Crítica

Classic Mini: SNES — a Nintendo é uma curadora da excelência

São mais de vinte títulos que escancaram a porta para a experimentação e compreensão de videojogos clássicos. A Super Nintendo prova em 2017 o carinho que recebeu ao longo de décadas.

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A Super Nintendo é uma das consolas mais amadas de todos os tempos. A era dos 16 bits saiu indelevelmente daqui para as memórias, deixando os jogadores de olhos deleitados com o charme que preenchia aqueles mundos. Ainda não se sabia, mas era um catálogo de cartuchos que se formava para a posterioridade, uma história que se escrevia sentados no chão de joelhos cruzados.

Na Europa, estávamos em 1992. Agora, a SNES está de volta, mais compacta e mais tecnológica, voltando a espalhar carisma num mundo que não parou de girar desde então. Depois de em 2016 ter colocado à venda a Nintendo Classic Mini: Nintendo Entertainment System (NES Mini), a gigante nipónica volta a repetir a fórmula e disponibiliza a Nintendo Classic Mini: Super Nintendo Entertainment System (SNES Mini), e voltamos a sentar-nos no chão com um sorriso no rosto.

Comparativamente à NES Mini, este ano temos menos jogos. No ano passado a pequena consola incluía 30 obras e agora são 21 títulos. Mas, na prática, bastam algumas horas a experimentar o que está encerrado neste pequeno bloco de plástico cinzento para se perceber que são propostas com mais estrutura, percebendo-se o salto geracional entre dispositivos.

Isto não quer dizer que as três dezenas de jogos da pequena NES fossem maus, mas sim que agora temos oportunidade de viver ou reviver algumas obras mais conseguidas que são pilares definidores da indústria. A Nintendo sabe-o bem. Aliás, muitos dos jogos que estão aqui desabrocharam em séries ainda activas e populares hoje em dia e praticamente todos os que não tiveram esse desígnio são constantemente relembrados enquanto se fantasia com a possibilidade de um novo capítulo.

Super Mario World e Super Metroid são clássicos incontornáveis, que décadas depois continuam a ser elogiados. Donkey Kong Country mostra-nos o motivo da Rare, que agora está a ultimar Sea of Thieves, ser idolatrada pelo trabalho pretérito. Super Mario Kart e F-Zero oferecem corridas que testam agora, como então, os reflexos e a memória dos traçados. No caso de Super Mario Kart há também o teste às amizades graças ao multijogador local e aos itens que podem arruinar a corrida do adversário.

A Nintendo foi inteligente na forma como fez a curadoria. É fácil alegar que a consola podia ter o dobro dos jogos, mas o que marcam presença preenchem vários géneros e, consequentemente, várias disposições dos jogadores. Os exemplos dados são de fácil acesso: uma corrida ou um nível rápidos. Mas há também colossos onde se podem afundar dezenas de horas. Aventuras e Role Playing Games que entregam epopeias revitalizadas.

Final Fantasy III e Secret of Mana são bons exemplos para os fãs conhecerem as raízes da Square Enix (então conhecida como Square ou SquareSoft) muito antes de Final Fantasy XV. Mas há mais exemplo de sorvedouros de horas, como o incontornável The Legend of Zelda: A Link to the Past e Super Mario RPG: Legend of the Seven Stars. E EarthBound também está incluído, dando uma oportunidade aos jogadores de perceberem o alarido que gerou quando há alguns anos chegou à Consola Virtual da Wii U - publicado originalmente em 1994, foi em 2013 que ficou pela primeira vez disponível para os fãs europeus.

E se há propostas mais acessíveis como Yoshi’s Island, Kirby’s Dream Course (Kirby volta a ter destaque em Super Star), há também testes para os jogadores mais hábeis, como os sempre desafiantes Super Ghouls 'n Ghosts, Mega Man X e Super Castlevania IV. E jogos de luta com Street Fighter 2 Turbo: Hyper Fighting e Super Punch-Out!!. Com vários géneros e almejando ter algo para vários tipos de jogador, a Nintendo permite, além de reviver memórias, apresentar esta era a novos jogadores, com a SNES Mini a ser uma bandeja de prata.

