altura, porque é muito bem escrito. Porque ele sabe da língua, sabe como é que se escreve, ele é juiz em Almada.” Outra: “Há a história da viagem, que é uma coisa engraçada, e sobretudo da metonímia, da sucessão de ideias, umas atrás das outras como as cerejas. Gosto do cinema como associação de ideias, não gosto das metáforas. E o que ele usa na Peregrinação não são metáforas, são descrições que podem ser fantasiosas, mas não há aqui sombra de epopeia, não são os deuses como na Odisseia, é uma viagem.” Editado em 1614, trinta anos após a morte do seu autor, o livro Peregrinação foi traduzido mais tarde em várias línguas e tornou-se uma referência nas descrições do Oriente no século XVI. “Dizem que o precursor destes relatos é o Marco Polo. Mas se calhar ele não tem tanta verdade quanto se diz, porque, por exemplo, nunca refere a muralha da China! É impossível não falar dela, é porque não esteve lá perto. Nem refere os pés pequeninos das chinesas!”

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João Botelho, num momento das filmagens: “O cinema é falso, ninguém morre no cinema a não ser que haja um acidente. Mas tem de haver verdade no que as pessoas sentem quando vêem aquilo”

Há ainda outro aspecto, o lado da reconstituição da memória. “Porque ele começa a escrever sete anos depois de ter regressado. É um desejo enorme de ser reconhecido.” Na sua forma de abordar a história, Botelho tropeçou nalguns enigmas. “Só está provado que ele teve duas filhas, mas ele escreve ‘filhos’ no masculino, se calhar teve mais.” No filme, lá estão as duas filhas, com a mãe (a actriz Catarina Wallenstein), a ouvir Fernão contar as suas aventuras. O actor Cláudio da Silva, que encarnara Bernardo Soares no Filme do Desassossego, é Fernão Mendes no filme. Mas é também o corsário António Faria. “Fiquei”, diz Botelho, “com aquela ideia do Aquilino [Ribeiro], que me deu um jeito enorme, de o António Faria ser um heterónimo do Fernão Mendes. É uma ideia maravilhosa. Porque o António Faria existe, era um tipo de Montemor-o-Velho que ele conhecia e que também esteve nas Índias, mas era um tipo normal, nunca foi pirata, até deixou um testamento.” Mas é António Faria que arca com o mal, as violências, aquilo que Fernão jamais assume como seu. “Ele tomou liberdades e eu também. Ninguém sabe se teve aquelas namoradas, ou se se apaixonou. A violação da chinesa [atribuída a António Faria], essa vem no texto. Mas há muitas coisas inventadas.”

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As filmagens decorreram em duas fases. Em Agosto e Setembro de 2016, foram filmados, sem actores, os cenários naturais: na Índia, Malásia, Vietname, China e Japão. E em Abril e Maio de 2017 foram feitas em Portugal as filmagens com os actores, em estúdio e ao ar livre (Lisboa, Sintra, Tomar, Almada, Comporta, Torres Novas, Vila do Conde). “A rodagem teve de ser muito rápida. Fi-la cá em 36 dias, foi muito duro.” Ao lado de actores profissionais, há membros das comunidades chinesa, japonesa e timorense da Grande Lisboa. Chuva? Os bombeiros criaram-na para o filme. As enormes mantas (raias gigantes) que saem das águas como se voassem? São verdadeiras, tiradas de documentários sobre a vida animal. O chroma key fez o resto. “É filmado aqui, mas parece que estamos a filmar lá.” A ilusão inerente ao meio. “O cinema é falso, ninguém morre no cinema a não ser que haja um acidente. Mas tem de haver verdade no que as pessoas sentem quando vêem aquilo. Por exemplo: o espectáculo de que eu gosto mais é a ópera. É muito artificial no início, mas depois fica verdadeiro.” O filme custou 1,5 milhões, a produção arranjou 1,2 milhões e Botelho espera que a receita cubra o resto, nas salas e numa futura edição em DVD, para a qual há um making of feito.

Investigação histórica

Filmar na China sem ninguém a atrapalhar foi complicado. “Há milhões de turistas. Mesmo no Vietname, que está colonizado pela China, é muito difícil. Por isso fizemos filmagens relativamente clandestinas. Porque as autorizações demoram um tempo enorme.” Botelho esteve até tentado a fazer uma co-produção luso-chinesa, mas desistiu. “Pediam-me quatro anos para preparar a produção. Mas o tempo deles não é o meu, não tenho idade para estar à espera quatro anos.” Havia ainda outro problema, de que ele se apercebeu ao fazer briefings em Macau. “Eles aceitam o Marco Polo, com a rota da seda, as trocas Oriente-Ocidente, mas odeiam o Fernão Mendes Pinto. Acham que ele que abriu as portas à colonização da China.”

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Botelho diz que também foram trabalhosas as localizações. “Por exemplo: Tanegashima, a ilha japonesa da espingarda [que deu nome ao arcabuz ali introduzido pelos portugueses], é hoje um centro espacial. Então fomos para Quioto, que está preservado.” Essa busca deu-lhe outra ideia. “Fiz uma espécie de investigação histórica: como é que eram naquele tempo os chineses, os japoneses, a delicadeza. Fizemos quatro documentários de 25 minutos, que vão passar depois na televisão e que são sobre os ensaios maravilhosos que vêm publicados na edição da Peregrinação da Afrodite [em dois volumes, editados em 1971 e 1975].”

