Torne-se perito

Santana: “Não sou candidato por obsessão pelo défice zero”

Candidato à liderança do PSD reúne-se pela primeira vez no âmbito da campanha com militantes, em Valongo, onde o partido sofreu uma grande derrota nas autárquicas.

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Santana Lopes propõe "um PSD mais PPD" Nelson Garrido

Pedro Santana Lopes trazia a lição bem estudada. À entrada do salão multiusos da Santa Casa da Misericórdia de Valongo, neste sábado, o candidato a presidente do PSD não quis comentar a entrevista de Rui Rio ao Expresso, mas na intervenção que fez ao fim da tarde com militantes desforrou-se das acusações e críticas que o seu adversário, que não nomeou, lhe fizera.

Assumindo-se como um “candidato pela positiva”, que quer construir uma alternativa à actual “frente de esquerda”, Santana reconhece que o caminho com vista à liderança do PSD “é duro” e desde bem cedo tratou de separar águas, esclarecendo a sala: “Não sou candidato por obsessão pelo défice zero”. Estava dado o mote. O até agora provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa fez questão de dizer que defende a consolidação orçamental e o equilíbrio das contas públicas, mas que o partido precisa de olhar também para a questão social.

Na entrevista ao Expresso, Rui Rio assumiu-se como alguém que tem “características muito próprias, que não são muito comuns na forma de estar na política”. Daí que sempre que tinha oportunidade, Santana tratava de se referir ainda que indirectamente a alguns dos temas tratados pelo ex-autarca do Porto, que disse ainda ser “mais estável” do que Santana e cumprir os mandatos até ao fim.

Antes de apresentar algumas das ideias do programa que está a preparar, Santana Lopes elogiou Pedro Passos Coelho, afirmando que, como primeiro-ministro, desempenhou uma “missão quase impossível” e aproveitou para dizer que enquanto Passos andava preocupado em salvar o país, e “alguns andavam a defendê-lo nas mais variadas frentes, outros companheiros andavam a criticá-lo”. Os aplausos na sala ouviram-se quando disse que Passos Coelho teve “um golpe de asa”, quando o Governo optou por uma saída limpa da troika sem programa cautelar, quando outros, como Cavaco Silva, defendiam uma “saída controlada”.

Esta não é a primeira vez que Santana assume toda a herança de Passos e na entrevista ao Expresso Rio foi confrontado com isso. “Eu assumo toda a herança dos 43 anos do PSD, com certeza”, respondeu o antigo presidente da Câmara do Porto.

Perante uma sala cheia de militantes onde se viam algumas figuras do partido, como os deputados Carlos Abreu Amorim e Miguel Santos ou José Oliveira, ex-vice presidente de Valentim Loureiro na Câmara de Gondomar, Santana referiu-se praticamente a todos os ex-líderes do PS - de Sá Carneiro, de quem foi assessor, a Francisco Pinto Balsemão, Manuel Ferreira e, claro, Passos Coelho. Aproveitou, de resto, para dizer que alguns o convidaram para assumir cargos governamentais, que não aceitou. Nem o convite de Ferreira Leite para voltar a ser candidato à Câmara de Lisboa, em 2009, quando o partido em 2005 – disse – “não deixou” que se recandidatasse.

Tal como fizera em Santarém, quando apresentou a candidatura, o antigo primeiro-ministro apontou o dedo a Rui Rio por “patrocinar candidaturas contra o partido”, numa alusão ao apoio a Rui Moreira contra Luís Filipe Menezes, nas autárquicas de 2013. Santana Lopes voltou à carga contra José Pacheco Pereira como já tinha feito no congresso em 2016 e em Santarém, mas desta vez para dizer que o acusou de ter “conspirado contra o partido”. Mas voltou a falar da Aula Magna.

Depois virou a página e falou da agenda social, num contraste com a linha seguida pelo ainda líder Pedro Passos Coelho. O candidato propõe-se dar prioridade à área social – “não compreendo que não haja um candidato que fale nisto” – referindo o combate à desertificação, o apoio aos “mais idosos” e a aposta nos “cuidados paliativos” como bandeiras. É a agenda social, que lhe ocupou o tempo nos últimos anos, como provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que tem estado em segundo plano no discurso oficial do PSD dos últimos anos.

Santana quer que o PSD volte a ser um partido autárquico e garantiu que, se for eleito presidente do partido, no dia seguinte começa a trabalhar nesse objectivo. Quanto ao programa – que será elaborado por figuras como a actual vice-presidente do PSD Teresa Morais –, Santana Lopes salientou a necessidade de ligar o partido às universidades e de dar destaque – através de “líderes por cada área” – ao “ambiente”, “cultura”, “descentralização” “finanças” e “património”. Aos 61 anos, o candidato quer ser “esse porta-voz das novas gerações, dos novos talentos, dos quadros”. A candidatura anunciou ontem que a deputada social-democrata Sara Madruga da Costa, de 39 anos, será a mandatária na Região Autónoma da Madeira.

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