Com dois comandos incluídos na caixa, o multijogador local está assegurado em todas as obras que o suportam. No caso da NES, uma das memórias mais fortes que dificilmente esquecerei, além do omnipresente Mario, é Contra. A SNES também tem um título da série, nomeadamente, Contra 3: The Alien Wars. Pode não ser o melhor jogo da série, até porque alguns ângulos são simplesmente maus, mas a dois é uma nova dimensão - uma camada em que são duas pessoas a olharem para além do ano que marca no calendário, como se fosse a justaposição de duas linhas temporais.

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Recentemente tenho dedicado bastante tempo à Nintendo Switch. Com as duas consolas lado-a-lado, a sensação de cooperação local suplanta as décadas cronológicas e obviamente as diferenças tecnológicas. Seja com dois comandos da SNES ou com os dois Joy-Con da Switch, é uma ponte que prova que os videojogos, quando são bons, não estão hermeticamente fechados no tempo. O que a Nintendo faz com a SNES Mini é deixar respirar títulos que estavam sufocados pela sua longínqua data de lançamento.

Para o final deixei propositadamente Star Fox. Há dois jogos da série incluídos neste catálogo. Se terminarem o primeiro nível do primeiro têm acesso a desembrulhar um presente especial, Star Fox 2. Não só Star Fox 2 é um portento técnico para a consola, mostrando não só um grafismo interessante, como uma profundidade de jogabilidade bastante conseguida, como é especial porque nunca tinha sido publicado.

Cancelado em 1996, esta é a primeira vez na história da Nintendo que se pode experimentar a obra de forma legal. E há um enamoramento com laivos de acontecimento em estar a jogar uma estreia com este comando nas mãos enquanto se tira momentaneamente os olhos da televisão para espreitar um hardware especial.

Fora dos videojogos propriamente ditos e ainda no departamento no software, a SNES Mini tem algumas funcionalidades interessantes. Além de permitir criar Pontos de Suspensão, ou seja, pontos em que gravamos o progresso feito em qualquer um dos jogos, há também a possibilidade de rebobinar os jogos. Se algo correr mal, podem rebobinar o tempo até cinco minutos e repetir o trecho na tentativa de uma melhor prestação. Pode parecer que não tem importância, mas nas obras mais exigentes é bastante útil.

Finalmente, há duas opções de personalização que ajustam a experiência que têm com os visuais oferecidos. É possível alterar a moldura exibida à volta da janela onde o jogo é exibido e, mais prático, alterar a resolução da mesma. Além da resolução original há um aspecto 4:3 e, caso queiram levar o embalo visual de outrora até ao patamar máximo, possibilidade de transformarem o vosso televisor num aparelho CRT. Na prática, são mostradas aquelas barras horizontais tão características dessa época, o que ajuda o salto temporal.

Os pontos menos positivos da SNES Mini estão relacionados com o hardware. Depois das queixas apresentadas no modelo anterior, os cabos dos comandos são maiores, mas ainda assim muito aquém do ideal. Além disso, a Nintendo não incluiu um transformador na caixa. O cabo USB faz parte do pacote, mas precisam de comprar ou usar algo que já tenham para que a consola receba energia. O cabo HDMI também está incluído e, tal como já foi mencionado, dois comandos, ao contrário do que aconteceu com a NES Mini.

A SNES Mini não é apenas para os fãs acérrimos da Nintendo, mas sim para os amantes dos videojogos. É preciso que estes jogos sejam experimentados para se compreender como chegamos ao que temos em 2017. Não é uma proposta barata, com as lojas nacionais a marcarem a consola com um preço de 89,99 euros no momento em que este texto é escrito, mas a qualidade e a importância do que está incluído são catalisadores para dezenas de horas de nostalgia, sim, mas também de elucidação.