May tem sete semanas para desviar negociações da ameaça do precipício

Empresas avisam que estão a ficar sem tempo, eurocépticos aumentam pressão sobre o Governo e UE acelera preparativos para saída britânica sem acordo. As negociações podem descarrilar se até Dezembro não houver progressos.

Foto
Theresa May corre contra o tempo ANDY RAIN/EPA

“Acabei de deixar Frankfurt. Boas reuniões, bom tempo, gostei realmente. E ainda bem, porque vou passar muito mais tempo aqui”. O tweet que Lloyd Blankfein, presidente da Goldman Sachs, publicou na véspera da última cimeira europeia, soou como um novo toque a rebate em Londres, onde o banco de investimento norte-americano emprega seis mil pessoas. Ilustra o pessimismo que se adensa sobre a evolução das negociações do “Brexit” – receios que nem as palavras de incentivo ouvidas por Theresa May em Bruxelas conseguiram acalmar. 

A primeira-ministra britânica tem já menos de sete semanas para apresentar propostas que convençam os líderes dos restantes Estados-membros de que foram houve  “progressos suficientes” nas negociações sobre as condições da saída para que a UE aceite começar a discutir o futuro. Este prazo não seria demasiado curto se não fosse o potencial explosivo que as cedências exigidas por Bruxelas podem ter na política interna britânica – a mais importante das quais é um acordo sobre a fórmula de cálculo para definir o valor dos compromissos financeiros que Londres tem ainda de saldar. 

“Um acordo [com os 27] é possível. Mas coisa completamente diferente é saber se May o consegue vender ao partido e ao governo”, escreveu Faisal Islam, editor de política da Sky News no fecho do Conselho Europeu de 19 e 20 deste mês, sublinhando que, conscientes disto, os europeus começaram a “a ponderar seriamente a hipótese de um ‘Brexit’ sem acordo”. Sinal disso, na quarta-feira os embaixadores dos 27 decidiram que, ao mesmo tempo que a UE inicia os preparativos para a próxima fase das discussões, deve acelerar os planos para a eventualidade de as negociações colapsarem.

Possibilidade do caos

A possibilidade de uma saída desordenada – ou “Brexit caótico” – nunca foi afastada. O artigo 50 do Tratado de Lisboa estipula que findos os dois anos previstos para as negociações os tratados deixam de se aplicar ao país que decidiu abandonar a União, e o Governo britânico insiste que prefere sair “sem acordo do que aceitar um mau acordo”.

Até há poucas semanas, contudo, poucos olhavam para este cenário como mais do que uma cartada negocial de Londres, tendo em conta as consequências devastadoras de uma saída contenciosa da UE – dos aviões impedidos de voar para a Europa, passando pelo caos nas fronteiras à ruptura nas linhas de abastecimentos de fábricas e supermercados.

O problema, escreveu quinta-feira a agência Bloomberg, é que “o calendário para o ‘Brexit’ foi desenhado no pressuposto de que haveria progressos suficientes sobre os termos da saída até ao final deste ano. Os negociadores teriam então tempo para selar um acordo de transição e discutir a futura relação antes de o ‘Brexit’ acontecer”. 

Mas depois de May ter falhado o primeiro exame, o risco de todo o processo vir a derrapar disparou. Isto por um lado alarma as empresas, e por outro dá força aos eurocépticos que há muito pedem à primeira-ministra que dê um murro na mesa, ameaçando abandonar as negociações se a UE não aceitar começar já a discutir um futuro acordo de comércio. 

Bluff?

Liam Fox, ministro para o Comércio Internacional e um das vozes mais eurocépticas dentro do executivo conservador, garantiu que Londres não está a fazer bluff, ao contrário do que disse em Bruxelas o Presidente francês, Emmanuel Macron. Afirmou que as consequências económicas de uma saída sem acordo podem ser mitigadas pelos planos de contingência que, assegurou, estão já a ser delineados. 

Charles Grant, director do Center for European Reform, não acredita, porém, que haja, no partido ou no governo, uma maioria que considere aceitável a hipótese de uma saída desordenada, mas apenas uma “minoria muito audível”. Em declarações ao PÚBLICO, o analista sublinha que, se por alguma razão as negociações fossem interrompidas, “os mercados financeiros iriam entrar em pânico: a libra iria despenhar-se, a confiança das empresas evaporaria, a bolsa iria cair a pique, o investimento iria diminuir brutalmente”.

Confrontados com a perspectiva de uma recessão e “em risco de perderem a sua credibilidade económica durante uma geração, os tories retomariam as negociações e concluiriam um acordo, ainda que fosse nos termos definidos pela UE”, afirma Grant.   

Mas perante o calendário cada vez mais apertado, a convicção de que o bom senso vai prevalecer ou as promessas feitas por ambos os lados de que estão empenhados em chegar a um bom acordo não tranquilizam quem precisa de fazer planos a longo prazo. “Uma semana em política pode ser muito tempo, mas para as empresas não é nada”, escreveu Xavier Rolet, director-executivo da London Stock Exchange, num artigo para o Telegraph

Com a economia a começar a ressentir-se desta incerteza. As cinco maiores associações empresariais do Reino Unido aumentaram pressão, enviando esta semana uma carta ao Governo em que avisam (tal como Blankfein) que as companhias vão começar a pôr em marcha os seus planos de contingência e a deslocalizar negócios para fora do país, se nos próximos meses não ficarem claros os termos do período de transição (que tanto Bruxelas como Londres dizem ser importante para amortecer durante cerca de dois anos os efeitos da saída britânica).

Os alertas, porém, não parecem ter surtido o efeito desejado. Já esta semana, Theresa May criou ainda mais alarme quando disse que as condições da transição só ficarão claras quando houver um entendimento sobre os contornos de futuro acordo de comércio – um tratado complexo que Bruxelas avisa irá demorará anos a ser negociado, mas que as duas partes gostariam de alinhavar antes de Março de 2019. “Obter uma clarificação tão tarde seria como fechar as portas do estábulo depois de o cavalo ter fugido”, disse à Reuters Catherine McCguinness, responsável da City londrina. 

O Politico escrevia há dias que, mesmo entre os eurocépticos, há agora o receio de que se Londres (por opção ou falta de alternativas) enveredar pelo caminho de uma ruptura drástica com a UE, a ameaça do precipício pode ser suficiente para dar força aos que que continuam a defender a permanência, levando o país a desistir ou pelo menos adiar o “Brexit”.

No entanto, uma sondagem divulgada no último fim-de-semana pelo Observer concluía que apesar de apenas 20% dos inquiridos acreditarem que o Reino Unido sairá da UE com um acordo satisfatório, são apenas 35% os defendem a realização de um novo referendo. E há mais britânicos a preferir uma saída desordenada (37%) do que aqueles que defendem um recuo na decisão tomada em 2016 (23%). 

“Não há hipótese de travar ou inverter o ‘Brexit’, a menos que a opinião pública mude de forma drástica”, garante ao PÚBLICO Charles Grant, explicando que esse cenário só se tornará provável no caso de uma crise económica. “Mas é igualmente provável que num cenário de crise ou de uma saída sem acordo, muitos britânicos acabem por culpar a UE”, desencadeando “um surto nacionalista”.