Já em Portugal, ele vê o filme como um objecto “verdadeiramente colectivo”: “Encontrámos bons chefes de equipa. O cenógrafo é o João Mendes Ribeiro, um arquitecto de Coimbra que fez os palácios em estúdio. O guarda-roupa, a Silvia Grabowski foi a Espanha e alugou aquilo tudo. Os tipos do Ofício Bélico, que fazem umas brincadeiras com combates medievais e espadas, fizeram a coreografia das batalhas. Ao Luís Branquinho, director de fotografia, mostrei-lhe fotos e disse-lhe que não queria o chiaroscuro do Caravaggio mas o escuro do Rembrandt. Discutimos pintura. Eu só tinha de me preocupar com os actores.” E aqui diz que se esforçou muito: “Trabalhei muito na preparação, nos ensaios com os actores, como no teatro.” Por exemplo, a jovem chinesa Meng, por quem Fernão hipoteticamente se terá apaixonado, é interpretada por Jani Zhao, “uma menina que nasceu em Aveiro, filha de pais chineses, o pai faz import-export de móveis. Faz novela e começou nos Morangos com Açúcar. Aquilo é uma pepineira, mas trouxe uma data de gente nova para a representação. Não gosto de novela, nem vejo, mas a novela trouxe para Portugal a oralidade da língua. Porque quando eu comecei, a oralidade era brasileira e as pessoas rejeitavam a oralidade portuguesa no cinema, porque estavam habituadas às vogais abertas e nós falamos com as vogais fechadas e consoantes. As novelas trouxeram um ganho em relação aos actores.”

Modos de contar e cantar

Para Botelho, este filme é um exercício sobre o modo de contar. “O cinema não é o que se passa nem como se passa, é como se filma. As histórias são para a literatura, o cinema é o modo de filmar as histórias. E este filme, para mim, é um exercício sobre o modo de contar. Ou seja, ele [o Fernão Mendes Pinto] conta as suas aventuras na taberna, conta-as aos filhos, conta-as com a voz fora de campo, conta-as com a ilustração das batalhas ou de alguns episódios, conta-as ao rei de Espanha.” Mas é também um exercício sobre o modo de cantar. “As canções [de Fausto] entraram, não como aquela distância crítica social, brechtiana, ou como um coro grego vindo dos deuses, mas como fluidez da narrativa. Porque as canções estão escritas de tal maneira que contam histórias. O Fausto pegou também no texto do Fernão Mendes Pinto e conta episódios a cantar. Não é um musical americano, não é Demy, não é Minnelli, é um modo diferente de ligar a narrativa. E recusei os instrumentos.” Só se ouvem uns tambores, leves, em Por este rio acima, uma das sete canções incluídas no filme (as outras são O barco vai de saída, A guerra é a guerra, A ilha, O cortejo dos penitentes, Olha o fado e Navegar, navegar). “Havia hipótese de haver orquestra, mas preferi que eles cantassem a capella para nós, para os espectadores.” Os arranjos são de Luís Bragança Gil e Daniel Bernardes, que trabalharam com dois coros compostos por cantores de várias proveniências. “Cantam em operetas, vêm de música clássica, de conjuntos musicais, de vários sítios. Descobri depois que eles eram também actores, disponíveis e muito bons.”

São sete cantores em cena, sempre, mais Fernão Mendes e o intérprete. “O Fernão fazia uma brincadeira, de modo a que os sobreviventes fossem sempre nove. Eles morrem e aparecem outra vez nove. ‘Nós, os nove.’ É a novena, uma coisa religiosa.” Já o intérprete é, de modo assumidamente irreal, a súmula num só homem (o actor Cassiano Carneiro) de todos os tradutores citados no livro. “Um homem que sabe mais do que ele, sabe línguas!” E sabe até línguas que nunca ninguém ouvira. “O Fernão Mendes Pinto aprendeu mandarim. Trouxe livros chineses e, quando havia hiatos, ele preenchia-os com as informações que trouxera. Como funciona um tribunal chinês? Como se organiza um banquete? O que ele não sabia, ia lá buscar. Tenho no filme uma pequena cena em que está a menina a ensinar-lhe mandarim.”

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Educação e aventura

Além dos exercícios em torno das formas de contar e cantar a história, há outra ideia de que João Botelho diz gostar: “É ele transformar-se em personagem colectivo, num marinheiro que se fez total. No Japão, na Muralha da China, no Reino do Prestes João, ele pôs-se em todo o lado onde estiveram os portugueses. A grandeza dele é que é um sobrevivente, um herói, um tipo que sobrevive a tudo, naufrágios, torturas, mortes.” É esta personagem que agora veremos no filme, ao qual serão chamadas também as escolas. “Fizemos um acordo com o Ministério da Educação. O problema português não é a cultura, é a educação. E é um problema grave”, diz Botelho. O facto de a Peregrinação ser transversal, ajuda. “Dá-se em Filosofia, em História, em Literatura, até em Ciência, em Botânica, por causa das plantas”.

Botelho acha que actualmente se transformou “o cinema numa aventura infanto-juvenil. Oitenta por cento das pessoas que vão ao cinema são miúdos, os adultos ficam em casa. Vê-se mais cinema clássico nas séries americanas actuais do que nas salas.” Mas diz também que “todos os anos há um regresso dos adultos ao cinema. Houve com Os Maias, pode ser que haja com este outra vez.” E os alunos, como irão vê-lo? “Vão olhar com estranheza. Mas o filme tem fluidez, tem alguma aventura lá dentro. Depende muito dos professores.”