Entrevista

Destroyer: "Não é fácil encontrar luz enquanto o mundo dança com a morte"

O canadiano Dan Bejar voltou a ouvir os discos que o marcaram na adolescência para compor Ken, o álbum onde tanto nos deparamos com a decepção como com a vitalidade de existir. Em Novembro estará em Lisboa para o Vodafone Mexefest.

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Aos 45 anos, e dez álbuns de Destroyer depois, o canadiano Dan Bejar vai-se assumindo cada vez mais como um dos mais brilhantes cantores-compositores contemporâneos

Ele diz que é, provavelmente, o seu álbum mais simples, directo e óbvio. Não liguem. Aos 45 anos, e doze álbuns de Destroyer depois, o canadiano Dan Bejar vai-se assumindo cada vez mais como um dos mais brilhantes cantores-compositores contemporâneos, capaz de nos devolver canções de complexidade interior com alcance universal.

Desta feita regressou à adolescência, voltou a ouvir as linhas de baixo dos New Order, o sentido melódico dos Echo & The Bunnymen ou os ambientes sombrios dos Cure dos primeiros tempos, num álbum em torno do seu desejo de voltar tocar guitarra, mas que também é povoado por sintetizadores enevoados, fazendo lembrar alguns temas de Kaputt, o magnífico álbum de 2011 que deu novo fôlego à sua carreira. As letras são excelentes, misto de confronto com a realidade, enunciação de sonhos perdidos pelo caminho da vida e exposição da decadência do mundo ocidental.

Como já acontecia nos mais recentes álbuns, nada parece forçado. Não é música que deseje explorar novos mundos, mas que nos devolve uma identidade precisa, mostrando uma qualidade sonhadora e uma forma elegante de expressão que vai sendo rara e que poderá ser confirmada, em palco, no Vodafone Mexefest de 24 e 25 de Novembro.

Em conversas anteriores ficava-se com a ideia que tem definido o ponto de partida de cada álbum ao nível das influências, independentemente dos resultados o confirmarem. Em Kaputt (2011) nomeava Roxy Music e em Poison Season (2015) nomes do pré-rock como Sinatra. E agora?
Diferencio bem o processo de composição e de gravação e os dois acabam por gerar coisas diferentes. Neste disco quis tocar guitarra pela primeira vez em cerca de dez anos e depois compor as canções dessa maneira. É por isso que saíram simples, directas e curtas. A ideia global era fazer um álbum onde tocaria a maior parte da música, mas depois acobardei-me [risos]. Foi então que comecei a trabalhar com Josh Wells, membro dos Black Mountain que me tem acompanhado na bateria, e as coisas mudaram com ele na produção, embora a filosofia estivesse definida: procurar um estilo marcado por influências de bandas inglesas de meio dos anos 1980 que é o tipo de música que me marcou na minha adolescência.

Mas quando lançou Kaputt essa ligação a uma certa fase dos anos 1980 já era perceptível, quando nomeava Blue Nile, Prefab Sprout ou David Sylvian.
Sim, mas as influências dos anos 1980 em Kaputt tinham mais a ver com coisas que eu não ouvia na adolescência e que só vim a recuperar mais tarde, depois dos trinta anos. Blue Nile ou Scritti Politti só os descobri numa fase adulta. Poison Season era mais influenciado pela audição de soul dos anos 1970 ou discos de Billie Holiday e Frank Sinatra dos anos 1950. Este álbum está mais próximo de um som gótico e sombrio dos anos 1980 do que nesse disco. Aqui as influências detêm-se sobre o que ouvia há trinta anos, Cure, Echo & The Bunnymen, New Order ou Smiths, e outras coisas de que já não me lembrava, como House Of Love, e que fizeram parte da minha estrutura enquanto melómano. Ou seja, foi como voltar a ouvir discos que me apaixonaram quando era adolescente e que, depois, deixei de ouvir nos vintes anos.

São tudo grupos britânicos. Vivendo desde sempre em Vancouver, Canadá, perto da fronteira com os EUA, poder-se-ia pensar que seria mais permeável à cultura americana desses anos.
Sim e, de forma ainda mais concreta, eram tudo bandas de Manchester e Liverpool e não de Londres, muito reactivas ao que se passava politicamente na altura com Margaret Tatcher. Creio que comecei a ouvir essa música como resistência ao facto de na rádio só se ouvir porcaria. E depois é uma idade formativa. De repente percebemos que existem mais duas ou três pessoas que também gostam do Ian McCulloch (Echo & The Bunnymen) na nossa cidade e isso cria vínculos. Curiosamente, a primeira vez que fui a Manchester, já adulto, todas as minhas fantasias sobre a cidade se esboroaram [risos]. Era muito mais normal do que pensara. Não encontrei por lá a classe trabalhadora, nem o cinzento em versão poética que fantasiava, mas uma cidade moderna semelhante a tantas outras. Enfim, é normal romantizarmos as cidades a partir das canções que ouvimos nessa fase da nossa existência.

Nessa altura da adolescência a afirmação do que se gosta e não gosta tem uma carga identitária. É uma forma de afirmarmos onde queremos pertencer. Aos 45 anos, e percebendo a forma relaxada como fala das influências, o que não é comum no universo da música, diria que já não é questão que o inquiete.
Sim, é normal na adolescência acharmos que somos únicos. E somos, como é evidente, mas a partir de uma súmula de coisas que não nos são exclusivas. Como adolescente devia ser um horror de pretensiosismo [risos]. Havia bandas de que gostava como os Jesus & Mary Chain do primeiro álbum, pela mistura de ruído e doçura mas também pelo lado obscuro do visual e da atitude. Nesse aspecto os anos 1990 foram importantes. Quando toda a gente começou a ouvir hip-hop e electrónica, virei-me para os Pavement ou para a redescoberta dos anos 1970 — Bowie, Roxy Music, Brian Eno. Foi aí que deixei de me importar se era aceite ou não por ouvir ou não determinada música.

