Crânio com seis mil anos será da primeira vítima de um tsunami

Identificadas semelhanças em depósitos geológicos da Papuásia-Nova Guiné de um tsunami ocorrido em 1998 e outro de há seis mil anos. Por isso, o pedaço de um crânio com seis mil anos encontrado nesse sítio poderá ter sido de uma vítima de um tsunami.

Parte do crânio com seis mil anos
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Parte do crânio com seis mil anos Arthur Durband/Universidade Estadual do Kansas

Os tsunamis são autênticas catástrofes naturais e podem provocar a morte a milhares de pessoas. Mas quem foram as primeiras vítimas de um tsunami? Uma equipa internacional de cientistas considera que um fragmento de um crânio encontrado em 1929 foi a primeira vítima de uma catástrofe deste género, como refere um artigo científico na revista Plos One. O crânio é de um humano que terá vivido há seis mil anos na Papuásia-Nova Guiné, na Oceânia.

Há mais de 80 anos, o geólogo australiano Paul Hossfeld descobria um crânio a 12 quilómetros da costa norte da Papuásia-Nova Guiné e perto da povoação de Aitape. Primeiro, pensava-se que se tratava de um Homo erectus, uma espécie de hominíneo já extinta. Depois, acabou por ser classificado como um humano moderno, a nossa espécie, que viveu há seis mil anos.

“O crânio tem tido sempre grande interesse arqueológico porque é um dos poucos vestígios mais antigos de esqueletos na área”, diz o antropólogo Mark Golitko, da Universidade de Notre Dame (Estados Unidos) e um dos autores do estudo, em que participaram também cientistas da Austrália, Nova Zelândia e França. Por isso, em 2014, uma equipa de investigadores voltou a visitar o local onde o crânio tinha sido encontrado e recolheu mais amostras dos mesmos depósitos geológicos observados por Paul Hossfeld, para as analisar depois em laboratório.

“Não sabemos exactamente onde Hossfeld encontrou o crânio, mas pensamos que estivemos a 100 metros da localização original conforme a sua descrição”, explica Mark Golitko, num comunicado da Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália). “Agora podemos usar técnicas científicas modernas para perceber um pouco mais como o local se formou e o que vemos actualmente.”

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Cientistas a explicarem o projecto às pessoas que vivem perto da povoação de Aitape, na Papuásia-Nova Guiné Cortesia de Mark Golitko

Estudaram-se os sedimentos de forma pormenorizada, como o tamanho dos grãos sedimentares e a composição geoquímica. Ao longo do trabalho, identificaram-se ainda um conjunto de organismos microscópicos do oceano nos sedimentos, tal como também se encontraram organismos semelhantes na mesma zona depois do tsunami de 1998.

Neste último tsunami, que matou mais de duas mil pessoas, a água avançou cinco quilómetros pela zona costeira adentro e as tentativas para resgatar as vítimas foram canceladas durante uma semana porque os crocodilos se estavam a alimentar dos cadáveres, deixando-os desmembrados. “Isto pode também explicar o porquê do crânio da pessoa que morreu há seis mil anos ter sido encontrado sem qualquer outro osso”, lê-se no comunicado. Além disso, os cientistas têm vindo a mostrar que ao longo da história esta região tem tido vários tsunamis que têm causado mortes, abandono de povoações costeiras, rápida perda de recursos ou o colapso de rotas comerciais. Como o crânio também tem seis mil anos como um dos tsunamis, os cientistas estabeleceram uma relação entre ambos.

“Concluímos que esta pessoa que morreu há muito tempo é provavelmente a vítima mais antiga de um tsunami no mundo”, diz James Goff, da Universidade de Nova Gales do Sul e principal autor do estudo. “Este trabalho reforça o reconhecimento cada vez maior de que os tsunamis têm tido um significado influente nas populações costeiras através da pré-história do Pacífico e sem dúvida noutros locais também”, salienta ainda Darren Curnoe, da mesma universidade e outro autor do artigo.

Afinal, nos últimos tempos vimos a devastação deixada por dois grandes tsunamis – um de 2004 na Indonésia, que fez cerca de 230 mil vítimas mortais, e outro em 2011 no Japão, que causou a morte a 16 mil pessoas. O crânio de que agora se fala é “apenas” a primeira que conhecemos de catástrofes naturais deste género.