Colégio da Trindade recuperado. Desapareceu a "última grande ruína" da Alta de Coimbra

Edifício do século XVI foi reabilitado e vai receber a Casa da Jurisprudência, uma extensão da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido
Fotogaleria
Nelson Garrido

Foi utilizado por ordens religiosas, acolheu um tribunal, residências e espaços comerciais. O Colégio da Trindade, na Alta de Coimbra, teve várias utilizações desde 1555, o ano em que começou a ser construído, e volta a abrir portas nesta quarta-feira como Casa da Jurisprudência, uma extensão da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra (FDUC).

A obra de recuperação foi lançada em Novembro de 2014 e estava previsto que ficasse concluída um ano depois. Os trabalhos arrastaram-se mais dois anos além do prazo estipulado, mas o orçamento inicial de 7 milhões de euros foi respeitado, garante o reitor da Universidade de Coimbra (UC), João Gabriel Silva, ao PÚBLICO.

O responsável justifica a derrapagem dos prazos com a complexidade de obra e lembra que, quando se intervém em sítios antigos, “encontram-se sempre grandes surpresas”. Neste caso, uma das surpresas foi a descoberta de esqueletos, que foram exumados, o que obrigou a trabalhos arqueológicos. O reitor fala ainda da época em que a obra arrancou — “foi feita em pleno período da troika, com dificuldades financeiras das empresas”.

O edifício que vai ser inaugurado nesta quarta-feira estava degradado há vários anos. Quem visitava os principais pontos de atracção da universidade, como a Biblioteca Joanina ou a Via Latina, observava ao fundo do Páteo das Escolas um edifício em ruína.

Já no final do século XX, o tecto desabou e levou a Universidade de Coimbra a avançar para o concurso do projecto de reconversão, que foi ganho pelo atelier de arquitectos Aires Mateus.

Em 2017 abriu parcialmente ao público, com uma exposição sobre a abolição da pena de morte em Portugal. Mas será apenas neste ano lectivo que vai voltar a ter “utilização plena”, diz Gabriel Silva. O reitor da universidade mostra a “grande satisfação” em “fazer desaparecer a última grande ruína da Alta”.

Casa da Jurisprudência

O Colégio da Trindade volta a ser utilizado pelo Direito, uma vez que já acolheu o Tribunal da Comarca de Coimbra. A Casa da Jurisprudência, para além de receber o Instituto Jurídico, dando espaço à investigação, vai servir para o curso de jurisprudência, explica o director da FDUC, Rui de Figueiredo Marcos. Será um curso de pós graduação, portanto não conferente de grau, “de cariz mais prático, assente sobretudo em ilustrações jurisprudenciais”.

Antes da Casa da Jurisprudência, a UC queria ali instalar o Tribunal Universitário Judicial e Europeu (TUJE), um projecto que não chegou a avançar. A criação desse tipo de tribunal implicaria alterações legislativas que nenhum governo se disponibilizou a executar, refere o reitor. “Se estivessemos à espera [das alterações], ainda agora lá estariam as ruínas no mesmo sítio”. No entanto, não descarta a hipótese de o TUJE — um tribunal ligado ao ensino, assim como há os hospitais da universidade, exemplifica — poder vir a encontrar casa na UC.

Até porque antiga igreja do Colégio da Trindade foi convertida em sala de audiência, podendo “ser adaptada”, refere Rui de Figueiredo Marques.

Integrar no conjunto

A base de trabalho era um edifício degradado e com várias camadas. “Era um somatório de tempos diferentes”, explica ao PÚBLICO  o arquitecto Manuel Aires Mateus. Assim, a proposta passava por preservar a igreja, o claustro e os grandes muros para reorganizar o restante espaço.

As paredes foram reforçadas e a estrutura de madeira foi “substituída por uma estrutura em aço que se suspende a partir das janelas e que deixa passar luz entre ela e as paredes pré-existentes”. No ar, fica “a ideia de um espaço que flutua, separando pela luz aquilo que é novo”.

A recuperação foi desenhada ainda antes de a área ser classificada como Património Mundial pela UNESCO, mas esse desenvolvimento não alterou um único traço do projecto. Aires Mateus refere que o Colégio da Trindade se insere “num conjunto monumental maravilhoso” e que o projecto “não faz mais do que seguir a história daquele lugar”. “Não se quer impor, quer-se integrar”, resume.

Ao contrário dos edifícios que o rodeiam, o telhado da Casa da Jurisprudência é revestido a pedra de lioz, material semelhante ao piso do Páteo das Escolas. “Parece que estende o terraço da reitoria. A ideia é essa, não fazer nenhuma ruptura”, numa “completa submissão aos valores patrimoniais existentes”, assume o arquitecto.      

Sugerir correcção
Comentar