A selva de Calais chega ao Doclisboa

L’héroïque lande, da dupla francesa Nicolas Klotz e Élisabeth Perceval, é um longo documentário imersivo sobre o lugar onde a França confinou os seus refugiados. Um filme contra David W. Griffith, a favor do amor.

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“Muitas vezes, o cinema olha para a actualidade, para aquilo que está a acontecer agora, com atraso”, diz o realizador francês Nicolas Klotz. “Aqui, tínhamos a ideia de fazer um filme ao mesmo tempo que as coisas aconteciam, sem saber o que se passaria no dia seguinte.” Élisabeth Perceval, argumentista, companheira de vida e cúmplice de filmes de Klotz, confirma. “Tínhamos urgência de tornar visível uma situação que acontece um pouco por toda a Europa. Fomos convidados para ir a Calais um ou dois dias e acabámos por fazer este trabalho 'de urgência' durante quase um ano...”, contam ao PÚBLICO.

L’Héroïque lande (La frontière brûle), um dos títulos-chave da competição internacional do Doclisboa 2017 (nova sessão esta sexta-feira, às 19h30, no São Jorge), é então o resultado desse ano passado a filmar no infame campo de refugiados francês que ficou conhecido como a "Selva de Calais". Durante quase quatro horas, este documentário imersivo mergulha-nos no quotidiano dos refugiados (do Afeganistão, da Eritreia, da Etiópia) que chegam a França com a esperança de encontrarem passagem para um mundo melhor.

Refugiados, emigrantes, choque de culturas, conflitos éticos e morais a que a sociedade moderna força o indivíduo são temas recorrentes da obra de Nicolas Klotz e Élisabeth Perceval, que tem navegado entre a ficção e o documentário. Entre nós, a sua filmografia – que se eleva já a uma cinquentena de títulos, entre aqueles que o casal designa de “filmes” e projectos mais modestos e experimentais a que chamam de “diálogos clandestinos” – tem sido maioritariamente apresentada em festivais. L’héroïque lande é uma espécie de “destilação” da sua abordagem simultaneamente cinéfila e experimentalista: começaram a rodar o filme sozinhos, sem dinheiro nem expectativas, com uma pequena câmara digital; só mais tarde, à medida que o projecto ia ganhando consistência e se ia expandindo para lá do “diálogo clandestino” originalmente pensado, encontrou uma estrutura e um produtor.

“O que percebemos muito depressa é que na 'Selva' tudo só acontecia uma vez. Se não filmávamos alguma coisa, estava perdida para sempre. Tudo acontece num instante e é preciso estar atento ao instante”, explica Klotz. “E esse instante foi para a dupla a possibilidade de devolver aos refugiados a sua dimensão de indivíduos, de os reumanizar perante o “ruído” que rodeia as reportagens televisivas sobre o tema. “Penso que os média têm um discurso oficial e escolhem as suas imagens para o ilustrar”, explica Perceval, enquanto Klotz cita Godard (“o maior cineasta do mundo, ponto final”): “Os média escrevem antes e escolhem imagens para ilustrar, enquanto nós escrevemos depois de filmarmos.”

Esconjurar Griffith

A escrita cinematográfica da dupla é percorrida por um sentimento cinéfilo: L’héroïque lande divide-se em “partes”, “segmentos”, o primeiro dos quais se chama O Nascimento de uma Nação (e a citação do filme de David W. Griffith é deliberada, é um “esconjuro”). Porque, como diz Klotz, “este é um mundo novo que ainda não somos capazes de verdadeiramente apreender": "Os movimentos das populações do Sul em direcção ao Norte vão ser cada vez mais importantes, e vamos ter de os enfrentar de outro modo que não os campos de refugiados. E a 'Selva' de Calais era uma possibilidade de reagir a isso de outro modo: não porque de repente existiria um mundo utópico, mas porque um outro mundo chegava até nós. Havia a possibilidade de mostrar como uma cidade nasce da lama, e como estas pessoas que têm vontade de existir, desejo de viver, levam a cabo os seus gestos quotidianos.”

A par de Griffith, Klotz e Perceval evocam os nomes de Roberto Rossellini, por ter rodado Alemanha Ano Zero na Alemanha em reconstrução do pós-guerra; John Ford, recordado através do heroísmo pioneiro das pessoas que conheceram em Calais, “gente que parecia ter dois metros de altura”; de Andrei Tarkovski, porque as praias onde acompanharam vários dos refugiados remeteram a dupla para Stalker, “um filme sobre aqueles que buscam uma saída, uma zona, uma travessia ("E aqui tínhamos dez mil stalkers...”); de Wang Bing, e do monumental filme que o revelou, West of the Tracks, “embora esse fosse um filme sobre um mundo que desaparece" e o deles seja sobre "um mundo que nasce”. E um mundo que, apesar do sofrimento e da dureza, é aberto ao outro. “A nossa presença, a relação que fomos construindo com as pessoas que cruzávamos eram mais importantes do que a câmara”, diz Perceval. “Não quero ser demasiado idealista. Mas este é um filme sobre o amor ao outro, e contra o medo do outro.”