Crítica

O mundo que nos rodeia

Dois rapazes num liceu de província a tentar fazer sentido do seu mundo. O melhor filme em muito tempo de Téchiné.

<i>Quando se Tem 17 Anos</i>: o reencontro com um cineasta que sentíamos perdido
Foto
Quando se Tem 17 Anos: o reencontro com um cineasta que sentíamos perdido

Houve um momento em que o nome de André Techiné era garantia de distribuição regular em Portugal — e óptimas obras como O Segredo do Amor (1981), O Local do Crime (1986), A Minha Estação Preferida (1993), ou Os Juncos Silvestres (1994) estão aí para o provar. É verdade que o percurso do cineasta que deu papéis em ouro a Deneuve, Dewaere, Auteuil e Binoche se meteu por alguns becos sem saída ou por ramais menos interessantes nos últimos anos; é por isso que se deve saudar o seu regresso (mesmo que quase confidencial e atrasado) às nossas salas com Quando Se Tem 17 Anos, estreado no Festival de Berlim há quase dois anos.

Co-escrito com Céline Sciamma (a autora de Bando de Raparigas e argumentista de A Minha Vida de Courgette), Téchiné regressa aqui à adolescência que lhe inspirou alguns dos seus melhores filmes para desenhar uma história de repulsa e atracção entre dois rapazes num liceu de província, fazendo coexistir descoberta do mundo com descoberta de si próprio e compreensão da sexualidade. De um lado, está o filho adoptivo de um casal de camponeses, do outro, o filho de um piloto militar e da médica local (interpretados com garra pelos jovens Corentin Fila e Kacey Mottet Klein).

Thomas e Damien embirram um com o outro quase imediatamente, e o rasgo de Quando Se Tem 17 Anos está em tratar essa embirração como sintoma da tentativa de fazer sentido do mundo que os rodeia. Não se trata apenas de uma embirração de grupinhos de liceu, mas algo que miscigena questões de família, estatuto social, atracção e repulsa, comportamentos adquiridos ou esperados a esconderem a verdadeira natureza das suas personalidades, que será revelada com a ajuda providencial da mãe de Damien (Sandrine Kiberlain, discretíssima).

É verdade que Téchiné não inventa aqui nada nem explora território que já não conhecesse antes, mas Quando Se Tem 17 Anos tem uma desenvoltura, uma sensibilidade, que faz deste filme um reencontro com um cineasta que sentíamos perdido. Eabe que também isto vai passar. Vale, francamente, a pena reencontrar aqui André Téchiné.