Crónica

Catalonia Infelix

Está aberta uma funda crise em Espanha e a questão catalã não está resolvida.

Desolação. No dia de hoje é difícil falar da Catalunha sem tristeza. Pelo que aconteceu nos últimos cinco anos, em que um independentismo mitómano, que negava a realidade, fracturou a sociedade catalã; e, também, pelo que agora acontece: a ressaca do “povo soberanista”. Por um dia, partilho a desolação dos vencidos de hoje, dos que seguiram o canto das sereias e ainda não perceberam o que aconteceu.

“A República deixou de existir mal nasceu”, resumiu o jornalista catalão Lluís Bassets, adversário da aventura independentista. Durou o tempo de uma festa ao fim da tarde. Ao contrário do que se antevia não houve resistência. Não houve cenas na Generalitat: só um ex-conseller (“ministro”) fez de conta que trabalhava e saiu quando os Mossos (polícia catalã) o notificaram que poderia ser acusado de usurpação de funções. Carme Forcadell, presidente do parlament, teve o bom senso de aceitar os factos.

Escrevia esta segunda-feira no La Vanguardia o director Màrius Carol: “[O escritor Antoni] Puigverd disse-me há dias que Puigdemont deveria proteger-se, porque também Jesus Cristo foi recebido com palmas e louros em Jerusalém, no Domingo de Ramos, e cinco dias depois era crucificado na solidão. De facto, na quinta-feira, o ‘espirituoso’ [deputado independentista Gabriel] Rufián chamava-lhe nada menos do que Judas, no Twitter.” Puigdemont já não quer ser herói e “exilou-se” na Bélgica. 

Dois factos mudaram tudo. Primeiro, num gesto que ninguém previu, Rajoy convocou eleições para 21 de Dezembro, para evitar os riscos de uma intervenção longa, apanhando em contrapé os independentistas. O segundo foi a maciça manifestação anti-independentista de domingo. 

Os nacionalistas imediatamente aceitaram participar nas “eleições ilegítimas” que denunciavam horas antes. Surpresa? Um partido fora do parlament não existe. E também não sobrevive sem as subvenções estatais. A CUP prometeu transformar as eleições numa “paella popular” — insurreccional, entenda-se — mas também já se resignou aos voto “autonómico”.  É a vida. Os partidos têm muito pouco tempo para organizar as candidaturas e as campanhas. 

O que passou, passou. E quem presta agora contas aos desolados que os seguiram? Diz-se que Oriol Junqueras, líder da Esquerda Republicana da Catalunha, nunca teve ilusões sobre a independência. Apenas cinismo? 

Está aberta uma funda crise em Espanha e a questão catalã não está resolvida. O nacionalismo catalão vai recrudescer, embora sujeito a um banho de realismo. Os catalães têm um problema consigo mesmos. São um “nacionalismo infeliz”, alimentado pelas derrotas. Catalonia Infelix é o título de um livro escrito pelo hispanista inglês Edgar Alison Peers, em Barcelona, no dramático ano de 1937, em plena Guerra Civil. Recomenda o historiador espanhol Gabriel Tortella, também ele um filho de Barcelona: “Se a Catalunha quer deixar de ser infelix tem de assumir a sua História sem demagogia e, sobretudo, sem se atribuir o papel de vítima.”