Opinião

A mulher adúltera no Evangelho segundo João e a Relação do Porto

Há sentenças e acórdãos que são uma vergonha para a justiça e pela sua natureza contribuem para que a maldade e o crime se sobreponham à bondade e à legalidade.

In illo tempore, nos Evangelhos segundo João, 8:11-11, quando os fariseus e os escribas lhe trouxeram uma mulher adúltera e se preparavam para a apedrejar, Cristo respondeu-lhes que o primeiro que estivesse sem pecar atirasse a primeira pedra à mulher.

Neste tempo, no terceiro milénio, na era dos direitos humanos e da igualdade do género, neste tempo de descobertas científicas que permitirão ao homem e à mulher viajar um dia até Marte, ainda há quem julgue através de critérios mais retrógrados que aqueles que imperavam nas sociedades patriarcais de há milhares de anos.

Neste tempo ainda há quem invoque para atenuar o crime de violência doméstica de espancamento com paus e pregos as punições que existem onde o Direito Democrático é substituído pela charia, tão cara ao Daesh.

O adultério não é em Portugal crime e tanto pode ser praticado por homem como por mulher.

É sobretudo um conceito que envolve uma censura de ordem ética e que se circunscreve à relação entre os humanos envolvidos.

Neste tempo de direitos iguais para mulheres e homens, pretender que o adultério feminino é atenuante que deva ser tido em conta, por quem violentamente armado de pau com pregos para tornar mais dolorosas as pancadas, constitui uma verdadeira aberração cultural e social. Trata-se de um crime.

Neste tempo, em que todos os dias os media escarrapacham em grandes letras ou em imagens os casos em que homens e mulheres têm sexo sem ser com o(a) legitimo(a), pretender que a mulher adúltera deve ser tida em conta com os mesmos critérios de in illo tempore ou das práticas obscurantistas de regimes absolutistas, é uma abordagem própria de quem vive rodeado de fantasmas e medos próprios de misóginos, incapazes de encarar a mulher como uma cidadã portadora dos mesmos direitos e deveres que o cidadão homem.

A Constituição da República, o Código Civil, o Código Penal consideram homens e mulheres como seres iguais e pretende-se que as desigualdades persistentes desapareçam.

A defesa que o adultério da mulher pode desencadear uma fúria de violência do macho “ofendido” é próprio de uma mentalidade retrógada que resiste a evoluir no sentido democrático que, à luz de todos os princípios constitucionais na Europa e no mundo, salvo exceções, consideram homens e mulheres seres iguais em direitos e obrigações.

É chocante que alguém que julga os concidadãos encontre, no pior da Antiguidade e das misérias que restam na modernidade, justificação para que todos os criminosos tenham a pulsão livre para lavarem a sua “honra” à paulada num ser indefeso.

Na Bíblia no Evangelho de João a mulher adúltera é perdoada; bem sabemos que o homem adúltero não precisava de ser perdoado, salvo se tivesse cometido adultério com mulheres da alta sociedade… Daí que, neste tempo de luzes, seja ir às trevas do retrocesso para tornar este mundo mais injusto e cruel.

Pode o adultério feminino ou masculino causar tristeza, perplexidade, angústia, mas levar a que o homem possa sentir-se livre para que a sua pulsão animalesca venha ao de cima e violente a sua ex-companheira é um horror.

Há sentenças e acórdãos que são uma vergonha para a justiça e pela sua natureza contribuem para que a maldade e o crime se sobreponham à bondade e à legalidade.

São não só uma ignomínia, como também inesperados tal a dimensão do choque que produzem dentro da comunidade.

Pior: convocar princípios religiosos ou regimes absolutistas é dar luz verde a todos os cidadãos que têm dentro de si instintos violentos. Quantos milénios tem a Bíblia? Desde quando é fonte de Direito? As sociedades que perseguem o adultério feminino com a lapidação são exemplo para as atuais sociedades democráticas e modernas?

Em Portugal já há mortes de mulheres que bastem à mãos dos maridos e dos namorados.

Estes dias de sol e luz ficaram toldados pelo manto brutal da violência masculina.