Opinião

Não é o “quero, posso e mando” que vai salvar Espanha

Não obstante os desejos de Rajoy e daqueles que o incentivam, não é o “quero, posso e mando” que vai salvar a Espanha. Bem pelo contrário.

Com o aumentar da tensão na questão da Catalunha, instalou-se também em Portugal a ideia de que não se pode criticar o governo de Espanha sem ser pela independência da Catalunha ou criticar o governo catalão sem ser um espanholista assumido. Se calhar por isso mesmo, há que começar pelo fim: como a maioria dos portugueses, não sou a favor (nem contra) a independência da Catalunha. Admiro a Espanha, plural e magnífica como ela é, e gostaria que ela se mantivesse unida. Não me peçam, porém, para achar a independência da Catalunha um absurdo ou uma catástrofe inimaginável. Há razões históricas sociais e culturais para a Catalunha não ser independente, como há razões das mesmas ordens para a Catalunha ser independente. Só os catalães e os espanhóis podem decidir — de forma pactuada, de preferência — se umas razões pesam mais do que outras. Mas se a opção da independência conquistar a maioria dos catalães, paciência. Já não estamos no século XVIII, nem sequer no XIX ou no XX. A história está cheia de situações em que se gritou que tal nação ou região “é nossa” para depois se descobrir que temos de aprender a viver sem ela.

Uma coisa é certa: quem pensa que vai haver alguma solução para a questão catalã sem os dois lados se sentarem à mesa e dialogarem está enganado. Bem sei que não faltam aqueles que agora alegam, do lado do governo espanhol, “mas dialogar sobre o quê?” — porque, alegam, não podem dialogar sobre o que na sua opinião viola a constituição espanhola. Mas de um lado ou do outro, a política do “não temos outra opção” é má conselheira. Puigdemont parece tê-lo entendido quando decidiu suspender os efeitos do mandato para declarar a independência, há duas semanas, ao contrário do que lhe exigiam os independentistas mais radicais. Por confusa, ambígua ou inelegante que tenha sido a sua decisão, a verdade é que ela entreabriu uma porta para o diálogo.

Ora, independentemente das considerações que tecerem os adeptos do “não tinha outra opção” e do “conversar sobre quê?”, a verdade é que Rajoy não aproveitou a ocasião para abrir a porta de par em par, mas para a fechar com estrondo. Tem com ele uma maioria da classe política e da opinião publicada espanhola, mas isso não quer dizer que uns e outros estejam preparados para o que se vai seguir. Abolir o auto-governo da Catalunha, prender (como já aconteceu) catalães pelo “crime” de organizarem manifestações pró-independência e ameaçar prender os governantes da Catalunha por “rebelião”, pretender fechar uma estação de televisão pró-independência são só os primeiros passos deste caminho. Que vai fazer Rajoy se milhões de catalães continuarem a sair às ruas, se a administração e a polícia catalãs desobedecerem, ou quando as segundas linhas do independentismo se revelarem mais radicais do que as primeiras? Prender milhares de pessoas que Madrid acusa de serem irresponsáveis, mas que o resto do mundo não toma por violentas?

Rajoy tem até agora contado com o apoio dos estados-membros da União Europeia, como seria natural que contasse, em particular no Conselho Europeu, que funciona na base dos interesses dos governos nacionais. Mas dificilmente poderá tomar esse apoio por assegurado se a repressão ao independentismo catalão entrar numa nova fase. Os governos nacionais também são sensíveis às suas opiniões públicas, e as instituições europeias de que a Espanha faz parte, na UE e no Conselho da Europa, irão mais tarde ou mais cedo lembrar as obrigações que a Espanha tem perante a Convenção Europeia dos Direitos Humanos. Enquanto o independentismo catalão se mantiver pacífico, há limites para a resposta de Madrid.

Não obstante os desejos de Rajoy e daqueles que o incentivam, não é o “quero, posso e mando” que vai salvar a Espanha. Bem pelo contrário.