São dez as obras que a DGPC já comprou este ano para os seus museus e palácios

Valor total das aquisições não chega aos cem mil euros, mas não inclui os seis milhões investidos pelo Estado na compra de seis quadros para a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva.

Foto
Discípulo Escutando Buda, uma obra feita na Birmânia nos séculos XVIII-XIX e agora comprada para o Museu Nacional de Etnologia Steve Soer

A Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) comprou desde o início deste ano dez obras para seis dos seus museus e palácios, entre os 23 que tem à sua guarda, no valor de 95,7 mil euros. Os contemplados foram o Museu Nacional Soares dos Reis (Porto), o Museu Nacional do Teatro e da Dança (Lisboa), o Museu Nacional de Arte Antiga (Lisboa), o Museu Nacional de Etnologia (Lisboa), o Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (Lisboa) e o Palácio Nacional de Mafra, esclareceu ao PÚBLICO a DGPC depois das aquisições anunciadas esta semana, as de maior valor até agora, que atingiram os 65 mil euros.

Estas compras ficam muito aquém, no entanto, da excepcional aquisição anunciada em Setembro para a Fundação Arpad Szenes – Vieira da Silva, que tem o Estado como garante do seu funcionamento e principal parceiro, quando este finalmente chegou a um acordo com os herdeiros do coleccionador Jorge de Brito para comprar por 5,58 milhões de euros seis quadros da pintora Maria Helena Vieira da Silva. A compra também foi feita através da DGPC e os quadros juntaram-se à colecção da fundação lisboeta, onde já estavam em depósito.

Foi em resposta a um pedido do Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado (MNAC) que a DGPC decidiu esta semana adquirir quatro obras fotográficas da colecção de Isabel Vaz Lopes no valor de 35.200 euros. O acervo da coleccionadora encontra-se actualmente em depósito na instituição, mas a proprietária formalizou em Setembro o seu pedido de desafectação das obras. A direcção-geral anunciou simultaneamente a compra, por 30 mil euros, de uma escultura budista para o Museu Nacional de Etnologia (MNE), pertencente à colecção de Victor Bandeira, ali colocada em depósito há várias décadas com o objectivo de ser comprada.

Desde o início do ano, a DGPC já tinha adquirido para o Palácio de Mafra um paramento do século XVIII por 1106 euros. Entre os museus nacionais, o Soares dos Reis pôde incorporar a pintura O Vestido Verde, de Aurélia de Sousa (que tinha já sido publicamente apresentada em 2016), adquirida pela DGPC por 7500 euros, o do Teatro obteve o cartaz Grupo dos Cinco (1200 euros), e Arte Antiga juntou às suas colecções a pintura Santiago e Doadora (c.1520-1530), atribuída ao círculo do artista espanhol Juan de Borgoña, no valor de 20 mil euros.

Nozolinos em cima da mesa

Para o Chiado, foram esta semana compradas duas fotografias pertencentes à série Shelter, de Augusto Alves da Silva, e obras de José Luís Neto e de Júlia Ventura. A obra de Neto, sem título, é composta por seis fotografias. Além destas quatro obras, Emília Tavares, curadora de fotografia do MNAC, tinha ainda pedido que se adquirissem duas fotografias de Nozolino.

De Augusto Alves da Silva, explica a curadora, o MNAC tem agora todas as fotografias desta série de 1999: “As outras duas tinham sido compradas na desafectação anterior de parte da colecção de Vaz Lopes.” Já Full Moon Photos, de Júlia Ventura, vem reforçar, com um segundo trabalho, a representação da artista na colecção do museu. “Só uma obra de cada artista é muito insuficiente, é preciso ter pelo menos duas para ter uma expressão da evolução dos artistas.”

Quanto a José Luís Neto, foi comprado o seu trabalho de 2000 ligado a um pioneiro da fotografia em Portugal, Joshua Benoliel, relacionado com o uso de máscaras nas prisões no início do século XX. “É das séries mais importantes do trabalho dele e não tínhamos nada de José Luís Neto.”

De fora ficou Paulo Nozolino, mas a DGPC, explicou ao PÚBLICO Céu Novais, assessora de comunicação deste organismo, não afasta totalmente a possibilidade de uma futura aquisição. “Tiveram de ser feitas opções por questões orçamentais. Mas não está posta de lado a aquisição dos dois Nozolinos”. Também em processo de aquisição está outra fotografia para o MNAC, que não pertence à colecção de Vaz Lopes: uma vista das Canárias feita no século XIX pelo fotógrafo João Francisco Camacho, por 700 euros.

A DGPC não recebeu quaisquer outros pedidos do museu para comprar outras obras da colecção de Vaz Lopes, entre as quais se incluem, por exemplo, trabalhos de Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes ou José Pedro Croft. A directora do MNAC, Aida Rechena, não respondeu às várias tentativas de contacto feitas pelo PÚBLICO, que a questionou nomeadamente sobre a intenção de adquirir uma obra de Cabrita Reis, um dos mais relevantes artistas portugueses, e que não está representado no Chiado.

À procura de mecenas

Após a compra anunciada esta semana, o Museu de Etnologia vai por sua vez incorporar a escultura Discípulo Escutando Buda, uma obra feita na Birmânia nos séculos XVIII-XIX, neste momento patente na exposição De Regresso à Luz. Esculturas orientais em depósito da Colecção de Victor Bandeira.

Paulo Costa, director do MNE, explica que a escultura em madeira lacada e dourada agora comprada faz parte de um conjunto de sete, representativo do budismo, e que vem completar as colecções asiáticas do museu. A obra foi adquirida há cerca de 40 anos por Vítor Bandeira, um nome indissociável da história do MNE, para o qual recolheu cerca de 5000 peças. O coleccionador, agora com 86 anos, doou ao museu cerca de 700 obras. “Estas peças estiveram depositadas sempre na expectativa de integrar a colecção. Tínhamos de honrar o compromisso e agora temos uma belíssima representação desta religião central. Também fizemos a exposição para ver se conseguimos arranjar mecenas.”

Em Maio, o Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) voltou a adquirir uma obra através de uma campanha de angariação de fundos, recordou ao PÚBLICO o director do museu, António Filipe Pimentel. Os dez mil euros angariados permitiram a compra de uma miniatura sobre marfim, um retrato oitocentista de Frei Fonseca Évora, da artista italiana Maria Tibaldi, naquela que foi a segunda campanha pública realizada pelo MNAA, depois da iniciativa Vamos pôr o Sequeira no Lugar Certo, que em 2006 viabilizou a aquisição da pintura A Adoração dos Magos, de Domingos Sequeira, por 600 mil euros.