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"É normal na adolescência acharmos que somos únicos. E somos, como é evidente, mas a partir de uma súmula de coisas que não nos são exclusivas."

O título do álbum resulta do facto de ter sabido que a balada The wild ones dos Suede era para se ter chamado Ken. É mais uma referência inglesa. Afinal o que o atrai na cultura britânica?
Não sei. No caso deste disco eram coisas que me marcaram na adolescência. Mas nesse caso específico não foram os Suede que me motivaram. Na verdade não tenho grandes explicações para o título. Às vezes as palavras parecem ter uma carga mística. Essa não me saía da cabeça. Tem espessura, algo de antiquado, ou fora de tempo, como se se fosse extinguir. Faz-me lembrar uma personagem de Samuel Beckett, mas claro que na América toda a gente faz alusões ao par Ken & Barbie [risos].

Já disse que voltou a tocar guitarra neste disco e para isso acontecer foi importante a digressão que realizou o ano passado, onde tocou sozinho à guitarra em cidades americanas. Que América é essa que foi encontrar?
Foi antes das eleições americanas e sentia-se que, ao contrário do que os media tentavam passar, a vitória de Hillary Clinton não era uma evidência. Existe uma parte da América que parece estar abandonada, alimentando-se ainda da ilusão que é o centro do mundo mas sabendo que já não o é. Vi muito ressentimento mas não me é fácil falar disso. Estava muito concentrado na digressão. Nunca tinha tocado daquela forma, sozinho, à guitarra, em frente a uma audiência. Já tinha ouvido outros músicos falar dessa forma de operar — compor e apresentar as canções antes de estas estarem gravadas e, nesse processo, acabando por alterá-las - e quis experimentar. Acabei por ter sensações mistas. Em primeiro lugar percebi que me sinto mais confortável em palco com os músicos. Por outro lado gosto de coisas um pouco perversas e de me colocar à prova e era bom tocar as canções em palco e depois voltar ao hotel à noite e gravá-las no computador. Isso ajudou-me a sentir-me próximo das novas canções, a atribuir-lhes a melhor interpretação possível, e a ter uma ideia nítida do que elas precisariam quando acabasse por ir para estúdio. Mas não creio que nessa altura acreditasse que Trump ganharia. Ou não queria acreditar.

Se tivesse essa percepção poderia ter vindo a gravar uma canção assumidamente politica? Ou seja, sente-se que existe um ambiente político neste disco mas apenas como contexto.
Não tenho controlo sobre a escrita. Sinto que este disco é consistentemente negativo e isso já quer dizer alguma coisa. Sendo mais directo: as canções não reflectem directamente o contexto sociopolítico actual, mas o ambiente que as envolve acaba por fazê-lo. É um mundo doente, decadente, isolado, aquele que está por ali. É essa a América de Trump. Nesse sentido não é um disco explicitamente político, mas o ambiente reage a este mundo impossível. A maior parte das histórias passam-se em cidades hostis. E mesmo se isso está lá apenas como contexto parece-me significativo. Não escrevo canções por tópicos. Seria incapaz de escrever uma canção política. Mas gosto de imagens e de emoções que atribuem sentido a essas mesmas imagens.

As letras nunca são sobre um tema específico, mas na forma como se desenvolvem acabam por expor sintomas: Stay lost, Sometimes in the world ou Sky’s grey expõem feridas, como se algo de utópico se tivesse perdido e as ideias políticas tivessem sido trituradas.
Há muitas imagens. Para mim é sempre um processo inconsciente. A grande diferença é que comecei a escrever à guitarra e as canções resultam mais concisas e directas. De resto na maior parte das letras o que existem são ambientes — loucura, doença, decadência, isolamento — mais do que uma narrativa. Há algumas canções que falam do tipo de isolamento que acontece mesmo quando estamos rodeados de muitas pessoas. Quer dizer, Trump e todos esses fenómenos, apenas vieram confirmar que vivemos num mundo absurdo, o que torna obrigatório encontrar algum tipo de beleza por entre os destroços. O meu lado romântico deseja aproveitar esse lado mais luminoso. E isso também está presente em algumas canções. Mas não é fácil encontrar luz enquanto ao mesmo tempo o mundo dança com a morte.

Já assumiu que o cinema foi a sua primeira paixão e aquando do anterior álbum citava Fellini. Agora, o último tema do álbum, La regle du jeu, é uma alusão ao filme de Jean Renoir sobre a decadência da burguesia antes da II Guerra. Estaremos a assistir hoje a qualquer coisa de semelhante?
Essa canção começou pelo título o que é raro mas foi assim que me surgiu. Gosto muito do filme de Renoir, é estranho e negativista mas ao mesmo tempo emana dele uma qualidade sonhadora. Gosto dessa dualidade e está muito presente nas minhas canções. No anterior disco havia uma celebração misturada com sentimentos de solidão, por isso falava de Fellini. Aqui a riqueza, a superficialidade, a decadência e os lugares que os representam estão muito presentes. Mas não queria que se olhasse para este disco como pessimista. Há por ali muita esperança também.