Crítica

Os jovens portugueses de França

A origem portuguesa nunca foi para Laurence Ferreira Barbosa uma questão de cinema. Essa é novidade de Todos os Sonhos do Mundo, que assenta em personagens da comunidade portuguesa imigrante em França.

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A “diáspora” portuguesa tem gerado alguns (poucos) cineastas, e pensamos em Sérgio da Costa (que com Maya Kosa realizou Rio Corgo) ou em Basil da Cunha (Até ver a Luz), que trabalham a origem portuguesa como um dado do seu cinema. Antes deles houve Laurence Ferreira Barbosa, francesa de origem portuguesa, revelada nos anos 90 com As Pessoas Normais Não Tem Nada de Especial, e desaparecida depois de um período em que parecia próxima da primeira linha do cinema francês. Mas a origem portuguesa nunca foi para ela uma questão (uma questão de cinema, entenda-se). Essa é novidade de Todos os Sonhos do Mundo, que assenta inteiramente em personagens da comunidade portuguesa imigrante em França.

A primeira parte é mais descritiva de aspectos dessa comunidade, com um olhar até “semi-documental”. As primeiras cenas, por exemplo, destinadas a expor o desinteresse por Portugal da maior parte daqueles adolescentes nados e criados em França, para quem o país é apenas a terra dos pais e dos avós, a “aldeia” aonde se vai passar umas semanas em Agosto, com maior ou menor enfado; e a caracterização das personagens ganha em credibilidade (quer dizer, na facilidade com que se acredita nelas) com aquela espontaneidade imperfeita de “não-actores” que quase todos exibem, a começar pela miuda protagonista, que num sinal dessa espontaneidade é duplamente Pamela, nome da personagem e nome da actriz.

Essa primeira parte, mais descritiva na maneira de lançar a narrativa num contexto social e cultural, tem alguma força, alguma agitação na encenação dos impasses de Pamela — que está a acabar o liceu mas tem dificuldades para não reprovar, tem dificuldades para tirar a carta, tem dificuldades no relacionamento com os pais e com a irmã, com os rapazes, e até da melhor melhor amiga se afastou, o seu feito reservado um tanto incompatível com a exuberância da outra.

Em suma, “realismo francês” num contexto luso-descendente, e pourquoi pas? Mas depois, é no forçar de uma relação com a “origem” que o filme soçobra. Toda a sequência portuguesa, nas férias de Verão, é desapontadoramente esquemática, o registo soa a falso, até os actores parecem estar menos bem, e tudo acaba, paradoxalmente, por ter uma função acessória, quase decorativa, no resolução do amadurecimento da personagem de Pamela.

A sua graça tímida e desajeitada sai incólume, como no fundo sai intocada a curiosidade deste olhar, ao mesmo tempo “dentro” e “fora”, sobre os portugueses de França, mas é um filme que acaba a dar menos do que o que pareceu prometer.